Repensar a democracia. Imagem - Reprodução Facebook Afromundos.

Repensar a democracia. Imagem – Reprodução Facebook Afromundos.

Por Djamila Ribeiro para as Blogueiras Negras

Podemos dizer que nas sociedades modernas há a rejeição do sujeito coletivo como uma entidade uma e estável. E isso, implicou num novo entendimento da identidade como construção negociada pela relação com os outros; num processo que visa a definição e redefinição de seus processos. Quando se abandonaram os macro sujeitos históricos, os grupos minoritários – em direitos e acesso a cidadania- passaram, então, a constituir-se no espaço público democrático a partir de suas reivindicações políticas no que diz respeito às suas diferenças e às suas representações nos espaços coletivos.

Se entendermos a democracia como uma forma de lidar com os desacordos entre os cidadãos e cidadãs, que partilham de uma só sociedade, mas não de uma só cultura ou somente de um único modo de como as coisas deveriam ser feitas, percebemos aí uma das implicações que traz questões complexas. Faz com que elaboremos a questão: o modelo de democracia que seguimos está pronto para aceitar as diferenças sem as marginalizar? Na teoria, sabemos que sim. Mas, na prática, isso ainda está longe de acontecer.

O desafio da teoria e prática das democracias contemporâneas é, assim, por um lado, reconhecer que os indivíduos são posicionados de formas múltiplas, em termos de marcadores identitários como a raça, o gênero, a idade, ou a cultura e, por outro, desenvolver formas de lidar com os processos de exclusão gerados pela concentração de poder e pela impossibilidade de acesso a formas de participação na vida coletiva que tenha justamente em conta essas diferenças.

As democracias passaram, portanto, a enfrentar desafios especiais em sociedades multi-identitárias para garantir a representação e participação das minorias, protegendo, promovendo e realizando os seus direitos. O fio condutor das reivindicações destas minorias é a ideia normativa de que os indivíduos e os grupos sociais têm de obter “reconhecimento” ou respeito na sua “diferença” (Taylor, 1994, Honneth, 1995).

Tendo em vista os últimos acontecimentos em relação às manifestações, é necessário lembrar-se sempre do papel da democracia; que não pode de forma alguma reprimir os grupos que lutam por reconhecimento e direito e mais que esse é um direito que esses grupos têm. Muitos desses grupos, como o movimento de mulheres negras, movimento negro que há décadas vêm lutando para que @s negr@s tenham acesso a cidadania; muito antes de um tal “despertar” tão exaltado agora. E, como é sabido, alguns desses membros, foram hostilizados em uma dessas manifestações; o que é absolutamente inadmissível. Urge enfrentarmos essa “contaminação” de pessoas que querem desvirtuar o verdadeiro objetivo das manifestações, que não é somente mais é a luta por direitos, mas também o reconhecimento como sujeito; o papel de ser sujeito nas decisões do país.


Esse integra a Blogagem Coletiva pela Democracia e foi escrito por Djamila Ribeiro, Mestranda em Filosofia Política a Universidade Federal de São Paulo; membro fundadora do Mapô – Núcleo de Estudos Interdisciplinar em Raça, Gênero e Sexualidade da Unifesp. A autora recomenda a leitura de Os restos da democracia, de Edson Teles.


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