Por Valéria Guedes para as Blogueiras Negras

Single-Mothers

Ah, como é gostoso acordar com o seio desnudo e uma mão macia a repousar sobre mim, como querendo garantir que não irei sair dali tão cedo, não o abandonarei tão logo.

Mas, calma! Não estou descrevendo nenhuma cena de “50 tons de marrom”. É apenas o meu amanhecer ao lado do meu caçula que mama no peito enquanto dorme ao meu lado.

Sua mãozinha me acaricia e me procura para a última mamada antes de clarear o dia. Quando já mamou o suficiente, bota a “pepetinha” na boca, vira pro lado e dorme. Agora já posso me levantar.

Mesmo cambaleante – o sono ainda domina o meu corpo – parto para o meu primeiro combate do dia e ataco logo a louça que dormiu na pia. Enquanto minhas mãos trabalham “sozinhas”, minha mente busca na memória confusa a lembrança dos sonhos que tive – se é que dormi tão profundo a ponto de sonhar, pois mãe de dois pequenos passa algumas noites de vigília.

Meus pensamentos começam a se organizar e já me ligo nas tarefas que me esperam: reunião no trabalho, compras para fazer, contas para pagar, consulta médica para marcar… E ainda sobra espaço para pensar no tema do próximo post do blog. Abro a porta da cozinha para minha mãe que a partir dali assume o posto de cuidadora dos meus filhos enquanto vou trabalhar. Ela é o meu suporte, meu exemplo, minha inspiração… Essa guerreira que já enfrentou batalhas muito mais desafiadoras que as minhas e ainda mantém a mesma força e disposição. Devo à minha mãe tudo que sou e tudo que sou capaz. E ainda me esforço muito para conseguir metade da sua competência.

Bom, primeira tarefa já cumprida e parto para os rituais de toda manhã: café fresquinho, banho quente e a luta com o pente para desembaraçar o crespinho. Ainda me arrasto sonolenta para calçar uma sapatilha, mas meu black já está de pé para ornar e tornar mais digno o visual da mãe cansada que muito trabalha e pouco dorme.

O relógio é mais rápido que eu. Tenho que partir para o trampo e a Av. Brasil me espera. Confiro chave, celular, carteira, Rio Card. Ainda dá tempo de uma última olhada no espelho para passar o baton.

No ônibus, aproveito a viagem para cochilar um pouco, mas com o pescoço duro, claro – arranjo um torcicolo, mas não desmancho o penteado. Vai que meu black fica amassado. Seria terrível! Por ser “adepta” do cabelo crespo natural, percebo alguns olhares de estranhamento de irmãs que alisam ou usam implante. Não sei o que elas pensam, se “olha que bonito o cabelo natural” ou “nossa, ela não cuida do cabelo”. Mas é certo que há o estranhamento.

Já perto de descer, na altura da Praça Mauá, onde uma imensa obra transforma a paisagem, enquanto uma parte da história do nosso povo é enterrada pela 3ª vez, observo a gente que já está no batente. Meu destino é o Centro da cidade do Rio de Janeiro, onde passarei minhas próximas oito horas. Costumo dizer que meu trabalho é meu lazer por amar minha profissão. Sou designer gráfica e, nas horas vagas e cada vez mais raras, blogueira, pois gosto de escrever e de me comunicar.

Mesmo atarefada, não consigo deixar de estar ligada ao que acontece na minha casa. Ligo várias vezes no dia para me certificar de que tudo está bem. Depois de um dia duro, posso finalmente voltar.

Meus dois pretinhos me aguardam, mas quando chego em casa meu caçula é quem me recebe com mais ansiedade. Só tenho tempo para lavar as mãos e já o tomo em meus braços para dar o peito cheio de leite, o amor cheio de saudade e um beijinho carinhoso que não consigo segurar. Já o mais velho quer logo a brincadeira e a mãe cansada se espalha no chão junto aos brinquedos coloridos procurando mais estímulo para a próxima jornada que acaba de começar.

Antigamente eu pensava que vida de mãe solteira era difícil, que trabalhar e cuidar de filho era impossível, que ter tanta responsabilidade era coisa de mulher forte, guerreira, determinada. Não era coisa pra mim. A verdade é que é tudo isso, sim. Mas não só. O que eu jamais imaginei é que, além das mudanças no corpo e na rotina, tudo em nós se modifica quando temos filhos – ou descobrimos e fazemos aflorar as potencialidades latentes. Toda mulher preta tem uma guerreira esculpida na alma que ganha vida quando diante da batalha.

A gente só descobre do que é capaz quando está de frente para o desafio e não tem outra escolha a não ser enfrentar.

Porém, o cotidiano de uma mãe solteira que trabalha fora não é um castelo de muros altos onde tem uma torre que nos aprisiona. Não, amigas. Por mais duro que seja, não precisamos deixar de ver e sentir todas as alegrias e recompensas preciosas que a vida nos dá.

Que possamos existir sem deixar de viver. Que possamos ser mãe sem deixar de ser mulher. Que possamos amar incondicionalmente sem deixar de nos amar. E, principalmente, que possamos ser felizes apesar do cansaço, das dores no corpo, do pouco dinheiro e das noites mal dormidas.


Valéria</strong< é Designer Gráfica e escreve para o Belezas de Kianda


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