Por Lucimar Rosa Dias para as Blogueiras Negras

É domingo, quase 18h e Abayomi vai buscar seu filho que passou parte da tarde na casa de um amigo. Classe média alta da cidade onde moram. Cidade pequena. Pequena burguesia. Talvez esta referência não tenha absolutamente nada com a história que ela me contou ter vivido logo que pegou o pequeno no fim do dia. Mas, lhe veio à cabeça o detalhe.  Nafisa é atento e está imerso em muitos grupos, alguns pouco afeitos a discussão sobre as igualdades sociais e raciais então…

Ela? Passou todo o dia trabalhando em análises de materiais que tratam da diversidade étnico-racial que serão destinados às escolas brasileiras. Trabalho remunerado, mas claro nada grandioso, se contar o tempo que leva e o quanto receberá um dia quem sabe. Desistiria e assistiria The Big Theory série que ela adora, leria um livro … Aliás o Germinal de  Émile  Zola está a sua espera há duas semanas. Ela curiosa para saber para onde irá Etienne, o mineiro, mas os afazeres domésticos, maternais e profissionais prorrogando a leitura…

Os acontecimentos, porém, lhe indicam que as horas do seu fim de semana destinadas ao trabalho com os livros não são em vão e podem contribuir com a tão sonhada mudança de valores. Isso tudo pensou depois da conversa que teve com seu filho. Como eles deram início ao assunto ela tem apenas uma vaga ideia. O certo desta história é que entre esses dois há cumplicidade construída na lida do viver se desnudando entre medos e certezas. Vamos aos fatos.

Depois de pegá-lo, Abayomi  fez as clássicas perguntas de mãe:

– E ai, gostou da tarde?

– Sim. Ele responde. Gostei bastante e brinquei muito.

– Ah é? E de que vocês brincaram? Vieram os outros colegas com quem vocês combinaram?

– Brincamos de esconde-esconde. Só veio o João. O Ricardo não veio.

– Ricardo também é da sua sala?

– Sim aquele que tinha ido embora e voltou? Eu já contei isso pra você.

– Ah, sei agora me lembro da história.

– Você nunca se lembra do nome dele.

– Pois é, mas tem alguns que eu sei bem quem são: a Paula, o João, a Luara.

– Ah, não sei por que você se lembra da Luara eu só falei dela uma vez.

– É porque ela é a única menina negra da sua sala, então eu presto atenção nela. Vejo que alisa o cabelo. Reparo se está sozinha, como se comporta.

Este preâmbulo é tudo que Abayomi lembra antes que o assunto sobre cotas ocupasse o centro da conversa

– Os negros levam vantagens para entrar nas universidades. Diz ele.

Ela replica:

– Não filho. É uma política para corrigir desigualdades.

– Bom, mas se eles têm vagas próprias porque são negros eles estão tendo vantagem e estão criando a diferença entre negros e brancos.

– As cotas não criam a diferença entre negros e brancos. Ela corrige as desigualdades que existem.

– Então, se elas são para negros, elas estão aumentando a diferença dizendo que tem negros que não conseguem entrar e precisam de cotas. Fazendo prova pra negro, outra pra índio, separando as pessoas pela cor da pele!

– Não é que eles não conseguem é que há desigualdade e por isso, é preciso criar políticas pra mudar isso. A separação das pessoas pela cor da pele existe faz tempo, não é uma invenção das cotas.

– Eu não concordo. Acho que deveria ter políticas para pobres. Quer dizer que os negros ricos vão ser tratados do mesmo jeito que os negros pobres? Para mim tem de mudar o salário. Existe cota pra salários?

Nessa altura do campeonato, a cabeça de Abayomi dava mil voltas. Os argumentos daqueles que defendem seu status quo contrário as políticas afirmativas que dizem estar racializando o Brasil na boca do seu filho!! Como isso podia estar acontecendo. Ele que desde pequeninho tem referências positivas sobre a negritude e à medida que cresce ela e o pai instigam-lhe a ter compromisso com a construção de uma sociedade igualitária, não sexista e antirracista. Era demais. Tentou segurar o turbilhão de pensamentos e continuar a conversa.

– Mais ou menos, existem cotas no mercado de trabalho para pessoas com deficiência e em alguns estados nos órgãos públicos também tem vagas para negros.

– Tá errado. Negros ricos não precisam disso.

Abayomi respirou fundo, tentando se munir de paciência. Há sete anos quando ele tinha 4, havia lhe pedido que ficasse branca e ela respondeu de modo destemperado e isso causou aos dois feridas que custou para curar. Procurou argumentar com tranquilidade.

– Filho, eu também concordo que as políticas devem favorecer a população negra pobre, mas a discriminação também causa dor. Algumas pessoas não sabem como superá-la. Por isso, não basta apenas corrigir a desigualdade social é preciso lutar contra o racismo.

Ele responde:

– Causa dor? Que dor?!!

– É filho, a discriminação dói. Muitas pessoas sofrem.

– E o que a dor tem a haver com vagas na universidade?

– Tem gente estudando justamente isso e já sabemos que a dor da discriminação leva as pessoas a terem mais dificuldades na escola, a deixarem de acreditar no seu potencial entre outras coisas e isso tem tudo a ver com entrar na universidade. Pense no meu caso eu sou professora e temos uma condição social boa e mesmo assim às vezes sou tratada com discriminação, porque sou negra.  Eu mesma já sofri.

Ele respondeu:

– Ah, coitadinha sofreu tanto com o preconceito! Nossa quanta dor você sentiu!

Ela responde já um pouco chateada com o rumo da conversa:

– Espera ai. Eu não aceito piadinhas com isso não.

Ele retruca:

– Não é piadinha estou sendo irônico.

Ela replica:

– Não faça ironias com esse assunto ele é sério demais para mim. É parte da minha vida. Luto para que crianças negras gostem da cor de sua pele e de seus cabelos crespos. Quando você aos quatro anos me disse que queria uma mãe branca eu sofri muito!

Ele estarrecido:

– Eu nunca disse isso.

Ela reitera:

– Disse.

Ele está chocado. Olha atônito para Abayomi e começa a chora copiosamente falando:

– Me desculpa… me desculpa… mortificado pela dor.

Ela o beija carinhosamente. Abraçam-se. Ele se acalma.

Ela coração aos pulos… não é fácil enfrentar o racismo e lembra de Drummond: o amor bate na aorta.

Três Lagoas (MS), fim de tarde do dia 09 de junho, 2013.


Lucimar Rosa Dias é professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/ Consultora do CEERT / Responsável pelo blog Educação Infantil e Diversidade.


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