Por Mara Gomes para as Blogueiras Negras

Audre Lorde

Audre Lorde

Tenho a impressão que essa discussão sobre feminismo, geralmente, se limita apenas a algumas mulheres. Não que seja um feminismo limitado, um feminismo classista, obviamente não, porque a idéia central do feminismo é igualdade, igualdade essa que deve ser de gênero e também entre mulheres. Mas então por que um feminismo negro se esse feminismo deve englobar todas mulheres?

O feminismo tem seu inicio, como um movimento social, na época de XVIII e XIV quando as mulheres buscavam a igualdade de direitos civis, principalmente o direito ao voto, essa época era chamada de primeira onda feminista. Nesse momento as lutas eram centradas nos EUA e Inglaterra e a mulher negra não se incluía assiduamente nessa discussão, porém não significa que não existiam negras feministas nessa época. A exemplo de Sojourner Truth e Harriet Tubman, além de outras, no século XIX a luta dessas mulheres negras era por uma liberdade diferente. Elas buscavam se verem livres das amarras e dos resquícios da escravatura. Sojourner truth filha de escravos e ex escrava foi ativista pelos direitos dos negros e das mulheres e o questionamento que fez em um dos seus discursos mais famosos foi: Ain’t I a woman? ( Eu não sou uma mulher?). A mulher negra é uma mulher igual a mulher branca? Se é, então por que é tratada diferente, por que não tem os mesmos direitos?

Entrando na segunda onda entre 1960 e 1980 a mulher negra ganhou um papel mais forte na história do feminismo, porque foi fundada nos EUA a National Black Feminist Organization em 1973 e, antes disso também, feministas negras haviam aparecido e criado uma literatura nova. Essa fase foi marcada como uma fase de transição, entre o que o feminismo já tinha conquistado na primeira onda, e a libertação sexual feminina. A segunda e a terceira onda coexistirão, foi quando se começou a discutir o que chamamos hoje de “Teoria da diferença” o argumento era que, embora a diferença de sexo recebia toda a atenção, outras diferenças também eram essenciais e deviam ser reconhecidas e tratadas. Audre Lorde foi uma das primeiras a escrever sobre essa idéia, que discutia as diferenças entre as mulheres além do sexo.

Aí então chego na resposta da questão inicial do texto: por que um feminismo negro? A resposta é porque a mulher não é um núcleo fechado, a categoria mulher é cheia de subdivisões e essas subdivisões são de classe, raça, sexualidade, além de outras. O feminismo, no seu início, era apresentado apenas em cima da idéia de separação binária entre homem e mulher, logo não existiam outras ramificações, mas a discussão não para por aí, o gênero é algo muito mais complexo e a mulher não é uma categoria única.

A mulher negra sofre uma dupla opressão, uma por ser negra e outra por ser mulher. Gênero e raça se transpassam e também a classe social, já que por resquícios deixados para nós dos tempos de escravatura a maioria da população negra é pobre, mora em lugares de baixa estrutura e tem o menor índice de educação. Para esclarecer, como já vieram me questionar antes, não estou apresentando aqui uma hierarquia de opressão, muito pelo contrário. A opressão da mulher negra não é mais importante que a opressão da mulher branca, porém a mulher negra carrega outras questões que não atingem diretamente a mulher branca. Questões essas que nos transpassam além do gênero e que devem ser discutidas com um viés diferente.

Não vemos mulheres negras na mídia, do mesmo jeito que vemos mulheres brancas. Não vemos muitas mulheres negras na faculdade, como não vemos negros em geral, mas vemos homens brancos e mulheres brancas. Em um país onde a população de negros compõe mais de 50% e que números como a taxa de desocupação entre mulheres negras chega a 12,4%, contra 9,4% entre mulheres brancas e a renda média das mulheres negras é de R$ 436, contra R$ 649 dos homens negros, R$ 797 das mulheres brancas e R$ 1.278 dos homens brancos, há com certeza alguma diferença a ser discutida (dados do IPEA 2007). Outro dado também é que as mulheres pobres – e particularmente aquelas que são negras – estão entre as principais prejudicadas pela ilegalidade do aborto no país. Pois são essas mulheres que por não terem dinheiro buscam apoio em clínicas clandestinas mais baratas, precárias e com falta de higiene.

São muitas questões e se enumerá-las todas aqui é capaz que esse texto não encontre nunca o seu final. Há uma diferença além da diferença de gênero perpetuando o feminismo, por isso há a necessidade de um feminismo negro, por isso precisamos discutir uma lógica que dê conta das questões de classe e de raça. Vivemos todos em um sistema patriarcal, classista e racista, por isso estamos vinculados a esses inúmeros preconceitos e falhas graves nas estruturas do Estado. Portanto nosso papel como mulheres, pretas, índias, brancas, pardas, amarelas e feministas é lutar contra essas amarras sociais e discutir sempre o porquê dos preconceitos, o porquê de estarmos tão presos a essa lógica burra que gere a sociedade em que vivemos.

O feminismo negro está aí para reforçar essa idéia de luta, abraçando questões que nem sempre são abraçadas e analisadas, mas estamos todos juntxs na mesma luta, sem hierarquia de opressão, sem nenhum desfavorecimento, estamos todxs unidxs contra o mesmo inimigo, o patriarcado e por fim também estamos lutando juntxs na mesma luta contra o preconceito de gênero, classe e raça.


Mara Gomes administra a página A mulher negra e o Feminismo.


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  • Emita

    Olá… gostei muito do texto bem explicado e as idéias bem colocadas.
    Ps: Na parte que vocês falam sobre o inicio do movimento feminista no mundo percebi que falta uma correção na parte das datas vocês colocaram que começou na época de XVIII(18) e XIV(14), acredito ter sido um lapso e que a segunda data seja referente ao século XIX(19).

    #somandonascontruções

  • TES

    Nos parece excelente tu texto, aunque tuvimos que traducirlo por google, porque no manejamos
    el idioma; ¡que pena! Te enviamos el link de un video de nuestra obra teatral, la obra expone nuestra situación de clase, raza y género como mujeres negras, en el pasado y en la actualidad.Te vuelvo a felicitar y ojalá quedemos en contacto.Un abrazo enorme http://youtu.be/XpfkdjRGEGg

  • Maristela Santana

    Cara Mara, Muio bom ler textos e estar em discussões que vão para além do “racismo às avessas”. São questões contundentes que dizem respeito às nossas particularidades (mulheres, negras acrescidos de agravantes como pobres e esteriótipos como gorda, feia, homossexual) que afetam a auto-estima tão bombardeada pela mídia e sistema em gera, que devem sim ser tratadas, mas nunca sem o contraponto ou a perspectiva com a realidade do universo amplo em que estamos inseridas. Parabéns.

    • Obrigada, Maristela. A nossa luta é longa ainda, precisamos fortalecer muito o feminismo negro no Brasil. Abraços!

  • Raquel

    Alguma dica sobre o que ler acerca do feminismo negro no Brasil? 😉

    • Têm os escritos muito ricos da Lélia Gonzalez que dá pra encontrar online muito facilmente. Porém história do feminismo negro é muito difícil de se encontrar em português, mas em inglês e espanhol existem muitos livros e sites, logo acima nos comentários a Didi indicou um livro maravilhoso. Na minha página do facebook ( tem o endereço no final do texto) tento traduzir informações das feministas mais importantes, mas não dei conta de tudo ainda. Abraço!

    • Raquel

      Obrigada pela atenção, vou entrar em ação e começar as leituras. 😉

  • Raquel

    Eu sinto que o feminismo liberta, mas que realmente há que se falar em feminismo negro, pois algumas forças externas agem apenas nas mulheres negras, afinal lutamos contra o racismo e o contra o machismo de uma vez só. Um exemplo, mulheres negras podem nem ter um parceiro/a, já que ser mulher branca é o padrão da sociedade, etc, etc.

  • Liliam Ramos da Silva

    Parabéns pelo blog! Sou pesquisadora da UFRGS, curso de Letras, e minha pesquisa se chama ‘Vozes negras no romance hispano-americano’. O tema da minha tese de doutorado é ‘El protagonismo de la mujer negra en la novela hispanoamericana’. Espero poder contribuir nas discussões do grupo. Um abraço!

    • Caramba, que livro genial! Não tinha visto, valeu pela dica Didi! Abraço!