Por Ellen Silva para as Blogueiras Negras

Há pouco tempo vi um vídeo que me fez tão bem que quis começar minha participação no Blogueiras Negras falando sobre ele: é uma palestra intitulada “O perigo da história única”, da escritora nigeriana Chimamanda Adichie.

Já revi algumas vezes e todas parecem ser a primeira.

A Chimamanda tem um dom: ela delicadamente pega o expectador pela mão e o conduz, através de suas histórias bem-humoradas, por um caminho que tem como ponto de chegada reflexões bastante densas. A mensagem do vídeo envolve várias dimensões, mas ao atentar para as relações de poder envolvidas nas narrativas sobre “o outro” a autora diz: “Poder é a habilidade de não só contar a historia de outra pessoa, mas de fazê-la a história DEFINITIVA daquela pessoa”.

Gostaria de aplicar essa reflexão para nós, as mulheres negras. No Brasil, em tempos de Micheline Borges – aquela que disse que as médicas cubanas têm cara de doméstica – a história definitiva das afrodescendentes entra em pauta chocando os usuários das redes sociais que vociferaram que a jornalista era preconceituosa!

Bom, isso é inegável. No entanto, Micheline só se deu mal porque seu comentário tocou em um pilar da identidade brasileira: a democracia racial. Ela tinha como interlocutora uma sociedade que tem certeza que médico tem uma “cara” branca, mas que jamais falaria isso em público porque acredita também que qualquer um que estude pode ser médico.

Para nós, é no mínimo, irônico que esse caso choque tanto uma sociedade que diariamente nos rotula como “serviçais” com o clássico “Moça, você trabalha aqui?”, e na melhor das hipóteses como “artista” com o inofensivo “Nossa, olha que cabelão diferente! Ela deve ser cantora!”

Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda Ngozi Adichie

Essa história única nos limita. Quando vemos estes estereótipos tão consolidados nos perguntamos: “Mas e as outras?* Cadê a história da deputada federal Benedita da Silva? E da desembargadora Luislinda Valois? Cadê a poeta Elisa Lucinda?”.Temos como resposta o silêncio, não daquele tipo bonito que possibilita reflexão e crescimento. Mas daqueles incômodos, do tipo de silêncio que nos priva de conhecer narrativas que fortaleceriam nossa autoestima e que nos rouba a oportunidade de admirar rostos/cabelos/corpos que parecem com o nosso. É o tipo de silêncio que grita.

Apesar do caso Micheline evidenciar a face real do racismo, eu o vejo com um olhar otimista: ele surge em um momento em que a discussão sobre as relações raciais está latente na sociedade brasileira e existem meios alternativos (como este!) para pautar e pedagogicamente mostrar que as histórias múltiplas, diversas e lindas sobre as mulheres negras abundam e que em algum momento pode chegar nas pessoas e revolucionar a maneira que elas percebem as relações raciais. Sendo assim, a longuíssimo prazo, o esforço parece válido e recompensador!

Acho que outro ponto que merece ser destacado da fala de Chimamanda é quando ela conta sobre sua visita ao México e de como se sentiu envergonhada por ter comprado a versão yankee sobre os mexicanos. Com isso ela está demonstrando que ser “vítima de uma histórica única”, não a isentou de incorporar e reproduzir o mesmo sobre mexicanos. Fica a dica para darmos aquela patrulhada na nossa conduta com outras “minorias”.

Enfim, estimulo todas as pessoas a assistirem esse vídeo e reitero que o melhor de tudo é que quando uma mulher como a Chimamanda propõe essa reflexão, naturalmente novos referenciais florescem: só por existir ela cria novas possibilidades para nosso imaginário limitado sobre mulheres negras. A partir do exemplo dela, vão se consolidando novas realidades e lentamente vamos permitindo que milhares de meninas enxerguem um futuro mais generoso para si mesmas e de quebra vamos educando o mundo a nos ver como capazes de conquistar futuros mais generosos para nós mesmas!

* Cabe fazer a ressalva que o problema aqui de maneira alguma é o estereótipo em si mesmo, principalmente porque muitas mulheres negras são de fato cantoras, empregadas domésticas, atrizes, atendentes, dançarinas, cozinheiras e zeladoras. E suas profissões não são demérito. O que é demérito é as pessoas não perceberem que mulheres negras também são médicas, intelectuais, engenheiras, empresárias, entre outras muitas possibilidades.