Por Letícia Maria para as Blogueiras Negras

Vi este texto, com vários outros comentários, destaquei este:

Minha empregada é como se fosse da família.

Pergunta: ela vai dividir a sua herança com seus filhos?

[…]

Todos esses foram comentários que li por aí nas notícias sobre a tardia equiparação dos direitos das domésticas com os de todas as outras categorias. A gente já sabia que essa relação no Brasil era assim, mas não dá pra não ficar chocado com tantas manifestações sem noção. Parece que pra classe média brasileira as domésticas tinham mais é que ser gratas por abrirem mão das suas vidas pessoais pra servirem seus(uas) patrões(oas), tão bondosos e caridosos.

Léo Moraes

Repliquei, adicionando o comentário:

Praticamente da família”, tenho vontade de vomitar quando ouço isso.

Pior, agora os filhos da empregada (quase da família) na universidade. É pra matar a dona patroa. Que morra então!

Aos que não sabem, sou filha de empregada doméstica. Minha mãe atualmente está sem trabalhar, dois anos depois de sofrer um acidente. Quando o acidente ocorreu, ela já não mais trabalhava como doméstica, por último ela era serviços gerais de uma grande empresa (serviços gerais = limpeza). Mas ela foi empregada durante anos: durante minha infância e minha adolescência.

Quando era criança, durante as férias, ela me levava junto para o trabalho. Lá, eu podia tomar banho de piscina e ajudar ela em algumas tarefas, onde normalmente, eu ajudava com os vidros (que eram muitos, ao longo dos três andares de uma casa). Na adolescência, quando eu queria muito uma roupa nova, para uma festa ou coisa do tipo, também fazia isso, assim poderia tirar uns 15 ou 20 reais para comprar uma blusa.

A mãe nunca teve restrições para que eu a ajudasse, mas sempre deixou claro que eu não devia seguir sua profissão, pois ela era degradante e desumana. Sempre.

Com 14 anos, resolvi que eu iria mudar de escola. Decidi que sairia da escola estadual, e iria para uma escola privada, pois precisava garantir que teria boas condições de ter um emprego. Do alto da sua fortuna, minha mãe me deu todo material escolar (incluindo livros e uniforme) enquanto, meu pai (que trabalhava como calderista em uma empresa de borracha) pagou minha matricula: resolvi ser professora e fui estudar em uma escola bem conceituada da cidade.

Nós tínhamos grandes dificuldades de entender como as coisas funcionavam na escola, e procuramos todas as opções possíveis de pessoas e informações que pudessem nos ajudar, a ir atrás de descontos, comprar livros usados, essas coisas.  A patroa da mãe, na época, também era professora. Sugeriu que eu fosse para outra escola estadual que também tinha magistério. Na época, a escola era considerada ruim em relação à qualidade do curso e a aceitação no mercado. Até hoje não sei se ela quis realmente me ajudar, ou se ela não queria ‘gente como eu’ em uma escola, como a do filho dela.

A filha da empregada estudando com o filho do patrão. Imagina!

Antes das aulas começarem, eu já tinha conseguido quase todos os livros usados (uns ganhados, outros paguei bem pouquinho), consegui desconto e minha mãe pagou meu primeiro ano na escola. Sim, com sua fortuna de doméstica. Com o desconto, a mãe conseguia pagar minha mensalidade e minha passagem. A partir do segundo ano, comecei a trabalhar. Paguei todo meu curso, assim como paguei minha graduação. Não pude ser contemplada pelo prouni ou pelas cotas, por ser estudante de escola privada.

Enquanto minhas amigas se vestiam bem, iam para o shopping passear, eu trabalhava para pagar a escola. E quando queria sair com elas, limpava vidros para poder pagar. Sempre tive tudo para seguir no ramo da mãe, mas tive uma família com discernimento suficiente para me estimular a estudar e ir à luta por aquilo em que eu acreditava. Hoje temos condições de vida razoáveis porque meus pais ralaram durante anos para isso. E eu também.

Estudei na mesma universidade que o filho da patroa. Agora com a PEC das empregadas domésticas a burguesia se agita. De novo.

Tem patroa achando injusto ter que pagar direito trabalhista.

Afinal, elas são praticamente da família.

Já passou da hora! Esta PEC vem mostrar que já passou da hora de parar de explorar o trabalho da mulher (na sua maioria negra) de forma tão injusta e mesquinha. Sabemos que o Brasil (em sua tradição escravocrata) ainda é o país que mantém o maior numero de empregadas domésticas no mundo, em torno de 7,2 milhões de pessoas, 83% delas, mulheres. Em torno de 70% dessas, são negras. Mas apenas cerca de 10% delas são contempladas pelos direitos trabalhistas. Luana Tolentino ao escrever a Carta Aberta ao Grupo Antiterrorismo de Babás, sinaliza algo.

Achou injusto, patroa?

Minha mãe se considerava da família, até a patroa desconfiar dela. A mãe foi demitida, e depois teve muitas dificuldades em se adaptar em outras casas, por isso passou para os serviços gerais. Não havia envolvimento emocional. A mãe é minha. Ela nunca fez parte da família da patroa.

Charge por Carlos Latuff

 Não gostou, patroa? Pega a vassoura e te vira!

 

  • SAMUEL TOJEIRO SÁ

    E VIVA O POPULISMO POLITICAMENTE CORRETO!

  • Olá, achei o seu texto esclarecedor. Não acho que ele negue que se possa ter sentimento, gostar ou ter a “impressão” de que a empregada faz parte da família. É da família, mas até que ponto, não é? Isso pode sim e de fato é usado como argumento por muitas pessoas para não pagar os direitos trabalhistas. Minha mãe sempre pagou. Como você disse, é uma herança não querida bem mais antiga.
    Seu artigo me lembrou a música “A mão da limpeza” do Gilberto Gil. Não acha que lembra?
    https://www.youtube.com/watch?v=bne1Y-fPUSQ

  • Só discordo da parte do serviço ser degradante. Serviço doméstico não é degradante, tão pouco prestar serviços domésticos. A grande demanda de serviços domésticos é mais herança da “monarquia” do que da escravidão, mais herança da migração do que da escravidão, principalmente, essa questão de “ser da família”, já que as moças vinham para São Paulo e outras cidades como “favor”… ajudar nos serviços domésticos para morar em outro lugar, com outra família. Esse, é um costume, quem diria, europeu. “Trocar” pessoas da família para prestar serviços domésticos como parte da criação, principalmente, fluindo da parte mais pobre para a parte com mais recursos.

  • Sinceramente, as pessoas contratam o serviço doméstico o fazem porque se acham qualificado demais para fazê-lo – seja pra tirar o copo da mesa ou pra passar um pano na sua TV de plasma que custa mais que o serviço que paga. Na Europa, por exemplo, o hábito não é tão comum e as pessoas são menos escravas desta relação que só cabe se você mora numa mansão de 20 quartos ou tem idosos em casa (caso da minha mãe). Tirar 2h da sua semana pra limpar a sua casa não é nenhum sacrifício. Ao mesmo tempo, esses “agradinhos” indicam uma enorme culpa e vontade de pagar menos do que a profissão merece. Esta cultura da empregada o dia todo em casa, pode criar ainda uma classe media preguiçosa. As pessoas criam os filhos para que eles dependam sempre de uma força de trabalho que faça tudo pra eles.

  • Andrea Estevam

    Imoral a resignificação das relações escravocratas…o quartinho de empregada cuja porta sai na cozinha é a arquitetura do terror…releitura da senzala.

  • Eni

    Texto de uma coerência fantástica, incrível mas parte dos comentários vem de mulheres pretas que assim como eu, que são filhas de empregadas domésticas e que de alguma forma conseguiram ascender profissionalmente, a grande maioria dentro da área educacional. Acredito que isto não é por acaso. Mas tirando os méritos do texto li acima um texto resposta de uma moça chamada Luisa e algo no texto dela me deixou bastante incomodada: minha empregada é dá família. A pessoa em questão não se deu ao trabalho de mudar o termo “empregada”: o que recebe paga por trabalhos. Palavras tem um poder marcante para dizer em que terrenos estamos caminhando.

  • groucho

    Ela tá na partilha, luiza?

    • letthyssia

      Dos bens ou como bem?
      Dos bens, posso apostar que não.
      Como bem, não duvidaria.

  • Ótimo texto, perfeita observações da sociedade demagoga

    • letthyssia

      Obrigada!
      Sempre aceitando colaborações 🙂

  • *escravocrata, *transcende. Desculpem os erros, digitei com pressa e enviei sem revisar.

  • A minha “empregada” não é como se fosse da família, não. Ela é da família. Ponto.

    Sei que essa minha afirmação parece agressiva, mas é verdadeira. Embora o mundo seja um lugar inóspito e injusto, é normal que partamos do princípio de que todas as empregadas sejam exploradas e mal-tratadas no nosso Brasil escravocata.

    O que não podemos fazer é usar esse fato para negar a realidade de que algumas empregadas criam, sim, vínculos fortíssimos com as famílias para as quais trabalham e vice-versa.

    Somos humanos, podemos criar laços afetivos e emocionais com os nossos empregadores e empregados, sim. A minha tia (sim, minha tia, não a “empregada” da família) começou a trabalhar na casa da minha avó. Quando eu nasci, ela passou a trabalhar na casa dos meus pais.

    Me expliquem como e por que a pessoa que me deu o primeiro banho, que me educou, que me deu carinhos e broncas, que esteve ao meu lado em momentos tão importantes da minha vida e um longo ETC. não pode ser considerada, POR MIM, de coração, como alguém da minha família? Como, inclusive, uma pessoa BEM MAIS importante que tantas outras que são da família sanguínea?

    Por que ela não poderia me considerar uma sobrinha (como ela diz) ou de certa maneira como uma filha mesmo (como eu sei que ela no fundo sente, pois também a considero uma mãe)?

    Infelizmente, a militância – tão importante – às vezes objetifica as pessoas, as relações pessoais, e inclusive as relações culturais.

    Achei muito interessante o seu relato biográfico, e fiquei com vontade de compartilhar o meu.

    Não vou aceitar essa “culpabilização” por sentir que a minha tia é uma pessoa da minha família. Por trás de toda e qualquer hierarquização (seja social, cultural, econômica, etc.) o que prevalece, para mim, é o meu sentimento, a minha história, a minha formação como pessoa, como cidadã.

    E, nesse caso, a pessoa contratada inicialmente como “doméstica” pela minha família tem um papel importantíssimo que trancende qualquer categorização que a sociedade escravocrata ou vocês mesmas queiram (ou tentem) impor.

    • Marco Andrade

      E vai entrar na partilha de herança então? Que bom pra ela… foi “adotada” mesmo que tardiamente.

    • letthyssia

      Todos criam laços. Eu mesma criei laços com os patrões da minha mãe. Mas a afetividade não minimiza as relações de opressão.
      Sua empregada pode ser da família, mas o trabalho doméstico é exploratório sim, mesmo qe não nos sintamos explorados/exploradores.
      Lamentavelmente o trabalho doméstico é ua das maiores heranças da escravidão no Brasil.

      Vi muitas empregadas ouvirem isso. Mas não são da família. Assim como a sua não é, mesmo que vc goste muito dela.
      Aliás, ninguém tenta impor nada aqui. A exploração da mão de obra, históricamente mulher e negra não são conceitos criados por mim, mas pelo capitalismo.

    • fernana

      olha, luisa, eu entendo sua colocação, eu fui criada especialmente pela minha empregada/babá, já que minha mãe trabalhava todo dia, foi com ela que eu aprendi escrever, ela que me ajudava com o dever de casa, ela que lia livros pra mim(sim, minha empregada era uma pessoa inteligentissima, talvez se eu tivesse sido criada pelos meus pais meu habito de ler nao teria sido tão forte) enfim, eu e toda minhha família tinhamos um vinculo muito forte, posso dizer que sem dúvida alguma ela foi uma das pessoas mais influentes da minha vida e por isso eu entendo voce porque é impossivel nao envolver afeto em algumas relações, especialmente em uma profissão que a pessoa fica um bom periodo na sua casa. A questão principal, é que nao é porque voce a ama e trata ela como uma parente, que pode tratar o trabalho dela com menos profissionalismo, o nosso afeto nao nos da direito a pagar menos pra ela, ou nao dar dreito trabalhistas (sim, mesmo antes de ser exigido minha mae sempre achou isso justo). Enfim, já saindo do assunto, quando minha mae perdeu o emprego não ia dar mais pra pagar e ela escolheu sair do emprego,as vezes ainda vem nos visitar e eu sempre fico muito feliz de reve-lá, mas gosto de saber que ela tomou seu rumo, hoje ela é professora e adivinha, eu estou me formando pra ser professora, quem sabe um dia não comecemos a trabalhar juntas?

    • Méle

      Luisa, até entendo o que você coloca. Aqui em casa não temos empregada há muito tempo, mas criamos vínculos com muitas do passado. Mas a questão é: como botamos alguém ‘da nossa família’ para fazer trabalhos que caracterizam uma relação de submissão?. Falo isso porque o trabalho doméstico é algo que todos somos capazes de fazer, mas muitas vezes não gostamos, não achamos que é trabalho pra gente etc, e colocamos outra pessoa pra fazer isso. Isso, pra mim, é relação de submissão. Então, pode-se amar a empregada do jeito que for, mas que tipo de relação está envolvida aí? Concordo com a autora do texto: essa é uma profissão que não deveria mais existir. E há de chegar o dia que nossas empregadas poderão ser o que quiserem 🙂

    • Bianca

      Eu te entendo, Luisa. Eu e meu pai morávamos com minha avó desde que nasci, pois perdi minha mãe ainda bebê e como minha avó já era idosa, tínhamos uma empregada doméstica, mas sempre tivemos por ela um carinho enorme. E não entendo porquê, só por ter grande carinho e tratá-la bem, significaria que não a pagávamos corretamente. Meu pai fazia questão de dar todos os direitos trabalhistas dela. Inclusive, quando ela começou aqui, ela nem sabia o que eram estes direitos, mas o pai fez questão de explicar à ela, pagar tudo corretamente e anotar tudinho na carteira de trabalho dela. Graças à isso, ela pode se aposentar pelo INSS e hoje usufrui os benefícios da aposentadoria. Ainda assim, ela quis continuar a trabalhar conosco até minha avó partir deste mundo, em 2008. Ela ganhava presentes de Natal, Páscoa, aniversário e os filhos dela também, como todos os filhxs da minha avó. Ela foi à minha festa de 15 anos e formaturas de colégio e faculdade, como convidada, como qualquer outro convidado, mesmo que quando formei-me na faculdade ela não mais trabalhasse conosco. Ajudamos ela a dar uma festa de 15 para a filha dela. Ajudamos no tratamento do esposo dela com câncer. Eu e meu pai fomos ao velório do pai dela quando este faleceu e ela foi no do meu tio quando ele faleceu, em ambos os casos ela não mais trabalhava aqui. Até hoje ela nos visita e trás presentes para mim, crochês que ela mesma faz, com muito carinho, para mim. Ela me cuidou desde que eu era pequena. Aqui ela cozinhava, lavava a louça, roupa e cuidava de mim, quando eu era pequena, e de minha avó, especialmente quando ela ficou bem debilitada pela doença. Ela mesma fazia questão de ficar no hospital com minha avó quando ela estava lá e ficou até o final. Como quando a vó faleceu não precisávamos mais de cuidados especiais e ela tinha o esposo para cuidar e já estava aposentada (mas, é claro, enquanto trabalhando aqui recendo por isto), ela pediu demissão. Acho que é possível sim que haja esse carinho, ela é uma grande amiga de todos na família. Inclusive, na partilha das coisinhas que restou de minha avó, ela recebeu roupas, sapatos e bens da minha avó junto com minhas tias e as esposas dos meus tios. Enfim, acho que existem casos e casos. Eu não acho um trabalho humilhante. Desculpe-me se parece um pensamento errado, mas não foi graças à esse emprego, digno como qualquer outro, que sua mãe conseguiu pagar seu primeiro ano no ensino particular? Ela prestava um serviço digno, como qualquer outro, e recebia por isso. Acho absurdo quando não pagam, ou quando tratam as domésticas mal, como inferiores e com desrespeito. Acho que o que algumas pessoas querem dizer com o famigerado “são como da família” é uma forma, às vezes ingênua e mal expressada, de dizer que não tratam as domésticas com preconceito, que as tratam como igual. Claro que existem muitos casos em que não é assim, mas eu não acho que só porque algumas famílias tratam suas domésticas como se fossem da família e com carinho, queira dizer que, por isso, não as pagam de forma justa e legal. Desculpe-me se tudo isso é ingenuidade minha… É apenas meu entendimento do assunto, talvez porque aqui em casa tenha sido assim…

  • Tadeu

    Lindo texto! Parabéns!

    • letthyssia

      Obrigada!

  • Juliana Palm

    Concordo em gênero e número e grau, como eu SEMPRE digo, se fosse da família, não ganharia salário e sim mesada, com direito a herança, quarto equivalente aos demais da casa e tarefa dividida entre os familiares. Falar que é da família é só um jeito dos patrões manterem a empregada doméstica mais tempo do que deveria sem pagar hora extra e adicional noturno.

    • letthyssia

      E mantê-la em seu lugar!
      Isso mesmo!

  • Uélintom

    Engraçadas (?!) são as capas da Veja, que demonstram de forma clara para quem ela é feita: a preta pobre é “ela” (e leia-se no sub texto “CUIDADO: Ela pode…”) e o branco de classe média alta é “você”. Juntando as capas dá: “Horror: Elas votam e têm direitos!”.

    • letthyssia

      Bem isso.
      Pior: elas pensam!

  • Muito bonito o texto, parabéns!

  • A ideia é bem essa… hehe

  • nossa, uma paulada…

    • letthyssia

      A ideia é bem essa… hehe

  • Luana

    Parabéns, Leticia!” Querida companheira de luta!

  • Andréa

    Excelente texto. Mas alguma coisa na charge, na imagem da patroa – e não de um patrão, por exemplo – loira, de peitos e corpo estilo HQ americana me incomodou.

  • Adorei o texto. Pois é. Achou ruim? Pega a vassoura e limpa, amg.

    • letthyssia

      A ideia é bem essa… hehe