Por Jarid Arraes para as Blogueiras Negras

Há muito tempo, o feminismo vem combatendo a idéia de que o sexo feminino é o “sexo frágil”. Para muita gente, essa é uma das principais reivindicações que representam o feminismo – tanto para quem está de fora, quanto para muitas das próprias ativistas dentro do movimento. No entanto, a questão é bem mais profunda e há outras nuances que quase sempre são deixadas de lado na luta pela igualdade. Afinal, as mulheres negras nunca foram vistas como fisicamente frágeis. Com tantos abusos aos quais as negras são sujeitas, destruir um estereótipo de fragilidade não é nem de longe uma de suas demandas mais urgentes.

É importante entender que a mulher tida como frágil devido aos valores machistas da sociedade é sempre a mulher branca, especialmente aquela de classe privilegiada, que possui certo poder de consumo e que é pressionada a atingir os padrões de pureza, delicadeza e fragilidade femininas. A mulher negra brasileira nunca se encaixou nesses parâmetros e nem poderia: ela é protagonista de vários séculos de exploração, escravidão sexual e trabalho braçal forçado. Enquanto à mulher branca é imposto o ideal feminino de pureza cristã, a mulher negra é hipersexualizada e vista como promíscua, sendo relegada ao papel de “Pombagira”, que pertuba o sono da “inocente” dona de casa – constituindo uma teia de discriminação e hipersexualização racialmente seletiva.

Na manhã do dia 2 de Dezembro de 2009, cerca de 300 trabalhadores terceirizados da Fiocruz enfrentaram seus patrões e a polícia para conquistar seus direitos.

Na cultura brasileira, é impossível pensar em mulheres negras como pessoas frágeis. São as negras que, em sua maioria, começam a trabalhar desde jovens para ajudar a família e precisam largar os estudos para cuidar da roça ou limpar a casa de pessoas brancas como empregadas domésticas. Em incontáveis casos, senhoras negras de idade contam histórias de trabalho contínuo sem qualquer descanso, criando os filhos dos brancos, cuidando da faxina de residências e centros comerciais, transportando cargas e permanecendo em pé dias inteiros enquanto trabalham, sem receber qualquer direito trabalhista ou pausa para repouso. Diferente da mulher branca, a mulher negra jamais teve de reivindicar o direito de trabalhar fora, uma vez que vem exercendo esse tipo de serviço há vários séculos, mesmo contra a sua vontade.

Enquanto a mulher branca lutava para ingressar no mercado de trabalho e na universidade, buscando o reconhecimento dos seus atributos intelectuais, a mulher negra já trabalhava fora de casa há centenas de anos, sem que nem de longe fosse vista como uma pessoa inteligente. Sob esse aspecto, mulheres negras e brancas têm em comum a batalha pelo reconhecimento de suas faculdades mentais e autonomia para transformar e interagir com o mundo. No entanto, o racismo é o maior responsável por barrar oportunidades para a mulher negra. Para conquistar equiparidade com os homens, é extremamente necessário obter um posicionamento de igualdade entre as próprias mulheres e ser reconhecida como ser pensante com virtudes e individualidade, não somente como braço de trabalho à serviço da população branca.

Para a mulher negra, ser vista como alguém forte não é uma reivindicação, mas sim um valor imposto pela sociedade e uma ferramenta pela sobrevivência. As mulheres negras jamais são vistas como inaptas para trabalhos manuais, mas sim como uma mão de obra fácil e barata para ser explorada e que pode ser facilmente substituída. Elas precisam se embranquecer em busca de trabalhos intelectuais, que exigem “boa aparência” e são reservados para as mulheres brancas – essas, sim, vistas como fisicamente frágeis.

Para algumas pessoas, pode parecer que tudo isso ficou para trás, em uma escravidão perdida no passado distante. No entanto, o racismo é muito perverso e, em pleno ano 2013, a discriminação e os estereótipos raciais permanecem fortes e são responsáveis pela naturalização com que se vê mulheres negras empurrando carrinhos-de-mão repletos de sucata ou lavando as privadas imundas dos banheiros públicos. A falta de sensibilidade quanto a realidade das negras é espantosa, especialmente quando levada em consideração a forma como a sociedade se choca com a possibilidade de uma mulher branca necessitar desse tipo de trabalho.

Os problemas causados pelo patriarcado oprimem todas as mulheres: as brancas por não serem consideradas fortes e as negras por não serem consideradas humanas. É essencial compreender que delimitar as diferenças pelas quais o machismo oprime mulheres não é uma questão de pesar sofrimentos. As negras têm uma história diferente e sofrem problemas específicos, que precisam ser reconhecidos e combatidos devidamente. A feminilidade imposta não é composta por um único padrão para todas as mulheres e aquilo que é esperado de cada uma varia drasticamente de acordo com sua origem e sua cor. É preciso compreender que a misoginia não é homogênea e que, sem destruir o racismo, a mulher negra jamais será libertada do patriarcado.

Por fim, resta a certeza de que a mulher negra jamais será um ser frágil, pois sua força para resistir permanece viva. A força da mulher negra não está relacionada a opressão desumana do trabalho que o racismo impõe, mas ao orgulho de si, de suas raízes, sua coragem e de sua capacidade de gerar laços fortes para destruir a discriminação. A força dos seus braços e ombros não existe para a escravidão, mas sim para que possam se unir e formar as paredes de uma represa feminista.


Jarid Arraes é educadora sexual, feminista e escreve no Mulher Dialética e no Guia Erógeno.


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  • Natália Muniz

    puxa vida, tinha feito um comentário IMENSO no blog antigo nesse post, e tava aguardando ele ser moderado/respondido. :~ agora ele sumiu.

    • blognegras

      Olá Natália, todos os comentários foram importados automaticamente. Fiz uma busca e acredito que achei os seus. É que eles ainda não haviam sido moderados. Abraço e obrigada pela audiência.

  • Nat

    Quando falo esses movimentos falo do feminismo negro e do transfeminismo, por exemplo. Só para esclarecer.

    Quanto a questão da minha negritude ou não ainda é um enigma para mim, que fui sempre chamada de branca. Mas por exemplo, minha mãe, que é uma negra de pele mais clara (cor de café com leite) foi sempre chamada de mulata. E eu, criança fui ensinada a dizer que minha mãe era uma mulata e meu pai branco. Hoje sei que minha mãe é negra, a vivência dela é de uma mulher negra e ela (hoje eu sei!) se identifica desse modo! Mais recentemente tenho reparado que ela nunca diz : ‘eu, mulata’, isso era o que falavam DELA, e sim ‘eu, uma mulher negra.’

  • Nat

    Texto MUITO BOM! Eu, filha de mãe negra e pai branco nasci com cabelos crespos e cor clara. Nasci também com o nariz adunco idêntico ao do meu pai, o que faz com que eu nunca tenha me identificado ou sido identificada como negra. Embora tenha sofrido preconceitos que toda pessoa de cabelos crespos (principalmente MULHERES) conhece, na minha cabeça eu era branca e aquilo não era racismo, era uma ‘implicação qualquer’. Enfim. Hoje tenho 23 anos e sou feminista com muito orgulho. Feminista e engajada em questões relacionadas aos direitos humanos em geral, na ‘luta’ contra o machismo, mas também o racismo, o classismo, a homofobia. Porém sem ser negra, pobre ou LGBT. Obviamente que eu continuo nessa luta e não preciso ser de uma minoria política para defender seus direitos, que são, essencialmente, direitos humanos… Mas embora minimamente consciente da singularidade de cada uma dessas questões, eu era ‘contra’ a sectarização dentro dos movimentos. Oras, eu pensava, por alto, que fazia mais sentido o feminismo abarcar cada vez mais todas as diferenças, do que a criação de sub-grupos de feministas negras, transfeministas, etc. Pensava: ah, isso irá segregar, o ideal é agregar. Mas tenho refletido muito sobre isso ultimamente, e este blog teve papel importante nisso. Pois os movimentos feministas (sim, pois vejo cada vez mais como o feminismo é PLURAL) em geral ainda são essencialmente voltados para as mulheres brancas e cis (e hétero!). Isso me fez refletir MUITO, e esse texto foi o arremate final para que eu me desse conta que sim, esses movimentos particulares são ESSENCIAIS atualmente para dar conta da singularidade dessas lutas múltiplas. Deixo aqui a minha admiração. Beijos, Nat

  • letthyssia

    Por isso percebemos a necessidade de – cada vez mais – enegrecer o feminismo!

    Brilhante texto!

  • Republicou isso em BLOG DO @rodrigoluiz23e comentado:
    eu poderia dar reblog em quase tudo que esse blog escreve, não seria à toa. faz você abrir os olhos.

  • Bia Rosa

    Ótimo post em pleno século XXI ainda sofremos disso,as pessoas falam que o Brasil é um país miscigenado e sem preconceito racial mas só os negros sabem o que ainda existe e é mt grande.

  • Que maravilha de texto! Tudo que eu venho tentando explicar no coletivo e as meninas parecem não compreender totalmente!
    Obrigada por compartilhar com a gente!!

  • Kátia Regina Gomes da Silva

    Execelente!!!!

    Espero que tantas outras mulheres negras lutem a vida inteira,não por direitos matérias,mais por respeito e dignidade social como pessoa e mulher na sociedade.

    Kátia Regina

  • Milena Martins

    Um texto contundente, direto e leal a realidade da sociedade brasileira! Parabéns por pelo deleite que foi a leitura de seu texto, vi a mim, minha mãe, tias, avó, todas em seu texto, que levou-me ao choro. Obrigada!

  • penha regina

    ”Os problemas causados pelo patriarcado oprimem todas as mulheres: as brancas por não serem consideradas fortes e as negras por não serem consideradas humanas”.Texto maravilhoso,e chocante.Chocante por saber que é verdadeiro,temos que nos deparar com essa realidade todos os dias de nossas vidas,sabendo que cada dia será uma luta diferente.Mulher negra,nosso nome é luta,nosso sobrenome é superação!!

  • Incrível! Muito esclarecedor! Parabéns!

  • Gesiane

    Texto mais que perfeito álias você é simplesmente maravilhosa..

  • larissantiago

    Jarid, mulher, quanto mais te leio, te admiro!

    É dessa força que fala Luiza Bairros, da qual estamos prontas pra enfrentar a discriminação. É essa força que está com Célice Kyenge, na resistência de sua luta diária.

    Obrigada por construir essa história com a gente :*

    • Jarid Arraes

      A admiração é profundamente recíproca, Larissa! Muito obrigada. Estamos juntas sempre.

  • Luzi da Mata

    Gostei demais do texto e me encaixo perfeitamente.

  • Ludmila Queiroz

    Excelente texto! Essa força da mulher negra é tao presente no senso comum que ainda existem casos do maior tempo de espera das mulheres negras na hora do parto pq somos mais resistentes. Isso sem falar no atendimento medico em caso de uma gestante negra apresentar um sangramento. Alguma dúvida que se esse atendimento chegar, ele demora muito mais?