A dois dias deste 13 de maio, fui surpreendida pela capa do Caderno Especial Abolição 125 anos do jornal O Globo. A imagem trazia o rosto de um colega, o historiador Robson Machado, acompanhado do título “Eu escrevo a minha história”. Ao longo de duas matérias, trechos da entrevista dada pelo pesquisador são arranjados de modo a oferecer um panorama da trajetória da família Machado, que percorreu as províncias, depois estados, de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo.

O ponto de partida é a escravidão vivenciada por seu bisavô, Vicente Pereira Machado, nascido provavelmente em 1857, e chega aos dias atuais, quando o filho de Robson frequenta a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) como estudante de Geografia. A história contada por ele também inclui a ação das mulheres da família, a exemplo da bisavó Marcolina Ribeiro de Jesus, da avó Ana Cândida e da sua mãe Maria Cleusa Vicente Machado. O relato emocionava, e ainda emociona, não só pelo fato de contar sobre experiências de gente que parece familiar, mas também por ser um exemplo de superação em sequência.

Mas sensação de acalanto logo se esvaiu quando cheguei à matéria “Maioria dos negros já é de classe média” e a outras partes da reportagem. É que dessa vez a surpresa foi me dar conta do que tornava interessante àquele jornal falar dos caminhos trilhados pelos libertos do 13 de Maio, daqueles e daquelas que davam rosto e historicidade ao número de 700 mil pessoas que ainda estavam submetidas à condição formal de escravos às vésperas da abolição.

Sendo época de tocar no assunto, as histórias contadas por Robson e outros pesquisadores sérios e interessados em levantar as ações de resistência negra antes e depois da abolição serviam ali para demonstrar uma tese: o peso das barbaridades produzidas pela escravidão tende a diminuir. E mais, na opinião de Yvonne Maggie, isso nem mesmo tem a ver com as políticas de ação afirmativa para o acesso de estudantes negros no Ensino Superior. Para que a coisa se resolva de vez, faltam apenas melhorias na rede pública de educação básica. De tal sorte, não foi preciso abordar os números alarmantes das mortes de jovens negros Brasil adentro.

Nesse jogo de morde e assopra ou assopra e morde, é até possível falar em desigualdades raciais, certas desvantagens no mercado de trabalho, citar dados do Laboratório de Análises Econômicas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser), mas isso sempre acompanhado de opiniões que tentam induzir a um otimismo ingênuo, que nenhuma chance tem de dimensionar a gravidade do problema. Prospera o esquema “No Brasil existe racismo, mas eu não sou racista”.

Esse modo de enquadrar a saída da escravidão impede as pessoas de considerar seriamente o peso de um dado presente até mesmo na reportagem: a maioria das pessoas negras já era legalmente livre antes do advento da abolição em 1888. De fato, o aumento do número de negros livres e libertos vinha ganhando fôlego desde o século XVIII até que, ao se realizar o Censo de 1872, se chegou à informação de que no Brasil a cada cinco pessoas negras, 3,68 eram livres. Os números para cidades como Recife chegavam ser até um pouco mais expressivos: 3,86 livres para cada cinco indivíduos negros.

Fixar a atenção no dispositivo da Lei Áurea é, portanto, subestimar o significado da abolição lenta e gradual que ocorreu no Brasil; é passar por cima das denúncias contra o “preconceito de cor” que muitas pessoas faziam por meio dos jornais e em queixas às instituições de justiça; é não conectar a criminalização das práticas culturais negras na República com a aquilo que se viveu durante a vigência do Império. Em resumo, é tentar encobrir como o racismo antinegro operou minuciosamente para instituir o lugar de não cidadão aos descendentes de africanos neste país.

Com efeito, há muito tempo que nós temos exemplos de homens e mulheres negras que romperam uma série de barreiras, ascenderam socialmente e bradaram contra as injustiças raciais por aqui. Eles podem ser encontrados até mesmo na época em que o já ilegal tráfico internacional de africanos seguia fazendo a fortuna dos donos do poder e alimentava o Estado brasileiro. Por isso, ainda que eles nos sejam essenciais para o reconhecimento das nossas histórias, é preciso tomar cuidado com usos das nossas referências de superação. A possibilidade do desvio da regra nunca a tornou inválida.

No início da década de 1880, por exemplo, advogados, jornalistas e médicos formados, como José Ferreira de Menezes, José do Patrocínio, Vicente de Souza e outros abolicionistas negros, em parceria também com brancos, buscaram defender uma saída da escravidão que priorizasse a valorização dos trabalhadores negros. Acontece que o simples gesto de alguém pensar nesses termos desencadeou a fúria de homens como Sílvio Romero, que foi à imprensa negar a legitimidade intelectual daquelas pessoas para tratar dos assuntos do país e abertamente afirmar que não confundia “emancipação de escravos com elogio de negro!”. Tais comentários, por certo, não os fizeram desacreditar na urgência da luta, mas servem de amostra para vermos como a afirmação do sujeito negro com ser capaz de exercer sua autonomia e sua humanidade foi posta a pisar em falso na história deste país.

À luz dessas questões, fica mais uma vez evidente que os desafios da liberdade não começaram há 125 anos e que não podemos virar as costas para as diferentes formas da participação negra na luta pelo fim do escravismo e da superação do racismo. É preciso ter cada vez mais nítido o lastro do jogo de forças que operavam naquele contexto para entendermos como até hoje o Brasil figura como um país viável, a despeito de ser um dos piores cenários de desigualdade racial do mundo.


Caso queira, confira o Caderno Especial Abolição 125 anos.