Baseado no discurso do senso comum, nas poucas vezes que sai do Rio Grande do Sul, fui olhada com estranhamento, quando me apresentava como gaúcha: em alguns lugares ainda se imagina que é um estado sem negros.

O Rio Grande do Sul é tido como o estado mais europeu do Brasil. É fato que as correntes migratórias foram fortes por aqui (açorianos em 1740, alemães em 1824, italianos em 1875). Mas antes desses imigrantes chegarem, diversas etnias indígenas já habitavam o território, além dos negros, que chegaram a partir 1737.

Chamado “Terra de Ninguém”, o território passou a ser ocupado oficialmente em meados do Século XVIII, com distribuição de Sesmarias (lotes de terra) pelo Rei de Portugal, destinadas à criação de gado e estimulando a imigração e o povoamento. Com a miscigenação entre os nativos e os recém chegados imigrantes, surge então o gaúcho brasileiro, a partir de 1732. Antes disso, com o Tratado de Tordesilhas (1494), o território pertencia a Espanha. Resultado de acordos políticos, a região necessitava de um “povoamento civilizado”, pois outrora era habitado por populações indígenas, portanto, Terra de Ninguém.

Os negros no RS foram trazidos para trabalhar nas charquedas, que eram grandes fazendas que produziam charque. Esse produto era comercializado para servir de alimento para os escravos de todo país, e por isso o estado vendia muito.

O charque foi uma solução encontrada para aproveitar melhor a carne, que salgada e seca tinha uma durabilidade maior, e era comercializada, mas vinha sendo desvalorizado cada vez mais, o seu valor reduzia-se basicamente ao couro e ao sebo.

O escravo gaúcho, no campo, normalmente se dividia em dois grupos: o da charqueada e o campeiro. A lida de um escravo campeiro, em geral, não era tão ”penosa” como nas charqueadas, visto que se trabalhava a cavalo e entre poucas pessoas. Essa função era vista como perigosa pois a estes cativos eram entregues instrumentos de trabalho e andavam a cavalo sem nenhuma vigilância. Isso reforça o mito de que a escravidão no RS tenha sido mais branda, pois nas charqueadas e nas fazendas cafeicultoras e açucareiras, não se encontrava escravos com tais níveis de “liberdade”, no entanto não há um consenso entre os historiadores a respeito da participação do escravo na atividade pastoril.

No entanto, sabemos que a exploração da mão de obra negra tenha sido amena nesse estado. A realidade, é que a população negra tinha um grande crescimento, o que impulsionou o envio de imigrantes para “clarear” a terra.

O gentílico “gaúcho” foi aplicado aos habitantes do atual território do Rio Grande do Sul, de forma pejorativa por motivos políticos, no período da Revolução Farroupilha (1835-1845). Como a terminologia surgiu em razão da pobreza e da mestiçagem, a expressão não era vista com dignidade e valor. Mas de uma utilização pejorativa, o termo gaúcho passou o a ser incorporado pelos próprios rio-grandenses, ao final do conflito, com a assinatura do tratado de Paz, e a incorporação dos soldados gaúchos ao Exército Brasileiro

O RS passou por um episódio, lembrado saudosamente pelo movimento tradicionalista, que foi a Revolução Farroupilha, entre 1835 e 1845. Esse foi um conflito, onde a elite local reivindicava menores impostos para o charque gaúcho ao Império. A briga era entre os grandes latifundiários da terra, mas quem acabou lutando foram os pobres e escravos: no começo do conflito, a população negra gaúcha era de 30%.

Lanceiro Negro

Lanceiro Negro

Mas a saber, os negros foram convocados a lutar por seus senhores, que ocupavam grandes postos nos exércitos, enquanto os seus escravos compunham o front de batalha: os lanceiros negros. Negros estes que receberam apenas lanças para lutar, e ficava a frente da cavalaria, popularmente, “bucha de canhão”.

Nos anos finais, a manutenção do conflito era muito cara e custosa, as negociações de paz estavam tramitando. Negociando o preço dos impostos sobre o charque, os revolucionários farroupilhas receberiam a anistia e seriam incorporados ao exército imperial (para lutar a Guerra do Paraguai). No entanto, os negros que lutaram, nada receberiam… os boatos de que os que lutaram receberiam a liberdade não passava de um blefe, para que não fugissem para o Uruguai, onde a escravidão já havia acabado.

Os negros sofreram um grande golpe dos farroupilhas: na noite de 14 de novembro de 1844, foram desarmados a mando do General David Canabarro, e mortos na chacina do Cerco de Porongos, na atual cidade de Pinheiro Machado.

Os negros foram entregues à morte pelo comandante do exército farroupilha, em um (dos vários) acordo(s) que desencadearam no Tratado de Paz de Ponche Verde, em 1º de março de 1845.

A Revolução Farroupilha, conflito burguês que massacrou os pobres e negros do RS, hoje, no Vinte de Setembro é comemorado como data máxima do povo gaúcho.

É inegável que a Ronda Gaúcha (posteriormente chamada Crioula) teve importante papel para a formação do atual Movimento Tradicionalista. Em 1947, um grupo de estudantes do Colégio Julio de Castilhos, de Porto Alegre, criou um Departamento de Tradições Gaúchas, com fins de preservar a cultura gaúcha, recordando a realidade do campo. De acordo com os documentos do MTG, esses jovens, atuaram em parceria com a Liga da Defesa Nacional, que os incumbiu de fazer o translado dos restos mortais do herói farrapo David Canabarro, que seria transladado de Sant’Ana do Livramento para Porto Alegre. […] Da última centelha do Fogo Simbólico da Pátria, se acendeu a Chama Crioula, que se matem viva de do dia sete até o vinte de setembro. E com o Grupo dos Oito, é inaugurado o desfile cívico-militar, realizado pela Brigada Militar e pelos jovens tradicionalistas do Vinte de Setembro.

Da memória de um conflito que não atendeu interesses populares, se criou uma data comemorativa, para a memória de um grupo social. Que naturalmente, não foram os negros: quando o herói de um povo é o assassino dos que lutaram por esse povo, existe algo de errado, seja no conceito de “herói”, seja o conceito de “memória”, seja o conceito de “pátria”

A concepção de cultura, patrimônio, e, sobretudo tradição, utilizada pelo movimento tradicionalista gaúcho é bastante peculiar: vai ao encontro do projeto político defendido e voltado a um passado glorioso, com vistas às gerações futuras.

O tradicionalismo, nesse sentido, é um elemento difusor ideológico, a serviço do Estado e de uma classe social, através do qual é de interesse que sentimentos e valores sejam disseminados, juntamente com um progressivo discurso moralista, presente nas mais diversas ações e costumes.

Aquele que não pertence ao meio recordado pelo movimento não faz parte da cultura gaúcha. Este se torna alheio ao gauchismo, na medida em que o tradicionalismo cria um passado mítico, constrói-se e dissemina um “gaúcho” ideal, que além de não condizer com o real, exclui uma significativa parcela da população do pertencimento territorial, cultural e político.

De alguma forma, não há problemas em um povo homenagear a sua cultura e cultivar as suas tradições. Na teoria, isso é bonito. No entanto, a cultura gaúcha comemorada nos piquetes e nos acampamentos farroupilhas espalhados Rio Grande a fora, não passam de uma versão da história, construída na década de 1940, com início no Estado Novo e fortemente disseminada durante a Ditadura Militar.

A representação de um setor da sociedade, em detrimento dos demais, é algum muito ruim. É opressor. Violenta os demais.

O Rio Grande do Sul é um estado onde vivem negros. Um estado onde negros colaboraram com sua cultura, com sua historicidade, com seus valores, com sua religião.

Nós, negros, estamos aqui. Reivindicamos a memória aos Lanceiros Negros, que viveram, lutaram e morrem por liberdade.

  • Oi Letícia, meu nome é Thais.
    Obrigada pelo ótimo texto!
    Moro em Porto Alegre também e estou há algumas semanas pesquisando por blogueiras negras gaúchas, misão bem difícil por aqui…

    Estou com algumas ideias malucas em mente… se puder entrar em contato, estou inserindo meu e-mail nos campos obrigatórios abaixo.

    Grande Abraço!

  • ” Meus heróis não viraram estátua” é um livro bacana que trata desse universo. Feliz por ler teu artigo. Como ainda precisamos crescer… Vamos fazer nossa parte como educadores.

  • letthyssia

    Eliane,

    Estou certa que ainda vais presenciar alguns horrores. Atualmente moro em Porto Alegre, mas creio que no interior a intervenção do MTG ainda seja pior. Mas ficamos de olho!

  • Rosildis

    Nossa, que horror…

    • letthyssia

      Tenso mesmo!

  • Obrigada pelo artigo esclarecedor. Mudei-me recentemente para Porto Alegre (sou do RJ) e estou estranhando um bocado esse tradicionalismo gaúcho. Já presenciei alguns discursos bem racistas proferidos por esses ditos tradicionalistas. Complicado.

    • Ana Castelli

      Realmente é difícil engolir esse tradicionalismo. Eles NÃO param com o bairrismo. Sou mineira e já fui lá várias vezes… Enche o saco. Contam vantagem em tudo.

  • Jose

    Obrigado pelo texto, está mais que na hora de nossos irmãos saberem da verdade!

    • letthyssia

      Já passou da hora José!
      Vamos lá contar a história…

  • Luciana Guimaraes

    Cara Letícia,
    Muitíssimo obrigada por esse texto. Não conhecia essa parte da história e fico muito agradecida de obter essas informações.

    • letthyssia

      Luciana,

      Nossa história sempre foi contada pelos “vencedores”. Nós negros ficamos à parte…
      Está na hora de reescrevermos e contar para as novas gerações os horrores que fizeram com nosso povo, e sim pensar em mudanças!

  • Beleza de artigo. E absolutamente necessário para que cheguemos um dia a ser um povo que reconhecça plenamente sua dignidade. Eu, nordestina, há poucos anos, numa viagem ao RGSul, longa o suficiente para conhecer aquilo que não se mostra aos turistas, fiquei espantadíssima ao descobrir o grande mundo negro que há por lá, um quilombo no meio de um bairro de Porto Alegre, uma forma própria de viver a religião de raiz afro e o grande número de ilês. Descobri, também, que lá eu sou “brasileirinha”… Muito caminho a andar …

    • letthyssia

      Muito temos a desconstruir ainda…
      Tanto na luta, quanto na história.