Por Jéssica Ipólito para as Blogueiras Negras

A primeira vez que me deparei com uma fotografia clicada por Zanele Muholi, fiquei embasbacada. Eu me vi naquelas imagens como nunca antes tinha me visto em nenhum canto midiático. Eu, mulher, negra, gorda, lésbica.

Ela captou o íntimo dessas mulheres e colocou para o Mundo admirar.

Por ter me sentido tão bem diante das fotografias dela, quero compartilhar com o maior número de pessoas o trabalho desta mulher incrível, que expõe nossas belezas de uma forma inenarrável.

Mas antes de falar dela, vejamos:

A África -continente-  ficou distante da história da fotografia até a década de 90 do século XX, e só a partir dai começou a fazer parte do espaço internacional -ou, mais precisamente, no Ocidente- fotográfico. É justamente neste período que nasce a Bienal de Fotografia Bamako no Mali, que foi chamada de Encontros Africanos de Fotografia.

Esse evento se tornou um ponto de referência para fotografas (os) e segue até hoje sendo uma plataforma de fomento para as artes fotográficas. Não só servindo de base para os fotógrafas (os) do continente como os da diáspora; contribuindo para disseminar a paisagem visual num  âmbito internacional.

Zanele Muholi aparece neste contexto da Bienal em dois pontos bem contundentes: colocando a fotografia africana numa conjuntura global, tornando-a parte do todo e não parte do resto; e dando visibilidade à fotografia feita por mulheres africanas. Assim sendo, há uma dupla destruição de barreiras da invisibilidade, olhando as construções narrativas dessas mulheres  e  ampliando nossas próprias perspectivas de vê-las.

A fotografia nos oferece uma nova gramática do olhar  com uma urgência para enriquecer o nosso vocabulário fotográfico presente, assim, incorporamos a obra produzida pelas fotógrafas africanas. Se podemos afirmar que a partir da década de 90 muitos países começaram a descoroar as suas visões narcisistas do mundo e a incluir novos fragmentos da história composta por luz e cor, podemos também afirmar que são pouquíssimos os que tentaram e persistiram em abrir as portas da fotografia, agrupando os olhares com peculiares visões do mundo. E falo de olhares e não de “outros” olhares para que se fixe a fotografia africana no mapa da fotografia mundial sem cair nos limbos comuns da fotografia nem nos estereótipos vigentes.

A realidade é que as mulheres africanas estão reescrevendo suas histórias, contando com suas próprias palavras e imagens. A obra de Zanele é um trabalho de ativismo visual -como ela mesma classifica-. Todo seu empenho em registrar profundamente com um caráter político as imagens, consiste em dar visibilidade devida à comunidade negra de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros.

Ela consegue demonstrar a emoção que está ligada a estas minorias da qual é pertencente e lutadora por autonomia e reconhecimento; ela consegue rever sua própria construção identitária, através de suas imagens, e rompe com  estereótipos e ideias fixas que resistem, não só no nosso imaginário ocidental, bem como no continente africando em geral. As fotografias de Muholi pautam em primeiro plano as mulheres negras, lésbicas, sul-africanas (ou de outros países), mulheres de todo o leque social, nos indicando que a comunidade retratada é multifacetada.

Esta é a uma das maiores batalhas da fotógrafa: colocar em primeiro lugar uma série de mulheres que participam da vida política, econômica e social de seus respectivos países; que vivem, existem, mas nem por isso fazem parte da história oficial. Desafiar a hegemonia existente rescrevendo uma história através do visual que está impregnada por uma ótica etnocêntrica e patriarcal, que continua -através de um pensante heteromasculino– catalogando as lésbicas negras como as “outras”. Este é o desafio de Zanele. Eternizá-las em seres pensantes e existentes para o Mundo. É um grito para todas nós, que por vezes, somos silenciadas antes mesmo de sabermos pronunciar se quer uma palavra.

Zanele e sua luta junto à comunidade LGBTT na atual realidade sul-africana é pós-apartheid, o que nos remete a uma sociedade em transformação de uma geração de jovens que luta por subverter a ordem determinada e clama por novas formas de representação que, verdadeiramente, os contemple.

Ela nasceu no sul da África em Umlazi, Durban, em 1972 e vive em Johannesburg. Ela sempre lutou para viver como lésbica num país que passou da luta violenta anti-apartheid ao restabelecimento de relações democráticas com seu opressor.  Desde jovem, ela participa em movimentos de direitos humanos, se estabelecendo como uma ativista fotográfica.

Frequentou o curso no Market Photo Workshop, uma escola fundada por David Goldblatt (também fotógrafo sul-africano)no fim da década de 1980 como enfrentamento ao apartheid e que se dedica a formação de jovens fotógrafos excluídos da chance de ter uma formação tradicional acessível.

Foi neste curso que a impulsionou a desenvolver seu ativismo visual e a fazer da fotografia um estímulo, um ato de militância e subversão como alerta para a tripla exclusão à qual as lésbicas estão expostas: são forçadas a lutar contra o racismo, o sexismo e o patriarcado -para sobreviver e poderem se desenvolver como seres políticos e ativos.

Muholi desempenha um papel fundamental de denúncia, ao retratar as mulheres negras lésbicas que sofreram  estupro corretivo, que é perpetrado contra as mulheres pelo simples fato de serem lésbicas, com o intuito de “reconduzi-las” à heterossexualidade através deste crime de violação. Mas ela, sobretudo, não as retrata no papel de vítimas, pelo contrário, mostra cada uma delas como sujeitos plenos de sua própria existência, sujeitos de direitos. Ela constrói um trabalho grandioso baseado na capacidade de não objetificar cada mulher retratada, e assim, documentando de forma subjetiva cada uma, nos deixando explanar um acervo incrível com inúmeras perspectivas sobre a vida destas mulheres.
Elas são retratadas como indivíduos centrais desta gradual reconstrução da imagem visual da África e da África do Sul; desconstruindo o mito de que a lesbianidade foi algo importado, e que não faz parte da realidade africana.

Ainda, em toda a África, persiste uma errônea ideia de que a homossexualidade é uma praga trazida pelo homem branco, e em muitos países, quem foge à regra -heterossexual- é perseguida ferozmente. Mesmo a Constituição Sul-Africana de 1996 ser conhecida como uma das mais “progressivas” do continente africano por proteger direitos sexuais, a heterossexualidade compulsória continua sendo privilegiada frente as demais orientações. Ao mesmo tempo, o Ocidente, obcecado com a imagem “África autêntica”, não concebe a ideia de duas negras apaixonadas (conheço um país que muito age igualzinho, viu…), porque é algo que não cabe no imaginário que se tem da África.

O trabalho documental que Zanele desempenha ao compilar as histórias destas mulheres, reescrevendo suas próprias experiências, não se forma apenas das suas lutas empenhadas, sua coragem cotidiana de sobrevivência, seus sofrimentos, suas perdas, suas mutilações externas e internas -extremas ou brandas-, mas é também, fundamentalmente, do amor presente em cada uma dessas mulheres.
A sua obra extravasa sensibilidade, sentimento, intimidade. Porque nos permite vislumbrar sua vida -as suas vidas-, compartilhando os momentos de felicidade e de cumplicidade, enaltecendo as relações destas mulheres, e principalmente, ampliando os fragmentos de uma história que se escreve diariamente aos olhos de qualquer um.

Fique à vontade agora, olhe. Olhe de novo estas mulheres retratadas. Somos nós.  Mulheres mães, filhas, primas, avós. Lésbicas existentes e persistentes. Africanas, negras. Nossas companheiras de luta. Estas que, assim como nós brasileiras, foram e continuam sendo marginalizadas pela sociedade racista, mas que encontramos forças em suas -e nossas- histórias e conseguimos trazer à tona o que tanto querem submergir: A NOSSA RESISTÊNCIA NEGRA, AFRO, MULHERIL, VORAZ.

BÔNUS: Em 2010, Zanele junto com Peter Goldsmid (diretor) fizeram um longa metragem documental chamado “Difficult Love”  que retrata a vida de negras lésbicas sul-africanas nos dias atuais. Acesse.

Referências

 

Sobre a África do Sul