por Paula  Balduíno para o Blogueiras Negras

Em 2013 completam 10 anos que estive pela primeira vez em São Luís do Maranhão. Chegar a essa cidade foi como aterrissar em um afro oásis. Pela primeira vez meu olhar notou tanta beleza nas tranças, nas ondas e nos volumes de negros cabelos. Irradiavam luz as cores e estampas daquele povo. E no Reviver (re)vivi muitas mensagens, em faixas espalhadas pelo centro histórico, que seguiram ecoando dentro de mim. O encontro com lindas pretas que dançavam dentro da loja de artesanatos foi fatal! Vestida com uma saia de chita rodada, metida no meio do Tambor de Crioula, rodei e me mudei. Tudo aconteceu em uma mesma tarde/noite, que terminou com uma conversa bacana, regada a cerveja gelada e salada de mariscos, com uma amiga que me dizia entender, então, o sentido da política de cotas para negras e negros nas universidades brasileiras.

Aconteceu comigo algo similar essa semana, em Bogotá/Colômbia. Durante a 26ª Feria Internacional del Libro de Bogotá, uma das maiores da América Latina, encontrei muitas Afro Colombianas. Neste país, a população africana escravizada quantificou aproximadamente 150.000 pessoas, que adentraram o território entre os séculos XVI e XIX pelo porto de Cartagena, localizado no Caribe colombiano, na costa atlântica. Próximo a esse porto, em Bolívar, en las faldas de los Montes de Maria, se formou um quilombo, ou palenque, com negras e negros que escaparam da escravização.

Ahorita, descendentes desse povo cujo grande líder foi Benkos Bioho, jovens de San Basilio del Palenque, trouxeram a Bogotá o Baile del Bullerengue por meio do qual ritualizam o Lumbalú, rito fúnebre. Ao bailar, as palenqueras moviam-se com ritmados pequenos passos, embaladas pelo vai e vem dos quadris, enquanto mãos e braços tocavam seus ventres e cabeças. A carga dramática desse momento fez mover as lágrimas dos olhos delas aos meus olhos e aos de outras negras mulheres que ali estavam. (Re)sentíamos juntas a dor de nossas ancestrais que perderam para o escravismo filhas e filhos, irmãs e irmãos, companheiros e tantas outras pessoas queridas.

 

Nesta mesma feira do livro, encontrei a chirimia da Festa de San Pacho, apelido carinhoso dado a São Francisco de Assis pelo povo do Chocó, departamento do Pacífico colombiano em que cerca de 90% da população é afro. A comitiva composta por um grupo que levava o santo cultuado no andor, outro grupo musical com tambores e instrumentos de sopro e o terceiro colorido grupo bailante, liderou um desfile pelas ruas de Corferias, cidade das feiras bogotanas. Seguindo o povo e me remexendo toda, pensei que estivesse no carnaval de Recife/Olinda ou poderia também ser de Salvador. Foi muito legal ver tanta gente preta empacotada, suando, na fria Bogotá.

E, para fechar com chave de ouro, encontrei Zullly Murillo, cantautora, respeitável rasta, no auge dos seus 70 anos, que me fez lembrar minha avó contando histórias divertidas sobre brincadeiras de criança, cobras e personagens do campo. Arrasando no requebrado, Zully, com sua banda La Contundencia, nos embalou mais e mais no ritmo da chirimia chocoana.

Quando tocam, os tambores ancestrais nos tocam. Ativam algum ponto dentro da gente que nos faz sentir e pensar o sentido de sermos negras mulheres latino americanas e caribenhas. Nos movem adelante, nos impulsionam a atuar politicamente, a lutar para transformar o mundo racista e machista em que vivemos. Mais do que tudo, ao soar o afoxé ou a chirimia, nos inteiramos o quanto de cada uma há em nós.


Paula é Doutoranda em Antropologia pela Universidade de Brasília (UnB) e integrante do Pretas Candangas – Coletivo de Mulheres Negras do DF.


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