Por Mariana Santos de Assis para as Blogueiras Negras

Há muito tempo venho pensando sobre as relações afetivas entre homens e mulheres negros. Não é um tema simples, o mais comum é que a gente caia na armadilha da busca constante de culpados. Ora a culpa é do homem negro que não compreende as dores da mulher negra, o fardo de estar totalmente fora do padrão estético, ao mesmo tempo que a estética rege praticamente todas as nossas relações sociais, o conflito entre ser bem sucedida, independente, emanciapda e ao mesmo tempo sonhar com o grande amor, a família padrão, as futilidades (im)postas ao gênero. Ora a culpa é da mulher que não compreende o homem negro, suas necessidades masculinas em uma sociedade em que ele não passa de mero objeto de reprodução, sua busca constante pela emancipação que as negras conquistaram bem mais rápido, a necessidade de impor sua posição de macho dominante provedor.

A atriz Cris Vianna e seu namorado

A atriz Cris Vianna e seu namorado. Imagem – Reprodução.

Não discordo que todos tenhamos nossa parcela de culpa no desastre que são as relações entre homens e mulheres negras. Porém não vejo muita utilidade ficarmos nos apunhalando e acusando, o fato é que estamos do mesmo lado da trincheira, queiramos ou não, portanto, precisamos mirar no inimigo certo. Para isso é fundamental entender que os motivos são mais complexos que mágoas, rancores, misoginias e autoritarismos, devemos pensar em como essas relações se constroem historicamente. Primeiramente quero falar sobre o homem negro, qual a condição do homem negro em uma sociedade escravocrata? Espero que ninguém duvide de que ainda estamos sob a égide da escravidão…

Todos conhecem as condições de existência dos negros escravizados no ocidente, porém quando pensamos em termos de construção da masculinidade a coisa toma proporções ainda mais assustadoras e cruéis. O homem africano vivia, em sua maioria, em sociedades patriarcais eram líderes e chefes de família. Nas colônias, igualmente patriarcais, esses mesmos homens se tornaram escravos e eram inferiores a qualquer mulher branca. Não apenas sua humanidade foi tirada, mas também sua virilidade, masculinidade, sua condição de homem e todas as implicações que essa classificação traz, ainda mais em uma sociedade patriarcal, falocêntrica.

Por mais que as definições de masculinidade sejam altamente questionáveis hoje, sobretudo para as mulheres, não podemos negar sua importância nos modos de inserção dos homens na sociedade, no tornar-se homem adulto, responsável e provedor. Os homens negros foram completamente privados disso, ao contrário do provedor, líder e chefe de família ele passou a ser, na escravidão mais barato do que as mulheres negras e servo das mulheres brancas e na abolição sustentado por suas companheiras, pois não havia espaço para ele nesse novo mundo em que foi jogado. Tais são as dores do homem negro e é com esse tipo de sofrimento que suas companheiras precisam saber lidar.

Porém a luta do homem negro por retomar sua masculinidade, quando entendida nesses termos, desconsidera a luta das mulheres por sua própria liberdade, por seu espaço para além de meros úteros férteis e lavadeiras competentes. Buscar essa masculinidade é, dentre outras coisas, desconsiderar a principal vantagem que nós negrxs temos com relação aos brancos, ao menos no que se refere ao debate de gênero, homens e mulheres negras já foram iguais! Na escravidão nós vivíamos nas mesmas condições de subalternidade, animalidade e selvageria, éramos considerados a mesmo criatura sem alma, éramos iguais.

Prova disso, é justamente a relação com as mulheres brancas nesse contexto, elas nunca foram iguais aos homens brancos, mas os homens negros eram inferiores a elas, assim como as mulheres negras. O fato é que ao tentar reconquistar o espaço do masculino em uma sociedade machista e repressora das mulheres, os homens negros estão abrindo mão dessa vantagem histórica, de nossas lutas lado a lado pela liberdade de nossos descendentes, pela nossa dignidade, pela família negra. Em última instância o homem negro que luta por sua posição de chefe, líder, macho dominante está lutando para ser um homem branco, aquele mesmo homem branco contra o qual ele lutou ao lado de sua companheira negra.

Essa talvez seja uma forma de superarmos machismo e racismo, ao menos entre nós. Para compreendermos realmente a dor de nossos irmãos e irmãs é preciso que nossas dores dialoguem entre si, é preciso avançar para além dos muros impostos pela sociedade que nos escraviza e exclui diariamente de suas relações e conquistas, é preciso fazer o caminho mais difícil, seguir abrindo trilhas na mata fechada do preconceito para que nossos descendentes possam vislumbrar com mais nitidez a igualdade que tanto sonhamos.


Mariana Santos de Assis: formada em letras e mestranda em linguística aplicada na Unicamp, militante no Núcleo de Consciência Negra e na Frente Pró-Cotas da Unicamp.

Mariana Santos de Assis: formada em letras e mestranda em linguística aplicada na Unicamp, militante no Núcleo de Consciência Negra e na Frente Pró-Cotas da Unicamp.
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  • Margarete D. F. Silva

    Concordo com o artigo, uma das faces mais perversas do preconceito racial é sua capacidade de minar a autoestima, quem não gosta de si mesmo quem ouviu durante boa parte da sua existência que ser negro é feio,(ainda que subliminarmente) que não faz parte do padrão de beleza midiático , que o cabelo é bombril, o nariz é feio e coisas deste tipo não se aceita e consequentemente também não aceita o outro (a), onde se vê fisicamente e em toda carga de “valores” que isso lhe traz , e o que acaba sendo tão pior ainda acaba servindo de bode expiatório para preconceituosos que dizem ” o próprio negro é preconceituoso…”

  • Reginaldo Bispo

    Mariana, vc foi bem até quando no penúltimo paragrafo acusa: Vc homem negro, …”está lutando para ser um homem branco, aquele mesmo homem branco contra o qual ele lutou ao lado de sua companheira negra”. Isto dá uma tese. Uma hora dessas volto a isso…..

  • cara, não concordo com o argumento … concordo com o sentido do texto, com a reivindicação justa que ele traz em seu desenvolvimento, mas os argumentos são ruins .. na verdade, esse movimento de apelar para um passado primordial, um recorte sobre um tempo histórico imaginado em África para estabelecer as relações com o presente é mais falácia que realidade .. não nos conhecemos nessa ancestralidade mítica. É essa a realidade .. simplesmente a desconhecemos .. esse é o processo do branqueamento no nível do universo cultural, então me soa essencialista esse argumento. As vezes me pergunto se o conceito de Raça não é uma prisão que ainda nos oprime ! Raça foi o artifício do colonizador para nos taxar como inferiores biológica e culturalmente, foi com raça que acabamos na escravidão. Entendo o uso do conceito de raça hoje no sentido de que é mais fácil apelar para essa idéia para integrar a ‘massa’ negra, para trazê-la para nossas discussões, mas ao mesmo tempo, acho preguiçoso intelectuais que se prendem a esse conceito para tentar elencar estratégias de mudança social (ou comportamental, como queira). Não vim aqui para menosprezar o seu texto, não me entenda mal .. sou inclusive defensor das uniões entre nós negros, como prega o seu texto. Sou a favor e defensor da idéia, não da regra, que fique bem explicado ! Não quero pagar de humanista cool e dizer que raça deve ser abolida porque somos todos ‘humanos’ ! de jeito nenhum ..o que quero é mais, é problematizar raça ! enquanto conceito político ele mostra sua eficácia, é coerente seu funcionamento, mas será que, se analisarmos o conceito por sua historicidade e papel social, por sua apresentação de verdade, seu caráter de ciência, revigorar esse conceito não seria desonesto de nossa parte ? Não venho aqui para dizer que é assim que tem que ser, não me entenda mal … mas é que sou negro, e não gostaria de ter que defender raça .. sei o que é raça e de sua trajetória histórica enquanto conceito social, cultural e sobretudo, poder político. Então deixo aqui essas reflexões esparsas e mal escritas .. com respeito deixo, na verdade, estas inquietações. forte abraço.

    • Olha Lê, acho que não me fiz entender, ao menos não pra vc, primeiro em nenhum momento reivindiquei nossa ancestralidade africana, na verdade minha alusão à África foi apenas pra demonstrar mais uma agressão ao povo negro, que foi a mudança brusca de sociabilidade. Reivindico sim nossa história em uma sociedade que nos oprime, não se engane, não foi o conceito de raça que nos levou à escravidão, ele serviu para justificá-la. E retomar esse conceito não é uma forma de agregar o povo, mas sim de mostrar que esse conceito ainda atua para nos separar e não foram os intelectuais negros que criaram isso.

  • Muito obrigada Raquel e Paulo concordo demais com isso, precisamos mudar a imagem dxs negrxs na mídia e, principalmente da família negra que vem sendo inviabilizada nas grandes mídias brasileiras.

  • Raquel

    Nunca tinha pensado dessa forma, gostei bastante da argumentação, abriu a minha cabeça… Mais um ótimo texto e continuem assim!

  • Paulo

    Muito das nossas “preferências” se devem a imagem que temos de nós mesmos através da tv. Isso afeta muito os relacionamentos entre homens e mulheres negrxs e tb relacionamentos “interraciais”.

  • Paulo

    Mobilizem xs negrxs a boicotar produtos anunciados na tv q não nos representem como seres humanos iguais e produtos que “financiam” programas que tem conteudo racista. Se xs negrxs não são bons o suficiente para serem bem representados então o nosso $$$ tb não tem que servir. Qnd isso acontecer de maneira engajada em pouco tempo a cara dos programas e da publicidade começa a mudar.

    • Margarete D. F. Silva

      Paulo sempre pensei assim, é o comercial de creme dental onde aparece 20 sorrisos, 20! e nenhum negro, o shampoo que só serve para cabelo loiro e muitas outras coisas que poderia elencar aqui, mas parece que ninguém percebe estamos no Brasil ou na Suíça ?já passou da hora que descobrirem que negro consome, consome muito e merece ser tão bem tratado e REPRESENTADO como todo consumidor.