Por Tatiana Nascimento dos Santos para as Blogueiras Negras

“esse silêncio súbito precisa de palavras ao invés de sussurros”, escreveu dionne brand.

começo com essa tradução minha de uns versos do poema IV, da escritora, cineasta, professora dionne brand, lésbica negra, pra tentar escrever alguma coisa significativa sobre 29 de agosto, chamado por algumas de dia da visibilidade lésbica.

quando aceitei escrever um texto pra blogagem coletiva do blogueiras negras sobre lésbicas negras no 29 de agosto, dia da visibilidade lésbica, lembrei que tinha “fechado” em 2012 a cotidiana, coluna que mantive no site paradalesbica.com.br.

cotidiana começou em janeiro de 2009, quando vi uma chamada no site por novas colunistas y dei uma olhada no portal. vi que muitas das colunistas eram brancas, achei importante me visibilizar, ser uma feminista lésbica negra ali, escrevendo.

acho que muitas vezes que usei a palavra foi pra isso, comunicar alguma coisa, compartilhar, visibilizar. às vezes pra presentear, outras pra desafogar; mas muitas vezes, muitas mesmo, pra compartilhar algo, como era o caso da cotidiana, y agora.

fiquei pensando muito nesses dias desde que fui convidada pra escrever, o que eu iria escrever? o que eu teria de importante pra dizer sobre 29 de agosto, sobre ser lésbica negra, sobre visibilidade? foi aí que uma outra tradução chegou.

eu tinha que entregar, no fim do mês, a tradução de um texto da gloria anzaldúa pra uma antologia de teoria feminista que vai ser lançada em breve. no texto, to(o) queer the writer – loca, escritora y chicana, um questionamento me pegou:

Você é uma escritora sapatão porque você é uma sapatão, ou você é uma escritora lésbica porque os interesses sobre os quais escreve são interesses lesbianos? Em outras palavras: Existe algo como uma linguagem lésbica, estilo sapatão, terminologia lésbica, estética sapatão, ou tudo depende da pessoa que está escrevendo, a despeito de ela ser uma sapatão, ou uma mulher hétero, ou um homem? […] Pode-se chamar uma literatura de lésbica quando ela não é sobre lesbianismo/sexualidade mas é feita por uma lésbica?

o motivo por eu ter demorado pra escrever esse texto foi o motivo que me fez ser chamada pra escrever esse texto. fui convidada, com muitas outras, pra falar sobre uma perspectiva negra de lesbiandade, falar de novo “estamos aqui”!

eu estou aqui. y o que andei fazendo? nesse mês que muita gente chama de mês do cachorro louco, encontrei um monte de filhotes de cã vivendo num parque “humano” que quer (um pedaço de) verde, natureza, mas não quer filhotes de cãs.

a não ser que sejam “de raça”, que venham em guias, que estejam com tutoras/es humanos, que caguem mijem “no lugar certo”, latam “na hora certa”, não assustem as pessoas, entendam aquele território como empréstimo.

enquanto íamos lá alimentar as/os filhotes (eu, algumas pessoas da família, desconhecidas que se tornaram amigas y até pessoas que trabalham por lá), ouvia ameaças de morte, de envenenamento, vi espancamentos, sequestros…

sequestros de filhotes bem pequenxs “pelo bem dos filhotes, principalmente esses de olhos claros, tão lindos!”, com a mãe ficando louca, irada, triste, desesperada, y por isso fazendo tudo na hora y no lugar “não certo”, quer dizer, horário-cão.

(eu sei que nessas condições de urbanidade foi mesmo pelo bem da ninhada. mas pra proteger de nós. de nossos carros. de nosso medo. de nosso egoísmo em dizer quem pode, quem não pode procriar, quanto deve-se fazê-lo).

nesses dias apareceu ainda uma outra cachorrinha, filhotona, na porta do prédio da minha mãe. me aproximei pra ver quem era – nunca tinha visto ela por ali – e ela deitou no chão, pedindo carinho na barriga. me deu frio na barriga!

porque cães dóceis assim são alvo mais fácil de maus tratos, de gente humana que se aproveita do voto de confiança pra machucar. como ela não é tão filhotinha & não tem olhos verdes, não foi adotada, não recebeu propostas de lar temporário.

mas uma tia minha que vive lá com outra duas cachorrinhas adotadas assim, da rua, ouviu da cã y veio buscar. primeiro ela se ofereceu como lar temporário, mas uns dias depois ligou pra dizer que “tá tudo certo”, que tão todas bem – adotou.

tem quem diga que esterilização é a melhor saída pra isso. mesmo achando uma grave violação de direitos sexuais y dos reprodutivos das cãs (maiores alvos das políticas de castração, pois o sexismo é altamente interespécie), acho uma saída.

mas não acho a melhor, nem é a única. outro problema além da “super população” de bichos de rua é a exploração assassina de úteros de fêmeas; a eugenia das “raças puras”; o comércio de pessoas não-humanas, com ruptura brusca de seus laços de parentesco.

menciono alguns aspectos do especismo só com relação a bichos tidos como “domésticos” (como essa palavra soa colonial, não?): cãs/cães, gatxs. mas quantas páginas escreveria sobre outras fêmeas estupradas, sugadas, roubadas?

o verso de dionne brand se referia a lesbiandade. o poema IV é da coletânea “hard against the soul”, que reúne 10 poemas lesbianos. les-bi-an-da-de… lés-bi-ca… essas palavras metidas numa armadilha de silêncio y invisibilidade.

do feminismo em que me criei, aprendi que a expressão livre da orientação sexual é um direito humano, um direito sexual que é um direito humano. aprendi a usar minha palavra, pra falar de mim, do que quero fazer, de como quero ser respeitada.

da escuridão de onde vim, pessoas eram marcadas a ferro por serem ditas não-humanas. sequestradas, escravizadas, estupradas, assassinadas. parentesco y ancestralidade roubadas. eu que não sei o nome da mãe da minha bisavó, sei disso por dentro.

quem esfregava buceta com buceta antes, bem antes de mim, era marcada, chamada não-humana: bruxas. ridicularizadas, deslegitimadas, seu conhecimento sagrado roubado, violado. seus corpos violentados, queimados. eu lembro disso por dentro.

& porque essas histórias parecem tão assustadoramente com a história dessas outras pessoas não-humanas com quem devíamos compartilhar o mundo, não limitar, interditar, pra mim esse texto é sobre minha visibilidade negra lésbica.

(acho meio tenso ter que fazer esse tipo de aproximação, que afinal é sobre a grande cisão humano x não-humano, pra me fundamentar. mas às vezes tudo o que tenho pra comunicar é a chance de que o ouvido do outro consiga escutar o que quero dizer.

tem ouvidos tão treinados nessa crença, nessa farsa da supremacia humana, que às vezes querer implodir essa maldita categoria ia ser bizarro demais pra ser compreensível. então as analogias. que podem machucar algumas pessoas…

porque pra algumas a questão de chegar ao status de humanx é tudo que importa. só que não garante nada. nunca garantiu. é só mais uma classificação que serve aos interesses de quem a controla. mas isso pode ficar pra outro texto.

outro texto muito importante sobre antirracismo y antiespecismo, muito inspirador dessa escrita aqui y que coincidentemente foi publicado por Royce no blog vegans of color em 29 de agosto de 2009, tem uma tradução minha pra português:

em inglês: For As Long As My Skin Is Black I Will Be A Devoted Anti-Speciesist

em português: Pois enquanto minha pele for Negra eu serei uma devotada anti-especista)

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

 

  • gostei demais do texto Tate… eu também (quando escrevo) “me perco” (ou me envolvo) com temas que vão se conectando e surgindo…. sexismo interespécie foi ótimo, reúne na expressão várias coisas que a gente (e outras) vem falando pela falta do nome, parece que é novidade, ou que não existe… algumas coisas não são nem sussurros né? E às vezes, sussurrar faz mais barulho do que falar baixinho…. Sei lá… me senti tão inspirada a voltar a escrever, esse blog me inspira… você tambéeem…
    Vou abrir agora o blog de textos traduzidos, arrazou!

  • Juliana Paula

    Eu só queria acrescentar um pormenor (o texto está praticamente impecável, mas preciso comentar) como feminista, pessoa que está tentando resgatar sua identidade negra e estudante de veterinária quanto à esterilização. A maioria dos animais de rua não têm comida, atenção que dirá tratamento médico. Tendo dito isso é importante afirmar que a incidência de piometra é extremamente alta em fêmeas adultas (principalmente idosas) e que constitui uma forma muito dolorosa de morte a esses animais que não têm acesso à tratamento médico e poucas vezes encontrarão alguém que o proporcione, sendo assim eu acho mais importante que as fêmeas passem pelo processo de castração. Mas o que se vê na maioria dos casos é que as pessoas preferem castrar os machos por ser mais barato (operaçao menos invasiva e mais rápida) e também porque os mesmos marcam território. Sendo assim, vê-se que em detrimento da saúde da fêmea prefere-se optar pelo mais barato ou pelo que causa menos incômodo (não ter o cachorro fazendo xixi pela casa). Obrigada =)

    • agradeço os comentários y carinhos =)
      juliana, eu acho que a castração é ruim pra todos os bichos, fêmeas e machos, porque é uma prática intervencionista muito cabulosa que só se justifica porque montamos projetos de vida & cidade (urbanas ou não) que atrapalham os bichos de viverem como querem, com seus próprios métodos de controle populacional. caninxs/felinxs foram domesticadxs há um tempão, então agora temos que cuidar delxs da melhor forma possível – isso significa: controle populacional, castração. em nenhum momento me manifesto contra castrar fêmeas. só que muita gente, y nisso minha experiência é muito diferente da sua, prefere castrar só as fêmeas. acho que isso repete políticas de esterilização de mulheres (humanas) que demonizam a sexualidade de mulheres (pra dizer o mínimo), além de desresponsabilizar machos/homens (que pleonasmo!) de suas funções na reprodução e na não reprodução, ou seja, joga de novo todo o peso nas costas de mulheres/fêmeas.
      todos os bichos que resgato são castradxs, sejam fêmeas ou machos, “de raça” ou viralatinhas. mesmo achando invasivo, perverso, especista, entendo que é uma política de redução de danos. que pena você ter entendido que acho que só os machos devem ser castrados.

  • Fátima Tassinari

    Parabéns, encantada c seu texto, fundamentalmente c vc: impecável, maravilhosa, rasgou-me toda, emocionada q estou com tanta verdade simples. Fátima

  • Adorei a proposta do blog vibilizar a mulher lésbica e negra, pois são duas lutas que a mesma precisa se posicionar.Tudo que não julgado como “normal” as pessoas julgam, humilham, fala mal. Eu li histórias de várias mulheres negras que se descobriram lésbicas desde nova, mas não achava um sentimento “normal”.
    É preciso abrir os olhos da sociedade para essa realidade ,a diversidade.Não existe o normal, existe a pessoa. E eu tenho procurado abrir a minha cabeça para esses valores!Parabéns por todos dias!