Tradução do artigo Why Black Dolls Matter

Quando era uma garotinha, Samantha Knowles nunca parou para pensar porque a maioria das bonecas que possuía – American Girl (tem bonecas como a nossa Amiguinha e outros modelos de bebê), Cabbage Patch Kids (são como a Moranguinho), Barbie – eram negras como ela. Mas bonecas negras não eram muito comuns na sua terra natal, o norte do estado de Nova York, cuja população continua avassaladoramente branca. Então quando Samantha tinha oito anos, uma de suas amigas inocentemente a perguntou “Porque você tem bonecas negras?”. E ela não soube bem o que responder.

Mas a pergunta marcou a garota e, na faculdade, ela começou a pensar como ela deveria responder à essa pergunta agora adulta. Finalmente, como uma graduanda em cinema na Universidade Darthmouth, ela conheceu um grupo pequeno mas apaixonado de entusiastas das bonecas negras que costumam colecionar e expor bonecas por todos os Estados Unidos, e para a sua monografia, Knowles, então com 22 anos, concluiu o documentário chamado “Why Do You Have Black Dolls?” (Por que você tem uma boneca negra? – em tradução livre) para articular a resposta.

Jillian Knowles em still do documentário da irmã, posando com a coleção de bonecas das duas.

Jillian Knowles em still do documentário da irmã, posando com a coleção de bonecas das duas.

O que a cineasta do Brooklyn não sabia é que sua mãe queria tanto que as filhas, Samantha e Jillian, tivessem bonecas de sua própria raça, que ela enfrentou longas filas nas lojas e fez encomendas para garantir que ela conseguisse uma das poucas versões negras disponíveis no mercado. “Meus pais fizeram questão de nos dar um monte de bonecas negras com uma gama enorme de estilos e formas”, diz Samantha Knowles. “Nós não tivemos apenas bonecas negras, mas a maioria delas era negra. Depois de começar a trabalhar no filme eu conversei muito com minha mãe e ela dizia ‘Ah, você não imagina o que eu tive que fazer para conseguir algumas dessas bonecas!’”

Muitas das entusiastas das bonecas negras, como Debbie Behan Garrett, autora do livro “Bonecas negras: Um Guia Completo para Celebrar, Colecionar e Experimentar a Paixão” (“Black Dolls: A Comprehensive Guide to Celebrating, Collecting, and Experiencing the Passion” – sem tradução no Brasil) sente o mesmo que a mãe de Samantha.

“Sou categórica sobre uma criança negra dever ter uma boneca que reflita quem ela é”, diz Garret. “Quando uma criança pequena está brincando com uma boneca, ela está imitando ser mãe, imitando o que vê em casa, e nos seus mais tenros e impressionáveis anos, eu quero que a criança entenda que não há nada de errado em ser negra. Se as crianças negras são forçadas a acreditar que a pele branca é melhor, ou que seja apenas a ela que tenham acesso, então elas podem começar a se perguntar ‘O que há de errado comigo?’”

O documentário de Samantha Knowles estreou em outubro passado no Reel Sisters of the Diaspora Film Festival na cidade de Nova York, onde ganhou o prêmio Reel Sisters Spirit. No filme, a criadora de bonecas Debra Wright diz que quando as garotinhas veem suas bonecas, elas gritam felizes “Olha só o cabelo dela! É igualzinho ao meu.”

Pesquisas mostram que este ponto de vista sobre bonecas é real. Em 1939 e 1940, os psicólogos negros Kenneth e Mamie Clark conduziram um estudo em que eles mostravam a crianças negras duas bonecas, quase idênticas, exceto que uma era branca, tinha cabelos louros e olhos azuis e a outra tinha pele negra e cabelo preto. Os pesquisadores perguntaram às crianças qual das bonecas era legal, qual das bonecas era bonita, qual das bonecas era inteligente, qual das bonecas elas preferiam brincar, etc., e as crianças majoritariamente escolheram a boneca branca como a que tinha atributos positivos. Quando a estudante de cinema Kiri Davis conduziu um estudo semelhante com bonecas em 2005 e quando a CNN perguntou a crianças negras sobre desenhos com várias cores de pele em 2010, ambos tiveram um resultado quase idêntico ao estudo de 1940. Mas em 2009, quando foi feito uma réplica do estudo original pelo programa da ABC, Good Morning America, este mostrou mais crianças negras preferindo bonecas negras.

Três bebês Nancy, primeira boneca produzida pela Shindana Toy Company, dedicada a fazer bonecas negras etnicamente corretas. Foto: Debbie Behan Garrett.

Três bebês Nancy, primeira boneca produzida pela Shindana Toy Company, dedicada a fazer bonecas negras etnicamente corretas. Foto: Debbie Behan Garrett.

O filme entrevistou uma mulher chamada Debra Britt, que era a única garota negra na sua escola na cidade de Dorchester, Massachusetts nos anos 1950, e que cresceu cuidando de uma boneca bebê branca. Então a avó de Britt se intrometeu e começou a pintar bonecas brancas de marrom para a sua neta, além de ensinar como fazer bonecas africanas  de tecido utilizando cabaças e maçãs. “Minha avó vivia repetindo ‘Você não sabe de onde vem e precisa saber.’” Diz Debra. “E então ela me fez uma boneca de pano africana (inspirada em divindades femininas) e me contou a história da população negra.” Hoje em dia Britt comanda o Museu Nacional da Boneca Negra.

Bonecas – feitas à mão para parecer com as crianças que as amam ou com as divindades que seus pais adoravam – são encontradas por todo o mundo, em todas as culturas, todas as raças, desde tempos remotos. Na América (EUA) primitiva, todos, incluindo os escravos, faziam suas próprias bonecas. Nas grandes fazendas do sul, escravos deixavam que seus filhos colocassem um seixo em seus bonecos para representar cada medo ou preocupação e aliviá-los do peso de suas rotinas.

As primeiras bonecas manufaturadas em meados de 1800 foram produzidas na Alemanha e na França, países que dominaram a industrialização de bonecas de porcelana e biscuit no mundo ocidental por décadas. Mesmo as primeiras bonecas norte-americanas tinham cabeças e mãos produzidas na Alemanha. Não surpreende, então, que o ideal de beleza branco aristocrático da Europa tenha monopolizado o mundo das bonecas, apesar de ocasionalmente bonecas negras aparecerem entre as “belezas exóticas” de dançarinas ou personagens de ópera. Apesar de os escravos terem sido libertos em 1860 nos Estados Unidos, a maioria das famílias negras não podiam pagar pelas bonecas de porcelana europeias, que eram um item de luxo disponível para os muito ricos.

Os objetos que representam caricaturas racistas hoje conhecidas como “blackamore” ou “black Americana” cresceram no pós-guerra civil com os shows dos chamados “black faces”, onde afro-americanos eram mostrados como simplórios, com cabeças grandes parecidas com melancias achatadas, olhos arregalados e lábios vermelhos bem grandes. Essas caricaturas foram parar em livros infantis, como a série britânica “Golliwogg”, que continha várias black faces, que inclusive se transformaram em bonecos. A empresa de bonecos e livros infantis The Nancy Ann Storybook Doll Company fez personagens da história “A cabana de tio Tom” e a Reliable Doll Company foi uma das muitas que fez a Topsy, cuja característica principal era três nós de cabelo.

Mas ainda em 1910, ativistas precursores dos direitos civis Marcus Garvey e R.H. Boyd estavam brigando contra estes estereótipos. Boyd começou a sua companhia nacional da boneca negra (National Negro Doll Company) em 1911, importando porcelana fina europeia na cor marrom e vendendo nos Estados Unidos até que a empresa faliu em 1915.

O final da 2ª Guerra Mundial levou aos Estados Unidos um boom de empresas de produção de plástico desenvolvido durante a guerra. De repente, bonecas de vinil e plástico duro eram baratas e fáceis de produzir nas fábricas. Mas para a produção em massa de bonecas de plástico era tão simplificada que, para os empresários, fazer moldes especiais com características afro-americanas era um custo desnecessário. É por isso que as bonecas de plástico e vinil eram brancas. As bonecas negras que eram vendidas por empresas como Horsman ou Terri Lee eram na maior parte das vezes bonecas brancas pintadas de marrom. “Você não podia olhar para a boneca e classificar como uma representação verdadeira de uma pessoa negra”, diz Garret. “Por que era apenas uma versão marrom de uma boneca branca.”

Museu da boneca negra, Estados Unidos.

Museu da boneca negra, Estados Unidos.

A única exceção para a regra da boneca branca pintada de marrom nos anos 1950 era a Sara Lee, que foi criada por uma mulher branca chamada Sara Lee Creech, que tirou mais de 500 fotografias de crianças negras para que a sua boneca tivesse o rosto correto. Ideal Toy Company vendeu a boneca de vinil entre 1951 e 1953, mas estas são quase impossíveis de achar agora. A boneca de vinil mais famosa, Barbie, que apareceu para o mundo em 1959, ganhou uma prima chamada Francie em 1966, explica Britt. Em 1967 a Mattel produziu a boneca Francie como uma mulher negra, mas ela não vendeu bem. Em 1968 a Mattel fez outra boneca negra, Christie, provavelmente feita por uma alteração no molde da amiga branca da Barbie menos glamorosa, Midge, que foi aceita como companheira da Barbie. Em 1969 eles apresentaram a Julia, inspirada no programa de TV “Julia”, em que Diahann Carroll interpretava uma enfermeira negra viúva. Foi só em 1979 que a Mattel se sentiu segura o suficiente para lançar uma Barbie oficial com a pele negra.

Desde a década de 1990, opções para pais que queiram comprar bonecas negras para suas filhas tem sido levemente estreitas. Houveram alguns esforços nobres, incluindo a Big Beautifil Doll, a primeira boneca gorda (full-figured), criada por Georgette Taylor e Audrey Bell em 1999; o desiner negro Byron Lars do African American Barbies, para a coleção de Barbies negras feitas entre 1997 e 2010; e a linha So In Style da Stacey McBride-Irby para a Mattel, lançada em 2009. Stacey passou a lançar o The One World Doll Project, com bonecas para brincar e para exposição multiculturais. Já em 2003, Salome Yilma liderou a fundação das EthiDolls, que eram feitas baseadas na imagem de mulheres africanas que foram líderes históricas e vinham com um verdadeiro livro com histórias de vida.

O museu de bonecas negras (The Black Doll Museum) utiliza bonecas para educar os visitantes sobre os momentos sofríveis e os inspiradores na história negra americana, que contém lições para americanos de qualquer raça. A mensagem é similar a do documentário de Samantha Knowles, “Why Do You Have Black Dolls?”: Porque bonecas nos dizem quem somos.

Veja o trailer do documentário.

  • Eu sou negra, filha de judeus alemães. Fui adotada com 2 dias de vida, e não. Não tive bonecas negras, não tive nenhuma referência de negros quando criança, porque bom…minha famÍlia inteira é branca de olhos claros onde quer que eu olhe e nas escolas onde eu estudei a unica negra era eu. Isso me prejudicou? Talvez. Representatividade importa muito, mas eu tive muita sorte. Minha família me educou muito bem, e não reconheço outra família que não seja a que me escolheu.

    A questão é que desde muito cedo as crianças são “ensinadas” a adotar o padrão eurocêntrico como “perfeito”. A aceitação do meu cabelo foi gradual, mas avassaladora. Eu grito minha negritude por onde quer que eu ande, e faço o possível pra empoderar todos os negros ao meu redor, e me fazer entender.

    Pra criança mais ainda é importante ver pessoas que se parecem com elas, seja em forma de boneco, na TV, no cinema e em todo o lugar, ocupando também posições de destaque. Pra mim ver isso é um avanço e uma alegria, porque eu não tive a oportunidade de ver isso quando pequena. No meu caso, por mais que ame muito a minha família e eles sejam as criaturas mais incríveis da face da terra, fez falta. Bem diz a música do Chico César, “ser negão no Senegal deve ser legal”… a questão é diminuir essa diferença que nos é imposta. Ser branco é norma, nós seremos sempre os diferentes, está na representatividade e no empoderamento do povo preto a chave pra esse “apartheid” moderno.

  • Allyne Maciel

    Nossa que texto interessante ! Eu quando criança sempre tive bonecas brancas,sendo que a maioria eram Barbies,com um padrão de beleza totalmente diferente do meu.E acho que isso teve muito a ver,com a pouca aceitação da minha cor quando era criança…eu simplesmente queria ser branca e de olhos azuis,pois achava que assim não sofreria preconceito e os meninas da escola iriam me achar bonita também.Nunca esqueço quando já com 11 anos, ganhei uma boneca Barbie Negra,ela era surfista,com cabelo Black ,toda estilosa,eu amei tanto e me vi naquela boneca.Vi que também podia ter cabelo black,ser estilosa,que era bonita,isso definitivamente me ajudou muito na recuperação da minha alta-estima .

  • Edna Campos da Silva

    Tenho bonecas negras onde faz restauração delas?

  • MARTA

    sou mãe de uma menina linda, hoje com 27 anos, bem branquinha, como eu, e com os cabelos muito crespos, como os do pai dela, que era negro. Ela queria ser Paquita, e era difícil dizer a ela que, com os cabelos escuros e crespos, ela nunca seria Paquita. Ela detestava o cabelo e chorava, dizendo que a culpa era minha. Eu queria deixá-la linda e feliz, mas tinha dó de pentear e puxar o cabelo dela, para fazer penteados. E o coque alto do balé, meu Deus, um martírio. Na escola dela não havia uma criança negra, seguer, ou mesmo branca, como ela, mas com os cabelos bem crespos. Imagino que tenha sido difícil para ela, pois era para mim. Mas, hoje, minha filha é casada com um homem que ama os cabelos dela e ela sente orgulho daquela cabeleira crespa, cheia, cacheada, muitíssimo bem hidratada e lindíssima. Ela passou um tempo na África, a trabalho, e aprendeu a usar turbantes e a fazer penteados e diz que, se tiver uma filha, vai saber cuidar dos cabelinhos dela melhor do que eu cuidei dos dela. Fiz o que pude. Fiz o meu melhor. Sempre achei “meu carneirinho” a menininha mais linda do mundo, com aqueles cachinhos que, no Sol, ficavam dourados. E hoje, vejo meu bebê como uma linda mulher, com cabelos maravilhosos, se orgulhando de cada cachinho e fico muito feliz. Que todos possam se orgulhar do que são, que se valorizem cada vez mais e que não deixem que a maldade e o preconceito entristeçam sua vida.

  • Gabriela Porfírio

    Eu tinha uma boneca Chuquinha negra… Uma só, enquanto tinha umas 10 brancas. Mas a Pretinha (era assim que eu a chamava) era a filha preferida. Sempre foi!

  • Lois

    Não sou negra (mas sim descendente de judeus alemães), mas durante toda minha infância tive bonecas tanto brancas de olhos azuis quanto negras, asiáticas e até indígenas. Na época eu não via nada de mais nisso, mas hoje eu vejo que minha mãe ter tido todo esse esforço foi muito proveitoso pra pessoa que eu vim a ser.

  • Sempre tive dificuldades para presentear com boneca negra, às vezes por não encontrá-las nas ocasiões em que a oportunidade requeria, mas, também, outras vezes por encontrar bonecas negras mais parecidas com meninas brancas. Atualmente, conheço uma artista que produz bonecas negras lindas, a Kanaombo Silva, que atende até via facebook, vale a pena visitar o perfil dela e conhecer a sua história. Já tive a oportunidade de presentear com duas bonecas adquiridas da produção da Kanaombo Silva e… que felicidade senti quando quando as presenteadas, de imediato, disseram que dariam o próprio nome para as bonecas. Isto, para mim, representou a imagem no espelho vista por cada uma delas. Isto fez-me crer que elas, com certeza, não teriam a sensação da invisibilidade de suas próprias imagens.

  • Só ganhei uma boneca negra da minha mãe, e foi quando eu tinha 11 anos, é um “meu bebê” da estrela (tenho ela até hoje e inteira) e no mês de julho ela faz 26 anos!

  • Cheguei aqui pelo comentário que a Iara fez em meu post de ontem. Escrevi sobre a primeira boneca negra de minha filha de 5 anos. Coincidentemente, também ganhei minha primeira boneca negra quando tinha 5 anos. Somos brancas, minha filha e eu, e me pergunto sobre o papel dessas bonecas na construção de nossas relações sociais na infância. Adorei o texto aqui e os comentários de leitores por aqui e lá, mostrando que minha reflexões são pertinentes, sim. Beijos, Rita

  • roberto gomes dos santos

    Partindo do princípio, que toda a comunidade negra do Brasil e do mundo, tem como referência: bonecas, famílias, jogos, entre outras situações a questão do branqueamento, devemos sim nos posicionar em relação a isto, fazendo com que a comunidade negra, busque sua identificação na sua própria história, portanto bonecas negras, atores negros, famílias negras em comerciais, reafirmam nossa identidade e nos fazem mudar esse pensamento preconceituoso, que herdamos desde criança, por conta do sistema.

  • Patricia Silva

    Texto arrepiante, lindo, me sinto contemplada. Por isso que o Ka Naombo existe. Na Infância, não tínhamos nenhuma opção de boneca negra… iguais a nós… e hoje criamos a oportunidade para as crianças atuais crescerem se olhando e reconhecendo…Feliz pelo testemunho, me sinto fortalecida. Obrigada!

  • Carolina

    Muito legal!!! Principalmente porque para as crianças, é extremamente importante se identificar, criar uma identidade.
    Só acho que a coisa não pode ficar extrema, né? Se uma criança viesse a ter SOMENTE bonecas negras, bonecos negros, bonecos-bebês negros, ela poderia acreditar que isso é o certo: uma família somente de negros porque ela é negra. Ela poderia deixar de lado bonecas brancas porque não são iguais a ela. Isso não influenciaria (posteriormente), a pessoa a, por exemplo, não casar com alguém branco só porque é branco ou não adotar um bebê branco, pelo mesmo motivo? Com certeza é algo que também acontece até hoje com crianças brancas.
    É complicado.

    • mabiabarros

      Não acho, Carolina. Acho saudável uma criança ter mais bonecos negros e ter aqueles com os quais se identifica para brincar. Acho um pouco problemática, pode ser apenas a minha leitura e não o que vc tenha querido passar, sua fala de “ela poderia acreditar que isso é o certo: uma família somente de negros porque ela é negra”. Não é bem um certo e errado. Acho que ainda veremos um post sobre isso e a discussão será mais aprofundada, mas não sei se essa família miscigenada que tanto se valoriza aqui no Brasil é a solução ou algo a se almejar, necessariamente. No mais, só uma coisa: quando você fala em adoção de crianças, se olhar bem, são os bebês negros que ficam nos berçários, não os brancos. Estes têm fila. FILA!

  • Sou mãe de uma gorotinha de dois anos e meio. Eu e meu marido somos brancos e ela negra, está conosco ha seis meses. Ela chegou quase sem cabelo e eu me virei para aprender a cuidar de um cabelo afro quase inexistente. Achei um especialista aqui em São Paulo e ela frequenta o salão uma vez por mes. Minha felicidade é enorme em ver que cada dia mais seu cabelo vai crescendo lindo, macio e saudável. Ela tem algumas bonecas e dentre elas duas negras, o que eu menos gosto nessas bonecas é que elas não tem cabelo. São carecas ou tem cabelo liso (!?). Lendo essa matéria decidi que não dava mais para adiar e ficar com um numero maior de bonecas brancas que negras. Foi ai que descobri no mercado livre uma grande variedade de bonecas negras (quase sua maioria importadas) COM CABELO BLACK POWER!!!!! Fiquei realmente muito feliz e agora aguardo a entrega de 4 novos brinquedos para minha filha. Mal posso esperar para ver a carinha dela quando as bonecas chegarem =)

  • Soiane Gomes

    Tive poucas bonecas na infancia, por ser pobre. Tive uma unica barbie por muito esforço de minha mãe, já que a mídia nos impõe a tê-las, não tê-las se tornava uma frustração, a maior evidencia de limitação e pobreza. Bonecas negras eram tão raras e era natural não tê-las. A proposito eu não sou negra…

    Porém, aos 21 anos, grávida de meu primeiro e até então único filho, minha mãe me presenteia com uma boneca bebê negra enorme. Na verdade ela é uma boneca branca, de olho azul, pintada de marrom. Veio com roupas de bebê na cor rosa. Troquei suas roupas por tecidos do Ilê Aiyê. Inicialmente seu cabelo era cacheado black power e depois de uns 5 anos eu trancei os cabelos dela. A batizei de Rita Marley. Ela está comigo há 14 anos e de roupa nova.

    Em dezembro de 2012 fui convidada a apresentar uma performance num evento, Balaio Santo Antonio, juntamente com diversos outros artistas (sou dançarina e arte-educadora). Decidi que iria me caracterizar de uma personagem do cortejo de maracatu, pois neste evento teríamos um grupo percussivo denominado Maracatu Santo Antonio. Me caracterizei de Dama do Paço, a pessoa que carrega a Kalunga, boneca preta que representa uma entidade espiritual e é simbolo e proteção do Maracatu, que se origina dos terreiros de candomblés pernambucanos. Participamos, eu e Rita, deste evento, com grande alegria e respeito aos fundamentos do axé!

    Em fevereiro de 2013, estando eu em Pernambuco, realizando pesquisa de campo sobre maracatu, me envolvi artística e espiritualmente com a Nação do Maracatu Porto Rico e por ser iniciada no candomblé e ter demonstrado competência, respeito e aptidão, fui nomeada Dama do Paço (de verdade) da Oxum, onde carreguei a kalunga de nome Dona Elisabeth, que é uma entidade protetora, ligada a mãe Elda, Yalorixá da Nação Porto Rico.

    Ou seja, minha boneca Rita Marley abriu os caminhos para esta conquista espiritual e artística. Atualmente desenvolvo atividades pedagógicas que envolvam a boneca preta no ensino de dança popular na Escola de Dança da FUNCEB, escola pública, cuja maioria são meninas negras. Espero um dia divulgar o resultado de tais atividades.
    Um forte abraço, axé!

    • mabiabarros

      Sou LOUCA! pra ter aulas de dança afro na funceb! Estive lá um fim de semana num projeto do CRIA e fiquei apaixonada pelo ambiente. E eu amo dança. Um dia volto à dançar. 🙂

  • Raquel

    Também não tive bonecas negras, apenas uma latina que a minha mãe se esforçou pra achar, e olha que eu já cresci nos anos 90. Hoje, faço questão de dar de presente as crianças da minha família coisas que exaltem a sua identidade. Mas ainda acho que é difícil achar bonecas negras de verdade (não pintadas de preto), aquelas sisters mesmo da barbie eram super difíceis de achar… A indústria brasileira, inclusive importadoras, não se preocupam muito, estava vendo uma coleção de bonecas de um desenho da nickelodeon, no desenho americano tem 4 bruxinhas (loira, negra, morena e ruiva), 3 delas viraram mochilas, lancheiras e cadernos, apenas 1 não (isso no Brasil, nos EUA existem as 4 em tudo), adivinhem qual? Rs.

    • mabiabarros

      Confesso que eu sou a tia chata dos brinquedos educativos. SEMPRE dou livros e brinquedos que exercitem a lógica e o raciocínio nas crianças. Mas vou incluir objetos de identificação cultural no meu pool de presentes. Este post me fez pensar nisso mesmo.

  • Ótimo o texto! Nunca tinha pensando nesse conceito das bonecas refletirem quem você é. Tive umas 3 Barbies e muitas daquelas bonecas bebês. Sempre brancas e loiras, eu gostava delas. Mas eu sempre desejei a boneca morena, uma amiga da Barbie sei lá, que só aparecia no comercial. E nem ela representava bem quem eu sou… Amarela, cabelo cacheado… Vejo agora que isso me afetava muito. Sempre achei gente loira linda e tive (tenho?) um certo complexo de inferioridade pq meus irmãos tem cabelos lisos e o meu é diferente. Mas tenho aprendido a aceitar bem quem sou eu. Amo cabelos cacheados (embora só me dê trabalho!) e cheguei aqui nesse blog pelo post da exposição Cabelaço. Acho muito importante aceitar e espalhar a ideia que o ruim não é quem somos e sim o racismo.

    Enfim, voltando a ideia da boneca, eu nem lembro de ter um dia visto uma boneca negra. Fui procurar no google o modelo. Lindas! Queria eu ter tido bonecas diferentes assim

    • mabiabarros

      É isso mesmo o mais triste. A gente cresce sem nem saber que tem direito a ter e ver coisas diferentes do padrão. Meus pais se esforçaram, do jeito que puderam, para que as diferenças não nos incomodassem tanto, mas ter crescido num bairro branco, por exemplo, foi péssimo para mim. Não tinha com quem me identificar. Essa identificação na infância é super importante. É quando a gente se percebe, se aceita, cria traumas.

  • Gesabel Ferraz

    Maravilhoso este texto, tudo é verdadeiro. Tenho um Atelier de bonecas de pano e confeccionamos bonecas negras, minhas clientes que as encomendam todas tem mais te 20 anos. Isso precisa mudar pois temos um país 100% negro

  • Eu tive várias Barbies, nenhuma negra. Eu as adorava. Assim como também tive uma boneca da Xuxa enorme que à época era do meu tamanho. O acesso a bonecas negras no Brasil é muito recente. Só tenho 25 anos e minha mãe também não as encontrava para me dar. Hoje, vejo minhas primas mais novas ganhando bonecas negras e minhas tias fazem questão de comprá-las. Lembro que passei a infância colocando toalhas e outras coisas na cabeça pra introjetar que eu tinha cabelo liso tal como Xuxa, suas paquitas e outras referências brancas.
    O que me deixa emocionada revendo essa minha história é que, em 2007, já com 19 anos e estudando Ciências Sociais na UFBA e com outras referências estéticas e ideológicas, fui convidada para ministrar uma palestra sobre Identidade Negra e Autoestima por ocasião da Semana da Consciência Negra promovida pelo DCE da Universidade. Conversa vai, conversa vem, eis que uma menina do público pede a palavra e começa a relatar a sua relação com a estética e fala de sua infância: começou a contar que tinha uma toalha amarela que ela sempre colocava na cabeça pra se sentir loira e lisa assim como Xuxa…começou a chorar, dizendo o quanto sofreu por querer ser igual e saber da impossibilidade disso. Eu, que tava na mesa, comecei a chorar, o auditório foi tomado por uma angústia coletiva. Naquele momento, minha fala acabou por que todos entenderam a gravidade do racismo para nossas cabeças. Naquele momento ficou muito evidente pra todo mundo a dimensão da perversidade do racismo na cabeça de nossas crianças e eu, mais do que nunca, entendi que aquela história não era só minha. Depois até escrevi um texto sobre o tema da palestra em meu blog: http://gabrielaashanti.blogspot.com.br/2008/04/identidade-negra-e-auto-estima.html

    • mabiabarros

      Pois é, Gabriela. Não eram fáceis de achar. Minha irmã tem 23 anos e teve delas, mas eu com 29 não tive Barbies. Mas entendo que tive acesso à mais coisas que muitos meninos e meninas negras nos meus tempos de infância. Na época eu já pensava no quanto isso era importante para mim. Meu bebê negro era minha boneca favorita. Quando minha irmã era pequena fizemos questão de que ela tivesse bonecas com que se identificasse. Sempre soube que jamais seria paquita, não fazia o requesito, mas sofri muito por ter só amiguinhas e vizinhas brancas. Jamais fui eleita nos bailes da escola nem do condomínio. Eu era a “feia legal”…

      O bom é que realmente melhora depois. O ruim é que este modelo ainda se reproduz. Mas por isso estamos aqui, para evitar que os nossos sigam sofrendo.

  • Texto maravilhoso!
    Acho que nunca vou esquecer a expressão da minha vizinha de 5 anos, que andava querendo alisar e clarear os cabelos, quando ganhou uma Barbie negra: “Ela é igual a mim!”

    • mabiabarros

      Essa é a melhor sensação, acho. Quando eu era pequena não achava Barbies negras, mas minha irmã pode ter algumas. A carinha dela quando ganhou a primeira colecionável foi cativante.

  • Tive a minha primeira boneca negra aos 20 anos,já adulta! É uma Fofolete,com roupinha verde e rosa,que apelidei carinhosamente de Fofolete Mangueirense! Sou mestiça,sempre quis uma bonequinha negra na infância! Mas minha mãe nunca achava pra me dar! Quando eu era menininha,sempre perguntava pra minha mãe porque todas as bonecas eram loirinhas! Aliás,na minha época,era “moda” ser loira! Eu sou da época da Xuxa,no auge, e das Paquitas,que tinham que ser obrigatoriamente loiras!

    • mabiabarros

      Também sou desse tempo. Acho que perdemos algumas referências nessa época. Lá fora vendiam muitas bonecas, mas aqui não se achava muita coisa. Eu tinha uma bebê negra, que minha madrinha me deu e eu não largava por nada! Mas, depois de ler essa matéria, fiquei pensando se a minha não era branca pintada de marrom…