Por Bia Cardoso para as Blogueiras Negras

Apenas duas semanas em cartaz, esse foi o tempo em que o documentário “Mulheres Africanas – A Rede invisível” permaneceu nos cinemas de Brasília. Tive que reservar dia para vê-lo, porque os horários eram restritos. Então, se ele estiver em cartaz em sua cidade, não deixe de conferir.

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A primeira surpresa, o documentário é uma produção brasileita. Fico feliz que o Brasil esteja se interessando pelo continente africano, especialmente pelas mulheres. Uma iniciativa que já tinha dado certo na Tv Brasil com o: Nova África. O programa começou em 2009, em 2012 teve Dina Adão como apresentadora e segue mostrando diversos aspectos desse imenso continente.

“Mulheres Africanas – A Rede Invisível” apresenta trajetórias de luta, o cotidiano e as conquistas histórias da mulher africana na atualidade. O foco são os depoimentos de cinco mulheres: a moçambicana Graça Machel, política e ativista dos direitos humanos e ex-ministra da educação; a liberiana Leymah Gbowee, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2011 por organizar o movimento de paz que pôs fim a Segunda Guerra Civil da Libéria; a tanzaniana Sara Masasi, empresária mulçumana de grande sucesso; Luisa Diogo, atual deputada e ex-primeira-ministra de Moçambique; e a sul-africana Nadine Gordiner, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura (1991).

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A África não é feita só de fome, genocídios e pobreza. Há desenvolvimento e crescimento no pais, em grande parte capitaneado pelas mulheres, seja na área rural ou nas cidades. As africanas são a principal base da organização política, econômica, comunitária e cultural do continente. Porém, o machismo e o sexismo ainda são grandes. Muitas meninas não tem acesso pleno a educação e algumas tradições acabam tornando-se um grande empecilho para seu desenvolvimento pessoal.

O formato do documentário segue o padrão de entrevistas simples. Porém, há espaço para algumas novidades, como caminhar e dirigir com Sara Masasi pelas ruas da Tanzânia, enquanto ela cumprimenta alegremente as pessoas, fala como seu negócio cresceu e explica que a religião mulçumana não representa o fim da liberdade para as mulheres. Há quem use burcas, mas a maioria das mulheres que aparecem na tela usam véus com estampas africanas, incluindo mais um elemento cultural a esse caldeirão.

Outra curiosidade reside na trança de Luisa Diogo, que em meio a várias histórias das mulheres de sua família, tira um tempo para explicar como o penteado é feito. É bonito ver os momentos em que a câmera procura as mulheres africanas nas ruas, em toda a sua diversidade e protagonismos. São esses pequenos momentos que fazem esse documentário ainda mais interessante. Graça Machel e Leymah Gbowee também dão ótimos depoimentos, relatando suas experiências pessoais, apenas Nadine Gordiner parece destoar, não apenas por ser branca, mas por trazer questões mais filosóficas que práticas.

Esse é o tipo de produção que eu gostaria que fosse exibida em cada escola brasileira, para as pessoas compreenderem o quanto somos próximas dessas mulheres em diversos aspectos. Como diz Luisa Diogo, é preciso multiplicar os rostos e ampliar as vozes das mulheres africanas, pois são elas quem estão capitaneando as mudanças sociais e políticas do continente. São elas a peça fundamental para a conquista da paz. Em outro trecho, Leymah Gbowee resume bem a luta das mulheres por reconhecimento:

Por que celebramos Gandhi? Por que celebramos (Martin Luther) King? Por que celebramos Mandela? Nós dizemos que eles são homens poderosos. Deveríamos ter dificuldades de celebrar as mulheres? Não. Porque o que King, Mandela e Gandhi fizeram é o que você vê as mulheres fazerem todos os dias em suas comunidades. Elas também deveriam ser celebradas.