Por Ana Flávia Magalhães Pinto para as Blogueiras Negras

No último sábado, 22 de junho, a Marcha das Vadias ocupou ruas e espaços do centro de Brasília, com a palavra de ordem: “Se ser livre é ser vadia, então somos vadias!”. Segundo estimativas oficiais, cerca de 4 mil pessoas comparecem ao protesto. Dias antes, a ativista negra Maria Luiza Júnior havia me convidado a estar com ela naquela manifestação em que, como “Mãe de Preto”, carregaria um cartaz com a mensagem: “Brasil, troque sua polícia racista por uma política humanista. Dê um basta ao genocídio da juventude negra!”. Declinei do convite, explicando que não iria por razões pessoais e em sintonia com a decisão tomada pelo Coletivo Pretas Candangas, do qual faço parte.

Já no dia da Marcha, cheguei a encontrar no Facebook uma fotografia de Luiza levantando o seu cartaz no meio da multidão, o que me deu uma ponta de alegria por saber que um tema importante para muitas mulheres negras se fez presente de algum modo. Qual não foi a minha surpresa quando a mesma Luiza compartilhou com alguns amigos um vídeo sobre um episódio lamentável ocorrido também na Marcha e que a fez deixar a atividade antes do fim. Era o registro do momento em que um homem negro, usuário de muletas para compensar a falta de uma perna, talvez um morador de rua e mentalmente alterado se posicionou à margem da Marcha fazendo gestos obscenos. A ação gerou uma reação instantânea. Um grupo de mulheres quase todas brancas fez um cerco a ele, coagindo-o com gritos, buzinas, cartazes, sem falar na quantidade de fotógrafos a registrar o fenômeno. Maria Luiza Junior também apareceu imediatamente, mas não para fazer coro com as demais. Ela tentava proteger o moço com aquele cartaz sobre extermínio da juventude negra, mas sua atitude não foi entendida nem por ele, nem pelas demais.

[youtube=http://youtu.be/puF1uKl-9-o]

Confesso que aquelas cenas me deixaram atônita num primeiro momento, mas pouco depois resolvi compartilhar minha angústia com Janaína Damaceno, uma amiga muito sábia. Conversamos rapidamente a respeito e, horas depois, ela lançou o seguinte questionamento também na rede social: “Alguém explica isso: como mulheres em grande parte brancas e universitárias, hostilizando e perseguindo um homem negro, pobre, deficiente e com problemas mentais pode ser igual a luta contra o machismo? Sério que ele personifica o inimigo? A luta antimachista exclui o bom senso? Ele fez algo extremamente grave que não foi captado pelo vídeo?”.

Divulguei aquela reflexão e uma interessante discussão foi desenvolvida. Jurema Werneck prontamente entrou em contato com a organização da Marcha e obteve a resposta de que “esta cena − e mais uma − foi fruto da ação da comissão de segurança da Marcha contra os agressores. E, neste caso, os agressores. A organização da Marcha deve soltar uma nota ainda hoje sobre este episódio”. Enquanto seguíamos o debate e aguardávamos a nota, que até a tarde de quarta-feira (26) ainda não tinha saído, alguém chegou a ponderar se o vídeo teria mesmo mostrado tudo o que acontecera. O relato da própria Maria Luiza Júnior, entretanto, confirmou o que para muitas já era óbvio: “Vou falar como testemunha ocular. O rapaz simplesmente levantou a camisa, porque na marcha havia pessoas de peito nu. Ele estava exibindo o ‘tanquinho’. Depois dos primeiros gritos, ele deu as costas e saía em direção contrária à marcha. Em seguida, fotógrafos e povo cercaram-no e ele novamente levantou a camisa. Eu que estava próxima, temendo que a bermuda amarrada com cordão baixasse expondo sua genitália, coloquei o cartaz em cima. Ele reagiu batendo no cartaz. Tendo me ouvido pedir que não continuasse com aquilo, gesticulou para que me afastasse. Daí eu saí da marcha porque fiquei deveras perturbada com o racismo exacerbado das manifestantes que acorreram para ele como urubus em busca de carniça. No vídeo está claro que ele está caminhando ou tentando ir no sentido contrário da marcha. A filmagem acaba quando ele atira a muleta em direção ao estacionamento sem pessoa alguma. Eu estava lá, e isto está no vídeo. O que faltou ao vídeo foi a minha indignação com a agressividade daqueles que gritavam com o rapaz e ainda o impediam de sair da confusão”.

A julgar pelos posicionamentos enviados, o episódio tem tido tamanha repercussão por condensar uma série de insatisfações que há muito perturbam várias mulheres negras que se colocam em diálogo com organizações feministas de maioria branca. Aline Maia, por exemplo, ponderou: “Será mesmo possível construir um feminismo, com mulheres brancas, que pautem nossas demandas? Tenho muitas dúvidas! Porque, na experiência que tenho, vejo que na maioria das vezes é sempre isso que acontece: expomos nossas questões, expomos nossos corpos negros, nossas paixões e dores e a massa branca se lixa; e no final diz: ‘Viva a solidariedade feminina’”. O posicionamento de Carla Akotirene é tão instigante quanto: “Ando repensando essas articulações com movimentos de mulheres que combatem as violências de gênero a partir de outras modalidades de opressão contra corporeidades negras, contra os racialmente excluídos e querem se firmar revolucionárias”. Para Aline Matos, o acontecido encaixa-se nas problematizações feitas por Audre Lorde: “A recusa institucionalizada da diferença é uma necessidade básica para a economia do benefício que necessita da existência de um excedente de pessoas marginais”.

Quando as primeiras edições da Marcha das Vadias / Slut Walk aconteceram, em 2011, eu estava no período de doutorado sanduíche nos Estados Unidos. Era uma duplamente outsider, mas tentei acompanhar o que acontecia simultaneamente aqui e lá. Como a experiência de ser tratada negativamente como vadia é algo que faz parte da experiência das mulheres negras, a proposta não me soou de todo descabida. Porém, logo surgiram alguns questionamentos feitos por mulheres negras de ambos os países. O primeiro deles lembrava que tal tratamento não nos tem sido reservado apenas quando saímos às ruas com roupas curtas. A negação do nosso direito ao próprio corpo independe das roupas que usemos. O segundo era o fato de muitas meninas, jovens e adultas negras das periferias e dos guetos não considerarem uma transgressão sair para qualquer lugar de shortinho e blusinha ou roupas justas. Elas fazem isso corriqueiramente e soa até estranha a agitação por algo tão banal. Por outro lado, a proposta poderia fazer sentido porque o puritanismo nunca nos salvou.

Seja como for, não participei de nenhuma atividade de rua. A razão disso se deu pela forma como esses questionamentos foram tratados pelas feministas brancas organizadoras das edições da Marcha das Vadias / Slut Walk naquele momento e posteriormente. Ao retornar dos EUA, não foi difícil manter minha decisão, pois os relatos de ativistas negras reforçaram a minha dificuldade de aproximação e crença no diálogo produtivo com aquele feminismo. Como relatou Paula Balduino de Melo no debate virtual dos últimos dias: “Nós, Pretas Candangas, estivemos em uma reunião de organização da Marcha das Vadias no ano passado (ou retrasado, me ajude a lembrar Juliana Cézar Nunes), a convite de algumas organizadoras. Junto com outras mulheres negras presentes, posicionamos nossas divergências quanto à marcha. Divergências de princípio. Falamos sobre como temos de enfrentar cotidianamente a sociedade hegemônica para mostrar que não somos vadias, que não temos a ‘cor do pecado’. Falamos que não queremos reivindicar o direito de ser vadias, mas sim de ser médicas, advogadas, doutoras. O fato ocorrido dentro da marcha este ano reforça as diferenças”.

Mais uma vez diante desses relatos, penso que a facilidade com que aquele homem − que visualizei como a personificação de um Saci trágico − foi transformado no alvo da catarse das manifestantes está diretamente associada à dificuldade que as feministas brancas organizadoras da Marcha têm de entender e incorporar os questionamentos colocados pelas mulheres negras, feministas ou não. Falamos, recebemos um sorriso amistoso de “Eu vejo você”, e a coisa segue sendo feita de acordo com a vontade delas, como se expressassem a certeza de que “Isso que vocês dizem pode ser interessante, mas o que estabelecemos desde o exterior é mais”. Afinal, a Marcha das Vadias tem alcançado ampla legitimação e, portanto, deve ser tida como uma decisão acertada e ponto final.

Não há dúvida de que aquele homem foi infeliz e insensato em suas ações, a ponto de colocar em risco até mesmo a própria integridade física já degradada. Mas alçá-lo à condição de “O agressor”, isso já me parece no mínimo emblemático do que não se conseguiu avançar por meio de debates quase sempre exclusivos a GTs de Gênero e Raça. Mesmo sabendo das limitações não intencionais, não era isso que esperava de pessoas que se dizem simpáticas às dores dos loucos, usuários de droga, mendigos, etc. A sensação é de que os representantes da escória são super bem vindos desde que se comportem do jeito estabelecido pela esquerda branca e classista.

Não estou com isso pondo em xeque a legitimidade do feminismo em sim ou a viabilidade de uma luta coletiva. Trata-se apenas de mais uma tentativa de deslocar a centralidade confortável do feminismo branco, mantida ao longo de décadas, algo que o permite exercer o seu poder à revelia das experiências de outras mulheres, com destaque neste caso para as negras. Digo isso porque uma coisa que dificilmente entra na cabeça de várias de nossas interlocutoras é a necessidade que nós, mulheres negras, temos de defender a existência dos homens negros. Não falamos apenas do pai opressor. Pela nossa história, convivemos também com os registros do avô escravizado, do pai encarcerado, do irmão desempregado, do filho executado, todos pagando o preço de ser tidos como vadios!

Felizmente, mesmo num momento delicado como esse, há pessoas que buscam romper com os privilégios que desfrutam por serem brancas, expõem os erros de gente do seu próprio grupo sociorracial e se colocam para um debate franco conosco, a exemplo da professora Edlene Silva, que disse: “Lamentável!!!! Estava falando sobre a questão gênero, raça e movimento feminista numa palestra que dei no sábado para professores do GDF. Tem questões identitárias no movimento feminista que datam do século XIX, desde o sufragismo que ainda são tão atuais, infelizmente”. Ou o também professor Alexandre Magno, quando expôs suas reflexões: “Algumas feministas dirão que a ação das mulheres foi corretíssima, que aquele lugar era o lugar de fala delas e que seus gritos de liberdade seriam a única fala. Fiquei imaginando a mesma situação por outra óptica, a de um homem negro, pobre, deficiente físico, possivelmente sem instrução, atordoado por aqueles sinalizadores sonoros, cheios de gás e bem próximos ao ouvido dele, que de repente depara com as falas estampadas nos cartazes e que rapidamente, talvez pela sua compreensão de mundo e construção do modelo sexista, direcionou toda aquela fala ‘ao falo’. Será ele o inimigo? E a rua, que provavelmente ele habita todos os dias, o lugar a que foi destinado, separado, a sobra, não como o lugar masculino, mas o da exclusão (de tantos negros/as excluídos/as), agora tem dono/a? Limpem a rua, saiam do caminho que marcha vai passar… Mas uma vez aquele homem negro, sem uma das pernas, sem apoio, não tem lugar. Que fórmula mais maluca de se lutar por equidade! Contra o machismo, o racismo”.

Quando junto tudo isso, aquelas imagens do vídeo assumem dimensão épica, condensam uma série de violências contra as quais nós negras e negros temos batido e nos debatido. A essa altura do campeonato, se a nota da organização das Marcha das Vadias chegar, servirá apenas como mais um registro importante para nossas reflexões sobre essa instável parceria entre feministas brancas e mulheres negras. O que disserem não apagará o que aconteceu na Marcha. O antirracismo já é palavreado fácil, mas segue sendo uma prática difícil. Eis o lugar onde estamos. Para onde vamos? Isso depende do caminho que todas e todos estiverem realmente dispostas e empenhados a trilhar.


Ana Flávia Magalhães Pinto responde pelo blog Por falar em liberdade, é doutoranda e mestre em História, jornalista, integrante do Coletivo Pretas Candangas, e autora do livro Imprensa negra no Brasil do século XIX (Selo Negro, 2010).


Acompanhe nossas atividades, participe de nossas discussões e escreva com a gente.

RssGrupo de discussãoPágina no facebookTwitterGplusEmail

  • Ana

    Lendo isso pela primeira vez 3 anos depois do ocorrido, tenho apenas uma pergunta: isso continua sendo frequente?

  • Pablo

    Achei uma tremenda manifestação de racismo; dou todo apoio às críticas feitas por mulheres negras. A chamada “comissão de segurança” é a comissão do ridículo, de expor um homem negro nessas condições. É uma vergonha… podiam assumir logo ao revés de ficar explicando. Vão no GDF ridicularizar o Agnelo, ou a Dilma no governo federal… que são machistas no poder, no comando!!! Contra um rapaz como esse deixe que a polícia o ridiculariza todo dia!!! Não neguem, assumam que existe racismo… porque não haveria, numa marcha tão clara??? Um absurdo total, uma covardia completa. Pq não vão na secretaria de segurança pedir o diabo dos centros de atendimento à mulher, as DEAMs, ofender mendigo, sinto muito, não está no meu repertório. É triste ver que acontece, mas é ridícula e covarde a negação do fato. Comissão de segurança racista já existem muitas pelo Brasil, dentro ou fora da PM.
    A mulher negra tem todo direito de criticar o ato ridículo, e se colocar contra a marcha; é um direito político. Pois sempre é assim, o negro levanta o dedo e é tratado como cachorro. O branco age com racismo e todo mundo fica com “dedos” e “poréns”, quer saber, todo apoio às negras que deram a cara a tapa e condenaram essa palhaçada disfarçada de “combate ao machismo”. São os “negros perigosos” novamente, que “precisam de segurança”… As UPPs estão aí provando que até na esquerda o pessoal é meio maluco e racista, o “perigoso mendigo manco do semáforo”… voltamos às limpezas dos grandes centros. viva a luta do povo negro, pela legalização do aborto!

  • catarina

    Billy Campbell, é claro que ninguém ia linchar ninguém. Parece que você não viu o mesmo vídeo que eu.

    A comissão de segurança está justamente tentando fazer com que ele se afaste, saia da Marcha. Quem bloqueou a passagem dele foram os fotógrafos, não a comissão de segurança.

  • Abigail

    Demorei para me pronunciar a cerca do ocorrido, para ler,ver e refletir sobre os textos, videos e notas publicados sobre o assunto. Ja que todxs estão se apresentando pela cor da pele, vamos la: meus bisavós e a família do meu pai são de pessoas consideradas negras – mas nasci com uma pele mais clara e sou considerada branca. Meu irmão, que tem pele mais escura, todxs as vezes que esta com amigxs e passam por policiais – e ELE e somente ele e’ abordado. Sou advogada e militante do projeto Motyrum, da UFRN – embora afastada por esta’ amamentando.

    A marcha da vadia e’ um mov. classista, no momento que surge de universidades de maioria branca – mas como levanta muitas questões – devemos ou não nos apropriarmos da Marcha e transforma-la de forma a incluir todxs? Agora, jao, quem disse que a Marcha exclui as demais formas de atuação? E que o feminismo não precisa de construção teórica? O Motyrum aqui, em Natal/RN, atua com educação popular no campo, nos espaços de privação de liberdade e em periferias e ajuda na construção da Marcha, assim como os demais coletivos de mulheres, cada um em sua área de atuação. Acho que o “desfile carnavalesco” e’ importante para a divulgação da causa e como primeiro contato com o feminismo.

    Acho que essa questão de roupas curtas, esta relacionado a sexualização excessiva das camadas populares – que facilita a exploração por parte das camadas da elite -, tirar o significado opressor e transforma-lo em libertário so tem sentido para alguém que nunca sofreu por isso – classe media branca. Todxs sabemos que fora do ambiente das periferias, roupas curtas e sensuais alem de esta ligado a libertinagem, por sua estética e uma forma poderosa de diferenciação de classe.

    Nossa sociedade e racista – e e’ mto triste ver que o movimento feminista não aborda essas questões de forma satisfatória. Um mendigo ser quase linchado pela multidão – qualquer forma de linchamento e’ temerária -e a impressa encurrala-lo, foi pavoroso, se ele estava em surto, bêbado ou só com medo, a forma como foi conduzida a situação se revelou escrota e racista. A própria comissão de segurança deveria ter aberto caminho entre os fotógrafos e não deixar o coitado encurralado em situação vexatória e exposta.

    Ver essa dupla discriminação sobre esse homem foi de doer o coração, pois expôs de forma visceral o racismo classista de nossa sociedade.

    • catarina

      Ai minha santa paciência. Ninguém ia linchar o pobre mendigo não. A comissão de segurança só estava buzinando no ouvido dele e mandando ele se retirar da Marcha, procedimento padrão.

      Olha, eu não estava lá, então eu falo apenas como uma pessoa que viu o vídeo e leu depoimentos de pessoas que estavam na Marcha, mas é bastante irritante ler um comentário como o seu, principalmente esse penúltimo parágrafo aí.

      Acho que dá próxima vez que um homem oprimido resolver hostilizar manifestantes de uma Marcha das Vadias o procedimento padrão deverá ser oferecer chá e biscoitos.

    • Billy Campbell

      Pera, Catarina, ninguém ia linchar? Já estavam linchando ele! Você assistiu o vídeo todo? Se não percebeu, depois do primeiro “procedimento padrão”, ele se afasta e é a tal comisssão de segurança que vai atrás dele para buzinar mais no ouvido dele. Isso sem falar quando cercam ele depois! E foram só 2 minutos e pouco de video e no que eu vi, ele só levantou a camisa, nem deu para ver ele seu menção de baixar as calças! Ok, ele pode ter hostilizado, que seja, mas custava deixar ele de lado e seguir com a marcha ao invés de seguirem o cara só porque estavam filmando e que, provavelmente, iriam compartilhar o video depois nas redes sociais para mostrar para todos o quanto são pró-ativxs?

  • O FEMINISMO PEQUENO-BURGUÊS X A URGÊNCIA REIVINDICATIVA DAS MULHERES DO POVO
    Na semana passada houve uma grande repercussão de um vídeo(http://www.youtube.com/watch?v=puF1uKl-9-o) gravado durante A MARCHA DAS VADIAS em Brasília, O vídeo mostra um homem negro de muletas em aparente situação de rua e possivelmente sob efeito de drogas ou perturbação mentalmente sendo perseguido pela comissão de segurança da marcha semelhantemente as perseguições machistas impostas às mulheres alcoolizadas em festas e nas ruas e que muitas vezes acabam em violação sexual, porém o homem foi perseguido não com a finalidade de ser violentado sexualmente, mas sim para ser violentado na base da mais ridícula e covarde hostilização pelo simples fato de ter levantado a camisa e ter ficado rebolando amparado por suas muletas. Em seguida militantes negras expressaram total repudio ao circo dos horrores ocorrido numa marcha dita libertária (ou liberal) e fizeram uma critica através de um texto publicado no (http://blogueirasnegras.wordpress.com/2013/06/27/desafios-politicos-feminismo-negro/) no qual fizeram questão de afirma que A MARCHA DAS VADIAS não contempla as mulheres negras e da periferia em geral critica a qual oportunistamente a organização da MARCHA respondeu( http://marchadasvadiasdf.wordpress.com/2013/07/02/nota-publica-sobre-expulsoes-na-marcha-das-vadias-df-2013/) dizendo que as criticas sempre são bem vindas, porém é contraditório querer hierarquizar ou eleger um setor ou luta como prioritários, pois todas as opressões estão interligadas assim como não podem tolerar o machismo vindo de minorias oprimidas só pelo fato de sofrerem também com a opressão.
    Com esses argumentos a direção da marcha tenta desesperadamente encobrir a contradição de classe existente dentro desse do movimento para inibir uma inevitável ruptura que aponte para construção de uma alternativa classista e combativa na contramão do culturalismo festivo, sem resultados e pequeno-burguês da Marcha das vadias. Essa Essência pequena burguesa pode ser vista não só na composição do movimento (na maioria filhas da classe média, de pequenos comerciantes e até empresárias), mas também na resposta a critica das mulheres negras onde tentam desviar do debate acusando de se tratar de uma tentativa equivocada de privilegiar um setor através da tal hierarquização. Mostrando com isso que a MARCHA não possui vinculo e muito menos compromisso com a mudança da realidade das mulheres trabalhadoras, O fato é que querendo ou não a classe média A maioria esmagadora das mulheres em nosso país são negras, mestiças e moradoras da periferia e é nessa mesma periferia onde mora também a maioria das mulheres brancas ou seja a critica das ativistas negras não se trata de querer privilegiar um setor oprimido e sim de uma tentativa instintiva na defesa das reivindicações das mulheres da classe trabalhadora com foco na realidade social,cultural e econômica na qual vivem a maioria esmagadora das mulheres.
    A critica surgiu não pelo fato da cor da pele ou pelo fato do homem está de muletas, mas sim porque as mulheres e o povo em geral trabalham de forma pratica e concreta e não com abstrações da realidade típicas da classe média acadêmica. Elas entendem a necessidade do combate à cultura machista, porém possuem a noção de que essa é inútil sem se obter legitimidade perante a maioria das mulheres e ao povo em geral sabendo que essa legitimidade só é conquistada através da luta ombro a ombro junto ao restante da classe trabalhadora e não via atos pacíficos e festivos sem nenhuma ação direta no problema e nenhum resultado concreto.
    Assim como o restante da população que sai nas ruas os gays e as mulheres brasileiras filh@s do povo querem urgência para suas reivindicações as mesmas reivindicações que não dialogam com as reivindicações da pequena burguesia (não só pela diferente realidade econômica, mas também pelos diferentes métodos de luta), E sabem que se realmente o movimento da Marcha das vadias tivesse como objetivo a libertação e emancipação feminina ao invés de gastarem tanta energia em organizar desfiles carnavalescos com uma temática feminista ou perseguindo deficientes bebados… estariam nas periferias (onde se encontra a maioria das mulheres) construindo comitês de defesa da mulher e/ou da diversidade sexual atuando diretamente na realidade através de ocupações de prédios para abrigar mulheres vitimas de violência domestica,ministrando aula de autodefesa,propiciando cursos profissionalizantes por meio de sindicatos ou associações de moradores para mulheres dependentes financeiramente do agressor e através de atos de rua de verdade que tenham um objetivo pra além do protesto vazio que ocupem gabinetes de políticos contra aprovação de leis machistas ou homofobicas para então nesses espaços (comitês, associações comunitárias, sindicatos e grupos de autodefesa) ser feita a desconstrução da cultura machista na prática sem o risco de cair nos desvios e abstrações políticas propostos pela pequena burguesia que hoje é materializada na Marcha das vadias.
    Abaixo a política pequeno burguesa
    Avante a construção feminismo classista e combativo!

  • Carol Barreiro

    lindo texto ! necessário!

  • Para contribuir com o debate, segue o link da NOTA PÚBLICA SOBRE EXPULSÕES NA MARCHA DAS VADIAS-DF 2013: http://marchadasvadiasdf.wordpress.com/2013/07/02/nota-publica-sobre-expulsoes-na-marcha-das-vadias-df-2013/

    “Antes de mais nada, gostaríamos de explicitar as razões pelas quais não publicamos esta nota anteriormente. A Marcha das Vadias – DF (MdV-DF) é composta por um grupo muito grande e diverso de mulheres que se organiza de forma horizontal para a construção da marcha. Entendemos que as expulsões realizadas, sempre polêmicas pela sua complexidade, demandavam uma discussão aprofundada e de qualidade. Assim, garantiríamos que a nota fosse o resultado de uma construção coletiva, consciente e responsável, e não de um posicionamento leviano ou hierárquico, partindo de poucas.
    (…)”

    • catarina

      Muito esclarecedora a nota de vocês.

  • perturbador esse video. não sei o que pensar. sou feminista de pele branca, e, da minha parte, não participo desses movimentos porque é feminismo carnista – e, sinceramente, feminista que come carne é a maior incongruência da face da terra, na minha opinião. mas assistindo ao video o que me parece é que teve “bullying” por parte das manifestantes contra esse moço – parecido com o que ocorreu com manifestantes partidários nas passeatas ‘apartidárias’ da semana retrasada. o que ele fez foi completamente inapropriado? foi sim. mas penso que as manifestantes poderiam ter agido de outra maneira com ele.

  • Nycka

    Em geral, a unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende
    apenas da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica
    hegemonia masculina, mas exige, também, a superação de ideologias
    complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo. O racismo
    estabelece a inferioridade social dos segmentos negros da população em geral e
    das mulheres negras em particular, operando ademais como fator de divisão na
    luta das mulheres pelos privilégios que se instituem para as mulheres brancas.
    Nessa perspectiva, a luta das mulheres negras contra a opressão de gênero e de
    raça vem desenhando novos contornos para a ação política feminista e anti-racista,
    enriquecendo tanto a discussão da questão racial, como a questão de gênero na
    sociedade brasileira. Sueli Carneiro

  • Um dos poucos textos do levante do feminismo negro que dialogou comigo. Muito embora de forma inexperiente ainda, tenho criticado algumas ações do feminismo que não me contemplam e não contemplam nenhuma mulher negra. Fico feliz em saber que não sou parte de uma minoria que pensa sim, mas de uma maioria de pretas conscientes de suas demandas! Beijocas a todas e parabéns a autora!

  • Fico feliz que o texto esteja servindo ao propósito de fortalecer o debate. Agradeço a todas as pessoas que complementaram as ideias e apresentaram outras perspectivas, demonstrando empenho pelo amadurecimento de nossas lutas cotidianas. Nossos passos vêm de longe e podemos ir muito além. Um abraço

  • Sou branca (estranho e revelador o fato de eu nunca ter que afirmar isso) , me considero feminista e participei da última Marcha das Vadias aqui em SP. Concordo com praticamente todos os pontos do texto.
    Não creio que tenha sido racismo o fato de as manifestantes “atacarem” o mendigo, muito provavelmente o mesmo teria sido feito se ele fosse branco, é ver um cara fazendo gestos obscenos para uma marcha de mulheres que o sangue talha.
    Mas também não tenho visto a MdV falar da/para a mulher negra. Houve alguns cartazes esporádicos, mas acho que o tema realmente merecia mais atenção, pelo fato de as mulheres negras serem mais frequentemente vítimas dessa violência machista que todas queremos combater. Seria interessante, inclusive, uma marcha temática com essa questão.
    É triste ver que esses fatos afastam as negras da Marcha das Vadias.
    Tenho sempre observado vários movimentos e acho que no fundo há um problema comum a todos, que é a falta de compreensão com a fala dos outros. Há falta de compreensão quando as meninas brancas apitam contra um cara negro que parece ter problemas mentais. Falta compreensão quando o movimento negro usa o discurso de “seu argumento não vale porque você é branco” e falta compreensão quando a MdV não dá a devida importância aos argumentos da causa negra.
    E nesse cenário, Ana Flávia, seu texto é um bálsamo. Parabéns por colocar essas questões de forma tão madura e bem refletida.

  • Gostei do texto também, mas considerei equivocado o ponto de partida da análise. Ainda que eu compreenda a questão dos homens negros excluídos e “tidos como vadios”, como brilhantemente você chamou atenção no texto, no vídeo onde supostamente isto aconteceria eu não percebi este teor racista e por um motivo simples: caso fosse branco ou de qualquer outra raça, teria sido hostilizado pela mesma maneira por ter agido como agiu. Alguns comentários aqui levantaram questões importantes como a violência sofrida por mulheres na rua, mas, principalmente pelas DE rua, na sua maioria também negra, que são estupradas, engravidam e etc. por homens como estes do vídeo (que também não me pareceu um doente mental se identificando com a marcha e querendo “mostrar a barriga” em demonstração; ele estava fazendo menção a mostrar seu pênis e, me pareceu, hostilmente) e esta é uma questão muito mais complexa, que me parece ter sido discutida no texto de forma condescendente.

    Se a massa que hostilizou o rapaz era branca e mestiça – e aqui abro um parênteses. Eu sou parda, de descendência europeia, negra e árabe e meus amigos brancos todos me consideram “mulata”, ao mesmo tempo que os negros dizem que eu sou “branca” e essa foi uma questão que sempre me intrigou e que eu senti aqui no texto também: muitas pessoas mestiças consideradas “brancas” – então o caso é de se pensar sobre o porquê da Marcha ter um apelo maior entre essa população e aí se discutir sobre estas nuances do feminismo (e o comentário da Juliana Cunha aliaco ao texto postado pela Janaína Damasceno são excelentes pontos de partida, inclusive pra mim que ainda não tinha pensado sobre o feminismo desta forma). A reflexão do texto é importantíssima, assim como aho que a Marcha também é, e acho que seria ocaso de buscar um diálogo maior entre os grupos que estão separadoa e não apontar dedos acusatórios utilizando uma situação tão controversa e, me parece, de exceção.

  • Ana Maria Gonçalves

    Obrigada por esse texto, Ana Flávia. Ele me ajudou a colocar no lugar muitas percepções que andavam soltas. É interessante perceber que, quando se trata de racismo (não só, mas principalmente), muitos tendem a ver divisão/ruptura onde, na verdade, nunca houve inclusão. Demandas específicas das mulheres negras quase nunca são contempladas, em favor do coletivo, mesmo tendo sido (e continua sendo, em muitos casos) o trabalho doméstico realizado por elas, por exemplo, o que possibilitou várias conquistas específicas das mulheres brancas.

    Acho extremamente válido e necessário o papel da Marcha das Vadias, mas sinto que, como mulher negra, também não é pra mim. Se não me engano é do escritor José Eduardo Agualusa a seguinte frase, quando perguntado sobre o futuro do povo angolano: “Somente os povos ricos podem se dar ao luxo do pessimismo.” Saio do seu texto com a seguinte mensagem: somente quem já conquistou o direito de ser médica, engenheira, advogada, professora etc.., pode se dar ao luxo de reivindicar ser vadia.

    Estamos juntas!
    beijos,

  • Laís

    Inicialmente, tive dificuldade de compreender a relação de mulheres brancas coagindo em volta do homem ter sido uma atitude ruim. Até mesmo não estava concordando com o texto. Contudo, ao longo da leitura, pude entender o ponto de vista. Não me considero branca pois sou filha de mãe branca e pai negro, mas fisicamente sou vista como branca e não sofro mais com preconceito. Quando criança e adolescente, sofria. E não sei se já sofri de racismo algum dia (minha mãe diz que não). Acredito que por nunca ter sido hostilizada de alguma forma pela minha cor de pele e não ter tido alguém negrx presente durante meu crescimento, dificulta chegar a este ponto de vista, de que o homem negro coagido pelas mulheres brancas, também sofria por exclusão, assim como nós mulheres, que lutamos pela igualdade. Ao final do texto ficou claro que, na atitude vista no vídeo, se ali na marcha lutava-se por igualdade, por direitos, naquele momento se fez perder toda a razão de estar ali.

  • Janaína Damaceno

    Compartilhando um texto do MIT: http://www.mit.edu/~thistle/v9/9.01/6blackf.html

    Black Women in the Feminist Movement

    Black Women who participated in the feminist movement during
    the 1960s often met with racism. It generally took the form of
    exclusion: black women were not invited to participate on conference
    panels which were not specifically about black or Third World women.
    They were not equally, or even proportionately, represented on the
    faculty of Women’s Studies Departments, nor were there classes devoted
    specifically to the study of black women’s history. In most women’s
    movement writings, the experiences of white, middle class women were
    described as universal “women’s experiences,” largely ignoring the
    differences of black and white women’s experiences due to race and
    class. In addition to this, well-known black women were often treated
    as tokens; their work was accepted as representing “the” black
    experience and was rarely ever criticized or challenged.
    Part of the overwhelming frustration black women felt within
    the Women’s Movement was at white feminists’ unwillingness to admit to
    their racism. This unwillingness comes from the sentiment that those
    who are oppressed can not oppress others. White women, who were (and
    still are) without question sexually oppressed by white men, believed
    that because of this oppression they were unable to assume the
    dominant role in the perpetuation of white racism; however, they have
    absorbed, supported and advocated racist ideology and have acted
    individually as racist oppressors. Traditionally, women’s sphere of
    influence has extended over the home, and it is no coincidence that in
    1963, seven times as many women of color (of whom 90 percent were
    black) as white women were employed as private household workers. It
    has been the tendency of white feminists to see men as the “enemy,”
    rather than themselves, as part of the patriarchal, racist, and
    classist society in which we all live.
    Not only did some white feminists refuse to acknowledge their
    ability to oppress women of color, some claimed that white women had
    always been anti-racist. Adrienne Rich claims, “our white foresisters
    have … often [defied] patriarchy … not on their own behalf but for
    the sake of black men, women, and children. We have a strong
    anti-racist female tradition;” however, as bell hooks points out
    “[t]here is little historical evidence to document Rich’s assertion
    that white women as a collective group or white women’s rights
    advocates are part of an anti-racist tradition.” Every women’s
    movement in the United States has been built on a racist foundation:
    women’s suffrage for white women, the abolition of slavery for the
    fortification of white society, the temperance movement for the moral
    uplifting of white society. None of these movements was for black
    liberation or racial equality; rather, they sprang from a desire to
    strengthen white society’s morals or to uplift the place of white
    women in that society.

  • Gostei do texto, mas discutindo o vídeo em si, não vi essa turba de mulheres brancas que foi mencionada. Vi algumas negras, muitas brancas e uma maioria de mestiças que provavelmente já sofreu preconceito por suas características étinicas. O sujeito não me pareceu deficiente mental e ele definitivamente fez menção de mostrar o pênis.
    O ataque foi grotesco e sem propósito, concordo plenamente com isso. Aquele homem não é “o inimigo” e, além disso, sou contra linchamentos de qualquer tipo. Se ele tinha machismos incorporados isso só piorou depois do contato com a marcha.
    Sobre a dicotomia entre o movimento feminista branco e negro, acho inevitável que exista. As mulheres brancas de classe média conquistaram o direito ao trabalho. As negras sempre tiveram esse “direito”. Na questão das roupas isso se repete: as mulheres da periferia se vestem há muito tempo do jeito que as mulheres de classe média estão reivindicando com essa marcha. Não se trata de separar o movimento, apenas de reconhecer uma separação existente. Um grupo feminista de classe média dificilmente vai tratar com propriedade e prioridade de assuntos que não o afetam.
    Mulheres têm pautas comuns, mas essas pautas ganham complexidade no caso das mulheres negras, das mulheres da periferia, de certas regiões do país. Movimentos como a Marcha das Vadias têm seu valor, não dá para descartar apenas porque não aprofundam a discussão, não a universalizam para os outros modos de exploração. Precisamos de coletivos mais avançados que a Marcha, não precisamos detonar a Marcha.

  • Lanne

    Faço das palavras da Dani minhas palavras….. Decepcionada!

    “e a massa branca se lixa; e no final diz: ‘Viva a solidariedade feminina’”…. Isso não é verdade, eu sou branca, estou na luta contra o racismo e o machismo a muito tempo, inclusive sigo este blog e leio todos os posts, discuto com meu namorado (que por sinal é negro) , entendo que a opressão da mulher negra é grande, mas não há justificativa para essa separação…. Nem tudo é: Mulheres negras oprimidas e mulheres brancas burguesas, !
    🙁

    • Ana

      “Isso não é verdade, eu sou branca, estou na luta contra o racismo e o machismo a muito tempo, inclusive sigo este blog e leio todos os posts, discuto com meu namorado (que por sinal é negro) , entendo que a opressão da mulher negra é grande (…)”.

      Nossa, Lanne, você quer o seu pirulito e a sua estrelinha agora ou depois?

      O que falta no feminismo é a humildade de escutar e tentar entender o ponto de vista de mulheres negras, trans*, com deficiências etc. antes de entrar automaticamente na defensiva (o que por si só é um sinal muito, mas MUITO ruim).

  • Janaína Damaceno

    pena que sumiram os 1500 likes do facebook. recomecei a contagem (agora fui o like n.1!) pq acho que este é um dos textos mais importantes que li ultimamente.

  • Olá, tomei conhecimento deste ocorrido através do compartilhamento no facebook de uma companheira.

    Em primeiro lugar é inquestionável que a postura das manifestantes não tem defesa,não havia motivo para tal reação; Em segundo lugar, creio que o feminismo não é branco,ele esta branco e classe média. Chegamos a esta conclusão, o que temos hoje é um feminismo burgues e branco, como já era desde a época das sufragistas, não se alterou em sua conformação, afinal. Temos duas saidas:

    Deixar como esta, ou reivindicar o espaço de luta.

    Existe uma grande ignorância entre as feministas sobre o RACISMO. Acreditem,muitxs sequer compreendem o que é ser negro, estão tão apegadas a definições baseadas na cor da pele, que não tem claramente sobre os conceitos politicos envolvidos. A grande maioria das feministas brada contra os discursos racistas,mas elas reproduzem o racismo e nem se dão conta de que estão fazendo isso, na página que modero é comum sairem muito bravas quando explico que o discurso delas é racista.

    É urgente esclarecimento, muitas destas mulheres estão conhecendo a militância agora, e trazem consigo uma carga enorme de reprodução de todo tipo de preconceito e discriminação que internalizaram, se não for contido, isso se disseminará pelo movimento feminista e cenas como esta do video serão naturalizadas.

    Se o feminismo é branco é burguês, vamos enegrecê-lo e vamos também preenchê-lo com a classe das mulheres trabalhadoras, que carregam reivindicações importantes e que deveriam ser acolhidas como prioridade por todo movimento feminista, afinal somos entre as oprimidas as mais oprimidas, isso é indiscutível.

    Para que haja igualdade não adianta pré conceber todas as mulheres vitimas da opressão machista com a mesma intensidade, isso não é verdade, é notório que entre as mulheres oprimidas Mulheres da classe trabalhadora e Mulheres negras são as maiores vitimas, se anseiam por igualdade e a luta é esta faz se urgente cuidar deste grupo.

    É possível sim construir o movimento de mulheres feministas juntxs e buscar o sonho por uma sociedade em que diferenças não se transformem em desigualdades, uma sociedade livre de machistas, racistas, homofóbicos e burgueses. Para isso temos que nos aliar, mulheres negrxs trabalhadoras e mulheres brancxs trabalhadoras, e por que não homens brancos e negros trabalhaores, eles tb. A luta feministas é de toda classe trabalhadora, temos algo em comum além da opressão patriarcalista, temos a opressão de classe, as negrxs ainda são mais oprimidxs, sofrem tb com o racismo. Acredito nesta organização.

  • Foi um equívoco, mesmo. A marcha deveria ter passado ao largo ou então parado para fazer uma reflexão sobre como a opressão é multifacetada, e acaba criando oposição, confronto onde deveria haver união.

    Mas e se o homem fosse branco e mesmo tendo as duas pernas? Penso que seria combatido da mesma forma. Nessas horas, em que todas as insatisfações vêm à tona, o dissenso comanda. E talvez seja inevitável. Mas o que penso que foi hotilizado ali foi o machista, infelizmente na pele de um indivíduo ele próprio outra vítima do sistema.

    Obs1: havia jovens negras e negros ali entre as manifestantes que fustigara o rapaz de muletas.

    Obs2: Existem muitas formas de protestar. E a marcha com suas palavras de ordens e refrões é a mais tradicional, mas não quer dizer que não possa haver outras. Tanto na marcha das vadias, quanto nos protestos que há quase um mês tomam o país está faltando um pouco de arte. A arte também pode transformar.

  • Lamentável a atitude arrogante destas garotas. A Marcha das Vadias passa por cima de várias mulheres e também nem todas as feministas estão de acordo com a Marcha das Vadias e sua forma branca classe medista. Para mim a Marcha das Vadias contraria o feminismo, afinal queremos poder fazer nossas escolhas sem sermos rotuladas. As mulheres negras sempre foram consideradas vadias, racismo puro. As prostitutas também são consideradas vadias, como se tivessem escolha. Qualquer mulher que faça “algo errado”, é uma vadia. Eu proponho que respeitemos nossas diferenças sem nos fecharmos para propostas sinceras e feministas.

  • Dani

    “servirá apenas como mais um registro importante para nossas reflexões sobre essa instável parceria entre feministas brancas e mulheres negras.” Por que se unir e lutar quando podemos destruir uma as outras? “é triste perceber como o feminismo não está em primeiro plano, nem dentro do feminismo”. Concordo. Penso nas mulheres negras integrantes da marcha das vadias que se identificam com pauta feminista e LGBT, o que me faz pensar tbm que a incompatibilidade está na cabeça de quem só enxerga o mundo em duas cores: preto e branco. Mas, o que eu acho mais lamentável de tudo isso não é nem o fato de as pautas feministas terem ficado completamente de lado, mas perceber que em vez de querer construir um debate sério sobre discriminação racial dentro dos movimentos feministas, agregando e construindo algo bonito, vc está mais preocupada em deslegitimar o movimento. A história contada não corresponde a realidade. Até onde sei (não fui na marcha mas tbm ouvi relatos de “testemunhas oculares”) o homem em questão mostrou o penis e tentou agredir uma manifestante. Mas o texto fala que ele estava apenas mostrando a barriga. Outra coisa que me deixou muito triste é perceber que vc acha que lugar de mulher branca não é do lado da negra na luta. Realmente, não há como comparar a discriminação que uma mulher negra sofre e que uma mulher branca sofre. Mulheres negras são duplamente discriminadas. São duplamente minorizadas. Mas no feminismo há um denominador comum: mulheres vivendo numa sociedade machista e opressora! Não quero de maneira nenhuma diminuir a importância da discussão da pauta racial, pelo contrário acho bom que se coloquem críticas, acho mesmo que é preciso botar isso na mesa. Mas dessa forma, em tom de incompatibilidade completa, em tom de destruição, como construir algo a partir disso? Como combater a exclusão a partir de um discurso de exclusão? A solução então é cada um que tome seu rumo? Vc realmente acredita que esse é o caminho para a construção de um mundo mais justo? Pensei que fosse possível fazer um debate mais inteligente a partir desse fato infeliz. Muito decepcionada.

  • Sheila Dias

    Ana Flávia, parabéns pela excelente reflexão. Já dizia Sueli Carneiro, sobre a importância de “enegrecer o feminismo”. Sim, é de nos entristecer a alma, quando observamos o vídeo e lemos o relato de uma das presentes na referida marcha. A conclusão que eu chego, é que sem a sensibilidade, ou mesmo o interesse em dialogar e ouvir a voz de quem a mais de quinhentos anos clama por justiça, respeito, liberdade, igualdade e direito a vida, continuaremos fragmentadas e caminhando como insetos em volta da lâmpada. É impressionante como é difícil descer do pedestal do privilégio, mesmo quando também se é oprimida. O feminismo branco por muito tempo se esquiva em dialogar com nós mulheres negras, de forma franca e honesta, pois, sabe que em “em terra de cegos, quem tem olho é rei…” Ou seja, nós mulheres negras ocupamos a base da pirâmide societária, somos as maiores vítimas do racismo praticado no SUS, na educação e em vários setores da sociedade, vimos nossos filhos, maridos, netos serem assassinados constantemente, engrossamos as fileiras dos presídios masculinos e femininos, sem falar nos hospitais psiquiátricos, continuamos a lavar a privada das madames, ou pelo menos das que se acham madames e ainda assim, temos que ler que um homem negro, visivelmente perturbado aprendeu a nos silenciar… Ora, não nos venham falar em silêncio, pois vocês o reproduzem cotidianamente e sabem que no fundo no fundo, deixar que a nossa voz ecoe é colocar no mínimo os vossos privilégios em xeque.

  • PC

    “Homem ofende mulheres e chega a tentar mostrar o orgão genital mas acaba impedido pela multidão. O machista foi preso em seguida. – http://www.humorpolitico.com.br – gravado por Diogo Ramalho na Marcha das Vadias 2012 – Brasília
    https://www.youtube.com/watch?v=e6CBqYxFcF4

  • raquel

    Sou uma feminista de pele branca, porém de uma trajetória de vida distante da classe média privilegiada. Fiquei tão chocada e entristecida em ver esse vídeo. Claro que essas coisas são sempre esperadas dos movimentos que só enxergam a desigualdade de gênero e que classificam as mulheres como blocos homogêneos de pautas generalizadas. Eu nunca tinha ido na marcha, pq tinha mil restrições as bandeiras tão brancas e elitistas, de um movimento importado. Dessa vez fui, pq achei que em meio a tantas manifestações absurdas ali era o que havia de mais libertário……..Esse feminismo branco elitista não agrega apenas as lutas e a existência das mulheres negras, mas de todas as mulheres que não fazem parte desse grupo seleto e privilegiado.

  • sou jovem , negro, trabalhador e filho de trabalhadores e sinceramente este video não me causou impacto nenhum ,só transpareceu a realidade que é debatida a séculos: existem tipos de feminismos e o praticado pela marchas das vadias sem foi de concepção pequeno burguesa tanto na concepção quanto nos metodos de enfrentamento cultural em pró de uma evolução de consciencia que na verdade cumpre o papel antagonico de afastar o povo que é a maioria. na marcha das vadias se fundem tanto o femenismo pequeno burgues (focado numa evolução cultural) e tano o femenismo partidario(focado em conquistas legais e de interesse eleitoral).por isso existe hoje a necessidade de resgate do feminismo classsista que nasça do povo e lute através e pelas mulheres do povo. segue um video interassante http://www.youtube.com/watch?v=SpOakytg-D0

  • Pelo relato ocular de minha irmã – que estava na Marcha – uma mulher negra (antes que digam que ela é uma “branca racista de classe média”), o cara teve atitudes claramente provocativas. Em outro vídeo, provavelmente filmado por outra pessoa, eu vejo este homem fazer gestos obscenos para as manifestantes. Se ele não fosse negro ou pobre ou usasse muletas: se fosse um “branco de classe média”? Então tudo bem? Será que pelo homem ter essas condições (provavelmente morador de rua ou usuário de drogas e/ou ter problemas mentais, sem uma perna) JUSTIFICA essa agressão (que não foi somente por gestos, mas também por palavras, assediando as mulheres)? Se o cara faz isso em meio a uma passeata, com em média 4 mil pessoas, como será a atitude dele quando existem poucas pessoas ao redor? Me imaginei andando à noite na rua e me deparando com um homem (qualquer um!) me dizendo obscenidades e gesticulando. Certamente eu sairia correndo e o consideraria perigoso. “Ah, mas ele é negro e não tem uma perna”. Ora, agressão sexual não exclui cor ou condição física e até mesmo mental. E se o senhor em questão realmente estava com a razão alterada (seja por drogas ou problemas mentais), certamente age pelos instintos, podendo, muito bem ser, de fato, um agressor.
    Mas parece que “birra” aqui é outra…

  • “Ele aprendeu direitinho como calar mulheres”. Assim como feministas brancas cisgêneras, de classe média sem deficiência também aprenderam a calar as negras, as trans*, as pessoas com deficiência, a calar as pobres. Esse tipo de comentário é o tipo que ignora por completo certas marginalizações. Porque ser mendigo, deficiente e negro não era desculpa né, afinal ele é homem e as feministas brancas de classe média tem todo direito de usar violência contra uma pessoa obviamente em situação desprivilegiada. Francamente, certos feminismos estão cegos pelos próprios privilégios.

  • Janaína Damaceno

    Leio alguns comentários, tento pensar em argumentos, mas aí me vem a cabeça que algumas pessoas não querem fazer debate sério, se a seriedade exigir que elas saiam de seus casulos de privilégio e poder. É um narcisismo incrível como diz Zizek daquelas pessoas que se encantam com o seu espelho e acham que longe dele não há mais nada. É a birra da pobre menina rica. Isso cansa.

  • Janaína Damaceno

    O texto é formidável em vários sentidos, saliento um deles: o da abertura e honestidade para discutir, conversar e aglutinar as falas que foram tecidas nestes dias. Essa abertura para o diálogo franco acima de tudo é uma das coisas que mais admiro em Ana Flávia.

    Hoje eu tive um pesadelo em que várias mulheres brancas (advogadas, jornalistas, etc) estavam com o rosto pintado de preto e espancavam um homem negro de muletas. Elas gritavam com ele e diziam uma para as outras “bate. ninguém vai acreditar! ninguém vai acreditar!” e riam loucamente.

  • Que bom que eu não fui…. sei lá falta esclarecimento e empatia (muita empatia) mesmo das feministas com as causas negras, sei lá na internet é tudo lindo mas na vida real não vejo essa irmandade.
    Uma pena já que se as minorias ou grupos oprimidos não são unidos o progresso é mais lerdo ainda.

  • Parabéns, Ilustre Mestra, Ana Flávia. Estou feliz pela oportunidade de ler e conhecer o teu posicionamento. Simplesmente formidável e digno de seguidoras(es).

  • Mari

    No vídeo eu vi mulheres sendo violentadas, como são todos os dias. Foram violentadas na marcha delas. Mas, como sempre, o feminismo fica segundo lugar. Verdadeiramente as mulheres negras acham que não podem se unir às mulheres brancas na luta contra o machismo por causa de um homem? Um homem que as hostilizava, que queria mostrar o pênis, numa visível representação de poder (ele aprendeu direitinho como calar mulheres)? Pois não foi isso que as manifestantes viram? É realmente de racismo que se trata a situação? É possível que se fosse um homem branco elas agiriam diferente? E quanto a ser mendigo, mesmo que notassem de imediato que se tratava de um mendigo, ou de um deficiente? (é justo julgá-las sabendo nós que provavelmente nem se deram conta dessas características, ali, no calor do momento?), Mendigos não estupram? Não espancam? Não são machistas? Novamente, é triste perceber como o feminismo não está em primeiro plano, nem dentro do feminismo. Como sempre a luta das mulheres é diminuída, é silenciada. As mulheres voltam pra casa, sendo culpadas pela agressão que sofreram.

    • Ana

      Mari, você não tem o direito de pedir para mulheres negras colocarem o feminismo em primeiro lugar, quando elas são discriminadas e excluídas por esse mesmo feminismo todos os dias.

    • catarina

      Mari, eu entendo os pontos levantados no texto, mas concordo muito com o seu comentário.

      O fato dele ter provavelmente algum distúrbio mental (dá pra perceber pelo vídeo) e ser morador de rua me fariam pensar muito antes de reagir da forma como as mulheres reagiram na marcha. Mas isso não dava pra perceber ali na hora!

      Já o fato dele ser negro e deficiente… não entendo como isso poderia servir de desculpa para um homem agredir ou tentar agredir impunemente, mesmo que simbolicamente, mulheres onde quer que seja.

      #prontofalei

  • Republicou isso em SUSCETÍVEL FEBRIL.

  • Bom demais Ana Flávia. Fico orgulhosa como “Mãe de Preto” por você, tão jovem, tão filha de preto, entender e expressar que nós mulheres negras lutamos pela integridade dos homens negros porque, ante o racismo que pauta nossas relações sociais, em se mexendo com eles, mexe conosco.