Nós não podemos reproduzir mecanicamente as propostas de um movimento feminista judaico-cristão.

Lélia Gonzalez

Hoje é dia de lembrar Lélia Gonzalez, intelectual, feminista, negra, antropóloga, política, professora, militante que morreu no dia 10 de julho de 1994. Para nos lembrarmos de sua luta e do seu exemplo, como uma das feministas negras mais importantes de seu século, reproduzimos um trecho de uma entrevista concedida ao Jornal do Movimento Negro em 1991. Assertiva, tece críticas ao movimento de mulheres brancas e discorre sobre o relacionamento entre homens e mulheres negras.

Lélia Gonçalvez por Juliano Serra.

Lélia Gonçalvez por Juliano Serra.

No meio do movimento das mulheres brancas, eu sou a criadora de caso, porque elas não conseguiram me cooptar. No interior do movimento havia um discurso estabelecido com relação às mulheres negras, um estereótipo. As mulheres negras são agressivas, são criadoras de caso, não dá pra gente dialogar com elas, etc. Eu me enquadrei legal nessa perspectiva ai. Porque para elas as mulher negras tinha que ser, antes de tudo, uma feminista de quatro costados. Preocupada com as questões que elas estavam colocando.  Agora na própria fala, na postura, nos gestual, você verificava que a questão racial era…

Isso a gente já discutiu muito e a experiência mais positiva que eu tive foi no encontro na Bolívia promovido pelo MUDAR (Mulheres por um desenvolvimento alternativo) uma entidade internacional que foi criada um pouco antes do encerramento da década a mulher em 1985. Foi ali que pela primeira vez, que eu encontrei um tipo de eco, uma maturidade por parte do movimento, no sentido de parar e refletir sobre as questões que a gente coloca enquanto mulher negras, a dimensão racial que está presente em tudo e você não pode fingir que ela não existe.

Mas não há dúvida que existe um setor no movimento de mulheres que está preocupado com a questão racial. O feminismo, como uma feminista inglesa colocava, não terá cumprido sua proposta de mudança dos valores antigos, se ele não levar em conta a questão racial. Mas o que eu percebo é que o nosso cultural nos dá elemento muito fortes no sentido de nossa organização enquanto mulheres negras. Uma estória que rolou e gera uma grande luta interna com o homem negro, uma questão muito séria dentro do movimento negro, um ressentimento muito grande das mulheres negras diz respeito à sexualidade, porque muitos homens negros preferem as mulheres brancas.

Isso é verdade, não dá pra você ficar escondendo o sol com a peneira. Eles internalizam o valor branco como supremo, como todos nós. Só que a gente está tentando sair dessa. Até algumas lideranças do movimento negro só transam com mulheres brancas. E isso é uma forma de reprodução dos esquema racista, sem sombra de dúvidas. Dentro da proposta de feminismo que a gente está tentando colocar me parece fundamental não perder de vista a relação homem negro mulher negra. Não é só a gente se olha enquanto mulher negra, mas nos vermos na relação com o homem negro e ele com a gente. Porque tem que ser uma coisa dinâmica sobretudo porque fazemos parte de uma comunidade que é discriminada pela dimensão racial.

E me parece que as respostas de parte a parte, até o momento, não são satisfatórias. De um lado nós temos uma postura muito machista de parte do homem negro, e eu vejo que a sua procura da mulher branca passa por ai. Pela nossa experiência histórica juntas (homem negro/mulher negra) a gente se conhece muito bem, há toda uma cumplicidade no que diz respeito ao enfrentamento de uma série de questões. Mas no caso da mulher branca, ela não vivencia essa a experiência da discriminação racial. Então acontece que, muitas vezes, os homens negros vão exercer seu machismo junto às mulheres brancas. De certa forma o homem negro atualiza sua rivalidade com o homem branco na disputa da mulher branca.

Ele não tem, portanto, uma afirmação muito grande como macho e se acha então o rei da cocada branca. E a mulher negra fica jogada pra escanteio. O ressentimento surge ai.  Acontece que os dois são muito carentes, há uma carência de parte a parte. Na medida em que, no interior do movimento, nós mulheres constatamos isso, a coisa assume uma dimensão tão forte que muitas vezes, nos leva a assumir as mesmas posturas do movimento feminista branco. Nós não podemos reproduzir mecanicamente as propostas de um movimento feminista judaico-cristão, etc.

Leia na íntegra a entrevista Lélia Gonzalez ao Jornal do MNU em 1991.


Lélia Gonzalez é um dos heróis em Da cor da cultura. Dedicou sua carreira acadêmica ao estudo das relações raciais no país, sendo a responsável pela introdução do debate sobre o racismo nas universidades brasileiras. Foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), participou da criação do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN-RJ), do Nzinga Coletivo de Mulheres Negras-RJ e do Olodum-BA”.


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