por Anna Preta

Entre as coisas mais leves da vida, dessas que salvam um dia ruim, está o humor. Aquela piadinha marota é capaz de desmontar um rosto emburrado, descontrair um ambiente teso ou entrosar pessoas afastadas – isso todos sabemos e já vivemos. Entretanto, se o humor tem mesmo esse poder de transformação, por outro lado, pode ser danoso e cruel. Claro, esta não é a primeira e nem será a última reflexão acerca disso. Um bom exemplo é o documentário O Riso dos Outros, de Pedro Arante.

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Enquanto houver muitos que não se dão conta da seriedade das piadas ou que já perceberam mas não se posicionaram, ainda se faz necessário tratar desse assunto. Conceitualmente, sabe-se que o humor está fortemente conectado aos conceitos coletivos, por dois motivos. Primeiramente, porque depende de um contexto, de uma compreensão social para funcionar. E além disso, quando o humor toma esse contexto como verdade, acaba por o mantê-lo socialmente aceito. O humor só é bem sucedido porque relaciona-se com as expectativas, os preceitos, os costumes e a cultura de quem faz a piada e, sobretudo, de quem ri. E relacionado com esses fatores, o humor é também capaz de reforçá-los, mesmo que esta não seja a intenção de quem conta a piada.

Vou exemplificar da maneira mais óbvia: com as próprias anedotas. Quando, para fazer uma piada, alguém compara a figura do negro a do macaco ou urubu, associa o negro ao crime ou à marginalidade ou debocha de suas feições (cabelo, nariz, etc), está reforçando a ideia de que o negro é mesmo menor, feio, incorreto, inapto. Para não dizer que estou defendo a causa própria, falarei também das loiras. Somente aquele que parte do pressuposto de que elas são intelectualmente incapazes vai compreender e rir das piadas que concluem isso. E mais uma vez, a mulher vai ser colocada como objeto sexual e afastada da intelectualidade. O mesmo acontece com todo e qualquer um visto como “diferente” na sociedade: o gordo que quebra a cadeira e é apontado como lento, sujo, deselegante; o homossexual retratado como escandaloso e promíscuo; o pobre retratado como mal-educado e inculto; o deficiente julgado incapaz, etc… A piada só faz sentido para aquele que atribui determinada característica a um grupo e o inferioriza. Vale destacar que não estou julgando como preconceituosas as pessoas que riem de nenhuma dessas colocações acima, mas sim que estas piadas são atitudes que têm, sim, um viés de discriminação. E em um país onde mulheres, negros e homossexuais morrem porque são mulheres, negros e homossexuais, além de sofrer outras penas em decorrência do preconceito (veja abaixo), é perigoso alimentar as premissas da intolerância e corroborar a mentalidade segregativa. Porque para alguns, o fundo de verdade dessas ditas “brincadeiras” vai além da gargalhada.

Propondo essa reflexão, não ouso tolher as liberdades individuais, sobretudo a de expressão, tampouco defender a hipocrisia dos politicamente corretos. Sobre isso já se falou demasiado. A questão não é evitar essas piadas para parecer adequado e sim entender que elas não são tão inofensivas quanto parecem. Dói ser inferiorizado.

Se humor serve justamente para alegrar nossos dias, porque ainda se insiste em usar para deleite próprio aquilo que é dor para o outro (como o colocar em posição inferior)? Quando alguém ridiculariza a condição de uma pessoa, ofende aquele que tem esta condição e todos que entendem as diferentes realidades provocadas pelo preconceito. E se magoa, se ofende, se aponta, se toca justamente na ferida, me parece incoerente que seja visto como diversão.

Anna Preta é publicitária e seus textos podem ser encontrados no Passionis.