Por Zaíra Pires para as Blogueiras Negras

Não se nasce mulher, torna-se.

Creio que não há como – tentar – falar sobre transexualidade e feminismo sem recorrer à célebre frase de Simone de Beauvoir, que sentenciou uma das maiores máximas do movimento e tem sido um princípio norteador da nossa luta desde a sua primeira onda até hoje, tempo em que tentamos, a duras penas, ser mais interseccionais.

Beauvoir, em “O Segundo Sexo”, falava de como a definição do que é feminimo e o que é masculino não é biológico e inato, mas construído socialmente, e por isso mesmo, passível de variações de acordo com as referências ao longo da criação/formação, do tempo e local onde se vive.

Mas, ao falar em transexualidade, a frase de Simone vai além de questionar os papeis e o lugar feminino e masculino na sociedade, servindo para questionar a definição de ser mulher e ser homem pelo seu gênero, não pelo seu sexo biológico.

Simploriamente, transexualidade seria a discordância entre o sexo do nascimento e o gênero com o qual determinado indivíduo se identifica. Um homem não o é porque nasceu com pênis e testículos, mas porque se identifica dessa forma por motivos diversos, assim como uma mulher não pertence ao gênero feminino por ter nascido com vagina e útero. Isso significa que mulheres podem ter pênis, e podem querer ou não transformar seu corpo ao longo da vida para que seja como o do gênero a que pertence e os homens da mesma forma.

Inclusive, pode ser que não haja identificação com nenhum dos dois gêneros, ou com os dois, ou ainda com um deles em um período da vida e outro gênero em outro período. A sexualidade humana é diversa e impossível de aprisionar em definições, está longe de ser dicotômica e engessada. Quanto mais “ou isso ou aquilo” for nossa explicação, menos seremos capazes de entender e mais essa pluralidade escorrerá entre nossos dedos. Aliás, acho válido dizer que REALMENTE há dezenas de possibilidades, e não quero ser leviana em tentar defini-las com essas minhas mal-traçadas linhas.

Privilégios

Madalena, vereadora pelo PSDB em Piracicaba

Nesse sentido, o incômodo que me levou a escrever essa postagem foi observar que nós ainda precisamos caminhar um bocado para incluir as demandas transfeministas na agenda dos direitos humanos. Precisamos ainda rever nossos privilégios cissexuais (simploriamente, cissexual é quem tem concordância entre o sexo de nascimento e o gênero com o qual se identifica. Seria o contrário de transexual), assim como queremos que os homens o façam com relação às mulheres, os brancos o façam com relação aos não brancos, os heterossexuais o façam com relação aos bi e homossexuais, a classe média o faça com relação aos mais pobres etc infinito.

É um privilégio não ter dúvidas com relação ao banheiro que frequenta e não ser repreendido ou proibido de um deles. É um privilégio não sofrer constrangimento ao responder chamada na sala de aula e o nome convocado não combinar com a pessoa que responde. É um IMENSO privilégio não ter sua vida amorosa hipersexualizada, exotizada, resumida a fetiche, que deve ser escondido entre quatro paredes. Eu não tenho condições de enumerar os privilégios que tenho por ser cis, mas tenho imenso respeito pelxs trans, ouvindo e acatando suas falas e tentando dia a dia rever esses meus privilégios.

O mundo ocidental, pós moderno, capitalista, neoliberal (e seja lá mais que teorias criadas para nomear o inominável) não inclui quem não é homem-branco-heterossexual-cristão-classe média-magro-jovem-cissexual. Quanto mais itens opostos a essa lista você coleciona em sua identidade, menos espaço o mundo tem para você. Onde se encaixa uma mulher negra, lésbica, pobre e transexual? Qual é o seu lugar? Quantas centenas de regras e perseguições recaem sobre ela e qual o tamanho da sua luta para poder validar sua existência de acordo com sua vontade?

Nos cabe, enquanto conscientes dessa situação, incluir na pauta da militância as necessidades das pessoas transexuais. Mas tendo o cuidado de não protagonizar sua luta, incluindo a partir da sua voz, não da minha, que pouco ou nada sei de como é ser trans, apenas TENTO exercer minha empatia. Assim como não quero homens como meus defensores. Eles são coadjuvantes na minha luta! No entanto, são bem vindos ao meu lado.

Sororidade

Imagem do site stock.xchng. Alguns Direitos reservados.

Imagem do site stock.xchng. Alguns Direitos reservados.

Sororidade é entender que as engrenagens que me oprimem são as mesmas que o fazem com muitas outras pessoas e incluir mais vozes no meu grito, para que ele seja mais alto, mais efetivo, mais exigente, mais pungente, alcance mais ouvidos. É incluir. É dar voz. É respeitar. Rever privilégios.

Há que se ter coerência nas nossas lutas: o feminismo que queremos deve incluir o movimento negro, o movimento LGBT. Tem que ser contra a gordofobia, não validar o slut shamming, ser contra o cissexismo. Sem policiamento dos corpos e dos pensamentos. Afinal,  tudo se trata de liberdade, de respeito, de escolhas, de dignidade. De garantir que posso ser feliz sem receios e sem reservas, não importando quais caminhos trilhei, de onde vim.

Digo isso aqui do alto do meu paralelepípedo, com muito respeito e cuidado, pedindo licença às milhares de vozes que não ouso representar, mas apenas endossar, engrossar. Às quais pretendo me unir, porque, ao fim e ao cabo, “todos sabemos a dor e a delícia de ser quem se é”, e queremos que não nos imponham mais dor por não ser como o outro quer que sejamos.