Por Cristiane O para as Blogueiras Negras

Há dez anos minha mãe foi diagnosticada com Parkinson e com isso passou a fazer parte dos quase 14,5 % dos brasileiros que têm necessidades especiais. Fazer parte desse grupo não é nada fácil. Exige paciência, tolerância, grana e muito poder de se adaptar. Mas nem tudo é só triste e negativo.Ter algum tipo de deficiência oferece também inúmeras chances de reflexão e crescimento emocional e espiritual tanto para a pessoa, quanto para seus familiares. Uma coisa muito difícil, no entanto, é ver como além do círculo familiar e dos amigos, muitas vezes rola uma falta de jeito das pessoas ao lidar com pessoas com essas necessidades.

Foto: divulgação do filme Procurando Madalena

Foto: divulgação do filme Procurando Madalena

Isso fica bem claro, por exemplo, quando saio com minha mãe por aí e vejo gente se impacientando quando ela está na fila abrindo a bolsa pra pegar o dinheiro pra pagar algo. Nessas situações, chovem perguntas e sugestões do tipo “ajude ela!”, “Abra a bolsa dela!” “Você não sabe a senha dela, não? Digite aí pra ela!” “Pra que você trouxe ela?” Nem sempre dá pra responder tudo isso na hora, por isso eu vou tentar responder aqui.

Vou começar pelo mais óbvio. Existem tipos diferentes de necessidades especiais e as formas dxs cuidadores ajudarem essas pessoas devem ser compatíveis com o tipo de dificuldades que elas enfrentam. A minha mãe, por exemplo, tem dificuldades motoras, mas seu raciocínio continua em cima, ou seja, não tem porque eu atropelar seu poder de se expressar e decidir nada por ela. Ela pode portanto, decidir se e quando quer ajuda e solicitar se preciso.

Muitas vezes sem querer e cheios de boas intenções, a gente acaba infantilizando e coisificando pessoas com com necessidades especiais. Como você se sentiria se alguém metesse a mão na sua bolsa e pegasse seu dinheiro? Se alguém, mesmo que fosse de sua família, tomasse a sua frente na hora de pagar e digitasse sua senha na maquininha? Se do nada, alguém pegasse em qualquer parte do seu corpo? Acho que todo mundo concorda que não se faz nada disso com uma pessoa que não viva com nenhum tipo de deficiência por pura questão de bom senso e respeito ao espaço pessoal do outro. Porque não estender isso a quem tem necessidades especiais? Então eu pergunto se a pessoa quer que eu ajude antes de ajudar, pergunto se eu posso pegar nela ou nas coisas dela antes de pegar e se a pessoa diz “não” eu repeito. Acho que isso responde porque em algumas situações eu não ajudo, não abro a bolsa ou digito a senha da minha mãe.

A outra pergunta que me fazem muito, “porque você trouxe ela?” tem muito a ver como o que eu acabei de explicar também, mas vai além. Pessoas com necessidades especiais não devem ficar trancadas em casa sentadas/deitadas na frente da TV, inertes como se fossem parte do mobiliário da casa. Se elas podem de alguma forma se locomover, devem fazê-lo, se podem cuidar de si mesmas, resolver suas coisas, idem. Arrancar todas as tarefas e responsabilidades das mãos dessas pessoas, ao invés de ajudar até atrapalha. Todo mundo gosta de se sentir no controle da própria vida, não é mesmo? Isso sem contar que esconder certas pessoas em casa porque elas não correspondem ao padrão que todo mundo gosta de ver, é coisa da era medieval e do nazismo. Minha mãe gosta de sair, tem dificuldade de locomoção, é adulta e tem contas a pagar. Por isso eu a levo mesmo e vou continuar levando enquanto ela puder se mexer e quiser ir.

Dia 21 de setembro é Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência. Vamos aproveitar essa data para refletir sobre a forma como tratamos essas pessoas. A inclusão delas na sociedade passa por, mas vai muito mais além que construir rampas de acesso a transporte e locais públicos. É também (e talvez em primeiro lugar) uma questão de passar aceitar que essas pessoas, assim como todos nós, querem ser tratadas com respeito, têm direito e querem administrar as próprias vidas quando possível e com suas habilidades variáveis, conseguem fazer algumas coisas e não conseguem ou tem dificuldade de fazer outras. E o que é isso senão absolutamente normal?