Tradução de Iara Paiva para as Blogueiras Negras
Racism within white feminist spaces foi originalmente publicado no Black Feminists Manchester

Quando falamos de “espaços feministas brancos” o que queremos dizer é o feminismo tradicional padrão do Reino Unido, (Europa e EUA). Um feminismo que se considera superior ao movimento de mulheres ao redor do mundo, utilizando-se de seu privilégio branco para selecionar discriminatoriamente quais mulheres (negras e de outras etnias) e opressões são dignas de atenção ou de auxílio, vistas através de uma lente branca autoritária míope.

O Feminismo Branco deve evoluir e integrar-se às sociedades multiculturais, se estiver genuinamente preocupado com a libertação de todas as mulheres. Com exceção de algumas pessoas atentas individualmente, muitas feministas brancas, que encontrei no Reino Unido, veem a misoginia como a única forma de opressão que exige erradicação para que as mulheres sejam livres. Eu gostaria que isso fosse verdade.

O que muitas feministas brancas ainda se esquecem ou não se dão conta é que, as mulheres negras e de outras etnias, que compõem a maioria global da população das mulheres, enfrentam e desafiam múltiplas opressões ou seja, o racismo, classismo e sexismo, via estruturas organizadas que apoiam o capitalismo como o colonialismo, neo-liberalismo e o patriarcado, entre outros.

O que me perturba mais do que estes sistemas de corrupção destruindo a vida das mulheres em todo o mundo são a feministas brancas que declaram estar lutando e derrubando o patriarcado, quando na verdade estão capitulando com o patriarcado, optando por ignorar, silenciar e até mesmo negar o racismo.

Sim, isso mesmo – há feministas brancas lá fora que acreditam racismo não existe mais! Racismo contra as pessoas negras não está sequer perto da extinção. Negar ou silenciar que haja racismo é racista.

Em 2012 duas feministas brancas me perguntaram o que as mulheres feministas negras “querem façamos para que espaços feministas sejam mais inclusivos para as mulheres negras?” Isso me levou a rever minhas observações e experiências com feministas brancas em espaços feministas em 2012.

Uma feministas brancas negar a experiência de uma mulher negra com o racismo, afirmando a sua experiência de opressão “foi provavelmente baseada pelo sexismo e não pelo racismo ” e ” como ela realmente sabe a diferença.?” é racista.

Uma feministas brancas para revirar os olhos e mostrar a linguagem corporal defensiva, quando uma mulher negra menciona o racismo como parte do discurso feminista, é racista.

Convidar as mulheres negras para eventos feministas para ensinar um público majoritariamente composto por feministas brancas sobre as lutas das mulheres globalmente e não convidá-las para discutir os cortes de empregos, abortos, imagem corporal, estupro, sexualidade etc, é racista.

Incluir as mulheres negras como entretenimento ou serviço de buffet em eventos feministas, ao mesmo tempo em que não se inclui mulheres negras em papéis visíveis como palestrantes ou em painéis de discussão é racista.

Rotular uma mulher negra como “agressiva” e “irritada” quando ela desafia o ponto de vista de uma mulher branca de forma não agressiva é racista.

Desatar a chorar e/ou fugir quando uma mulher negra contesta sua atitude e comportamento racistas é racista.

Unir-se a outras feministas brancas e praticar bullying contra uma mulher negra porque ela desafiou o racismo de seus irmãs feministas é racista.

Ignorar o ponto de vista de uma mulher negra, e celebrar coletivamente o mesmo ponto de vista reproduzido por uma feminista branca momentos depois, é racista.

Feministas brancas minimizando o ativismo de mulheres negras ou tornando-se de repente inertes quando chamadas a apoiar campanhas e movimentos predominantemente voltados para as mulheres negras é racista.

Feministas brancas dizendo: “nós já temos que lidar com um montes de problemas da nossa conta neste país, como o direito ao aborto, para lidar também com isso” quando chamadas para apoiar as campanhas das mulheres negras e de outras etnias, é racista.

Feministas brancas negando o racismo, sugerindo “observações racistas ditas como comentários irreverentes não são realmente racista”… é racista.

Exigir entrar nos únicos espaços seguros de mulheres negras porque você “quer assistir”, apenas para resmungar e tentar justificar os seus direitos de entrar no único espaço de uma mulher negra, declarando “de que outra forma vamos entender se vocês não nos deixam assistir!”, quando o objetivo do espaço das mulheres negras é explicado para você, é racista.

Dizer às mulheres negras e de outras etnias que elas estão apenas se alterizando¹ ao se auto organizarem como grupos de mulheres negras, é racista.

Utilizar-se de discursos de privilégio branco para justificar demonstrações não-intencionais de racismo é transparentemente racista.

Simplesmente lançar por aí termos como “interseccionalidade”, “privilégio branco”, e títulos de livros escritos por feministas negras e de outras etnias não erradica o racismo nem prova que seu feminismo será interseccional.

Uma racista não pode ser uma verdadeira feminista. Racistas que se dizem feministas são nada mais do que servas do Patriarcado.

Abordar todas as opressões enfrentadas pelas mulheres negras apenas dentro de um quadro de “lutas das mulheres pelo mundo”, é segregar as mulheres negras e de outras etnias.

Em primeiro lugar, parece ter escapado à atenção de algumas feministas brancas que todas as mulheres vivem “no mundo”, incluindo feministas brancas. Segundo, tal enquadramento é sintomático da mentalidade colonial. Enquadrar as mulheres de outras etnias como uma entidade fora da brancura cria fronteiras invisíveis entre nós. Isso objetifica mulheres negras e de outras etnias. “Lutas das mulheres pelo mundo” tendem a se concentrar na África, Ásia, América Latina e Oriente Médio e geralmente são vistas através de uma lente branca. O foco então muda para uma perspectiva feminista padrão, dominante, branca das questões das mulheres no Reino Unido, omitindo e destituindo as experiências de mulheres não-brancas no Reino Unido, Europa e EUA.

Embora a tentativa de inclusão e diversidade seja reconhecida, devemos lembrar, a prática de assinalar caixas “diversidade” apenas perpetua mentalidades segregadoras, é um método neoliberal concebido para reforçar o racismo e outros ismos.

Misoginia não existe em um vácuo, ela faz parte e é influenciada por opressões relacionadas. Questionar a misoginia enquanto se ignora ou apoia o racismo e outras opressões de igual importância é ridículo.

A solução é entender o propósito dos espaços das mulheres negras e as representações realistas de mulheres racializadas nos espaços feministas.

A criação de espaços e campanhas feministas tradicionais organizados e liderados conjuntamente por mulheres de mulheres negras e brancas e de outras etnias, ao mesmo tempo em que se apoia campanhas feministas de todas as raças é essencial.

O racismo entre feministas brancas foi abundante durante décadas. Prevalece entre todas as classes. Este texto não é o primeiro a abordar feministas brancas racistas e até que essas mulheres ouçam ativamente as mulheres negras e se decidam por apoiar o movimento das mulheres, ao invés de deturpá-lo, este não será o último. Audre Lorde declarou: “O que acontece quando as ferramentas de um patriarcado racista são usadas para analisar os frutos desse mesmo patriarcado? Resulta que apenas os perímetros mais estreitos de mudança são possíveis e permitidos”.

As mulheres negras nunca vão aceitar o racismo, especialmente vindo de feministas brancas.

Nunca haverá libertação das mulheres brancas sem a libertação das mulheres negras; ouvir ativamente as mulheres feministas negras é uma obrigação para feministas brancas. Isso cria uma sororidade que funciona de forma mais eficaz para a mudança radical coletiva/ colaborativa.

As mulheres de cor, que entendem múltiplas opressões em primeira mão, são organizadas e desafiador cabeça sistemas opressivos em diante, todos os dias. A única opção “feminista” para as nossas irmãs brancas é ficar lado a lado com as irmãs feministas negras em solidariedade e ativismo, não desprezo.

¹ No original em inglês “othering”, que significa marcar-se como diferente.