Por Gisele Moura da Silva para as Blogueiras Negras

Revisão por Ana Serpa

Meu Nome é Gisele Moura da Silva, tenho 44 anos  sou desenhista industrial por profissão e bancária por ocupação. Morei de 2006 a 2012 na Áustria, numa cidade chamada Traiskirchen que fica a mais ou menos 25km de Viena.

Eu conheci meu ex-marido – conheci é boa por que foi ele que me descobriu,  no ICQ, ainda existe isso? – e depois foram dois anos de idas e vindas minhas à Áustria. Até que nos decidimos por morar juntos,  em 2006.

Os antecedentes a isto não eram muito bons. Havia o estresse laboral devido a várias situações contraditórias e difíceis  condições de trabalho, a frustração de ter um emprego totalmente diferente da profissão que escolhi para mim e sempre havia exercido. A frustração de um ambiente competitivo do qual não me interessava nem um pouco participar. As pressões do dia a dia e por fim o assédio de superiores. E algumas outra situações ruins das quais nem lembro mais.

Segundo minha terapeuta, estes eram elementos para disparar uma gatilho que pode originar um processo de adoecimento mental, que se sequencia no adoecimento físico – a tão conhecida somatização.  Foram fatores que me levaram à  depressão, devido a situação frustrante e aparentemente sem saída.

Neste momento eu já havia conhecido meu futuro ex-marido e que um dia achou que eu deveria ir morar com ele. Então larguei tudo, batalhei por uma vaga numa universidade de Artes Austríacas e me mandei para Áustria. Entendam, meu foco neste texto não é contar a história vivida naquele país. Se bem que eu quero contar essa parte em um outro momento. Acho que seria interessante dividir esta experiência com vocês.

Gisele Moura

Em 2011 viemos ao Brasil para férias e resolvi realizar um check-up. Sempre tive muita aversão a médicos austríacos, por que diferente dos brasileiros  que até eu então havia conhecido, eles se negavam a discutir tratamentos com pacientes e as vezes achavam minhas reclamações um tanto sem sentido, prescrevendo  tratamentos que eu gostaria de poder entender, mas eles simplesmente ignoravam minhas perguntas.

Por exemplo, no ano anterior eu havia ido a uma ginecologista que me tratou com um certo desdém. Segundo amigas, ela tratava a todos assim, ao ponto de no ato da consulta atender ligações para escolher os ingressos da  Ópera. Totalmente focada né? Disse que por eu ter miomas eu deveria tirar o útero. Assim, sem exames, sem pedir novas ecografias e sem apresentar nenhum tipo de opção, que eu sabia existir. Sem nem me convidar para jantar me diz que o gato havia subido no telhado! Eu na hora não associei nem ao racismo nem a xenofobia, entretanto estranhei a forma que ela tentava me esterilizar. Por fim, examinou  nas minhas mamas como se fosse um aparelho de mamografia. Achei interessante a técnica dela,  que me causou muito desconforto na minha mama esquerda, na verdade doeu como nunca havia doído. Me deu uma guia para mamografia pois eu já havia passado dos 40. Na época estávamos totalmente envolvidos em uma mudança,  acabei passando do tempo de fazer  o exame. E ainda havia me prescrito um anticoncepcional diferente, o qual me causou um sangramento intenso e parei de usar na terceira caixa.

Enfim, ao chegar ao Brasil e resolvi fazer todo meu check-up e como licenciada do meu trabalho eu deveria pagar o plano de saúde, pago estava e nada melhor que aquele momento para usá-lo. Eu tenho um plano de saúde que todos invejam, que dizem ser o melhor do Brasil. Só que não importa quão bom, os ginecologistas em Brasília não estão mais querendo atender por plano de saúde, as consultas são sempre marcadas para um mês ou um mês e meio mais tarde. No início de  julho, marquei consulta para o  final de agosto. Como não sou otária nem nada pedi para a assistente requerer à médica que me prescrevesse todos os exames, pois eu teria tempo suficiente para realizá-los e voltaria para Áustria no dia 18  de setembro.

Fiz a ecografia e a mamografia. Dois dias depois da mamografia me foi pedido para voltar a clínica e fazer uma mamografia complementar pois um nódulo havia sido descoberto na mama esquerda e o médico que faria o laudo gostaria de ter a imagem ampliada. Marcamos a data e fui fazer a mamografia.

O engraçado que ao chegar à clínica toda as atendentes que me atendiam abaixavam a cabeça, cochichavam entre si apontavam para mim.  Aí é aquele momento que você tem vontade de perguntar: “Que que está acontecendo que vocês ficam com essa palhaçada??? Fala logo para mim que eu respondo na boa!”  Bem eu fiquei lá esperando minha vez com cara de what the fuck is this? Fiz a mamografia  e pronto. Uma semana depois eu fui buscar e  levei à consulta. Morri de medo de ver o que era tão complicado. Mas no fim peguei a mamografia e olhei lá e entendi nada.  Era um nódulo Birads IV C, que é a tabela internacional para possibilidade de  malignidade. Possibilidade por que nem tudo que parece, é!

Gisele Moura

Fui para a médica. Fez o exame das mamas, não sentiu nenhum nódulo, pois este era profundo.  Ela fez aquela cara de você vai morrer. Não antes de fazer uma cena foi minha culpa dizendo que a última vez que eu havia ido lá ela havia prescrito uma mamografia e eu não fiz. E eu tive a lucidez de rebater na hora dizendo que não, por 3 motivos:

–  Primeiro  por que eu não tenho histórico de câncer de mama conhecidos na minha família, nem por parte de mãe, nem de pai. Quem teve, ou morreu calada, ou nunca descobriu;

– Segundo por que eu tinha menos de 40 anos.

– Terceiro por que ela não pediu mesmo!

Me mandou para  mastologistas com 3 opções que eu marquei para o mesmo dia.  A mastologista parecia uma boneca Barbie. Eu perguntei tudo que podia, ela veio com um papo de mastectomia total , com colocação de prótese  de silicone.  Perguntei o preço ela disse que muitas de suas pacientes iam para São Paulo fazer o tratamento e pagavam 30 mil reais.

Eu nesses momentos apenas penso: ” Gisele não arregale seus olhos e feche a boca.”  Mas ela não era mercenária, claro, pois cobraria menos, por que não faz cirurgia por Plano de Saúde. E eu pensando: Oi? Estamos tratando de uma paciente com possibilidade de câncer de mama, não é mesmo???  E ela não é mercenária, claro,  mas não faz cirurgia pelo plano de saúde.  Como é que é isso?  E dentro de mim eu gritava alucinadamente: volta olho , volta olho!

Ela me encaminhou para uma biopsia corb e no fim ela indicou mamotomia! Faço um parenteses logo para dizer que no meu caso era a menos indicada, porém mais cara. A biópsia foi marcada para duas semanas pois tinha o feriado de 7 de setembro no meio e óbvio que coisa alguma funciona, né? O médico que coletou o material na biópsia, foi muito gentil e me acalmou, disse que só poderíamos tratar da situação depois do resultado, para o qual ele pediu urgência, uma vez que eu iria embora em menos de 15 dias.

Nem preciso dizer que o laboratório nem se esforçou. Voltei sem o resultado.

Uma amiga ficou incubida de buscar na semana seguinte e me enviar. Tempo total decorrido: 15 dias. Durante esse tempo tudo  foi uma grande incerteza, a não ser a minha certeza de que era algo tratável e que eu iria escapar.

O resultado chegou por e-mail, junto com o frio na barriga e uma sensação complexa que até hoje não sei explicar. Estava escrito que não era excelente, mas também não era ruim. E eu pensava antes de dormir:  o que não é excelente, mas não é ruim??? Aloka me confundindo né??? Como sempre! E enfim dormi. Nesse dia eu dormia no apartamento que tínhamos em Viena, e estava sozinha.

O dia seguinte, sábado de início de outono,  fazia um sol incrível e eu dancei por duas horas, sozinha,  a mesma música:  Carne e Osso do Paulinho Moska.  Acho que foi uma coisa meio convulsiva.  O resultado tava lá, carcinoma dutal invasivo, nível 2, etc etc etc… E a minha amiga no seu e-mail dizia isso não é um resultado excelente, mas também não é ruim. Lembro como se fosse hoje.  Contei a uma amiga que havia tido o mesmo aos 21 anos e tinha uma outra que eu não falava há algum tempo por alguma bobagem e que no fim veio passar o domingo comigo para decidir o que eu iria fazer.

Nesse momento eu vi que não havia desarrumado as malas desde que cheguei no domingo anterior. Queria comprar um bilhete sem volta para o Brasil e  vir me tratar perto da minha família.  Todos diziam: Não! Vamos ouvir uma segunda opinião.

Todas os tratamentos em Viena se iniciam ambulatorialmente, são descobertos no ambulatório. Eu fui com a minha amiga à médica levando mamografia e o resultado recebido por e-mail. Só que eu não sabia que meu cartão do plano de saúde tinha vencido. Eu era dependente do meu ex-marido à época. Claro a assistente me barrou dali da recepção mesmo, me senti mal, envergonhada por que parecia que eu estava tentando enganar alguém. Mas tudo bem, tudo dá se um jeito, mesmo na Áustria. Minha amiga levou meus exames e conversou com a médica que me indicou ir ao Brust ambulanz do AKH, o ambulatório de doenças de mama do hospital universitário de Viena. O  1º em pesquisas de câncer de mama.

No dia seguinte fui de novo à médica, que foi uma flor, me acalmou e disse que o que eu tinha talvez nem precisasse de quimioterapia e que seria tudo muito rápido e que eles iriam tratar muito bem de mim.

Fui direto ao hospital, marquei a consulta para o dia seguinte.  Ao chegar no ambulatório, levei um susto com a quantidade de mulheres que estavam sentadas, algumas sozinhas, outras com o marido. Eu fui sozinha. Fui atendida e o médico me encaminhou para outra biópsia, pois queria detalhes mais claros do que eu tinha, tamanho, do que era originado etc. E me disse que eu faria a biópsia no andar superior e deveria marcar a consulta para 10 dias. E eu tola argumentei com ele:

– Doutor isso demora uma semana.

– Dez dias por que seu caso é urgente frau Moura, não fosse o feriado seriam  apenas sete.

E apertou minha mão e fechou a porta atrás de si.

Sai com cara de manga, fiz a biópsia que desta vez foi corb, por que o procedimento é este mesmo. Ela me deixou super tranquila e disse para que no fim de tudo eu deveria ir tomar um sorvete, como prêmio!  E eu claro que acatei a sugestão!

Dez dias depois eu estava de volta com a mesma amiga que me levou à médica que me havia me indicado ao AKH e demorei para ser atendida. Ao finalmente ser atendida, encontrei 3 profissionais. A cirurgiã que confirmou o bagulho e começou explicando que os níveis da malignidade eram  de 1 a 5, o nível 3 por exemplo tem boa possibilidade de cura e o meu era nível 1. Caí na gargalhada de felicidade. Explicou que eu seria operada já e que precisava apenas fazer os exames pré operatórios!  E eu ainda pensando na volta ao Brasil!  E ela disse podemos marcar sua internação para o dia 17 e cirurgia para o dia 18 de outubro, né??? Eu olhei para a  minha amiga dizendo que queria voltar ao Brasil. Ela marcou a cirurgia para o dia 18 achou a data ótema! Minha amiga achou ótema, né? Na saída ela, a médica,  acenou com a cabeça para uma loura rechonchuda que estava lá com a mão cheia de folhetos… Era umas das psicólogas,  que me encheu de papeis e se apresentou. Tudo aconteceu nesta ordem. E quando eu saía do consultório ela disse: Essa aí tá saindo sem chorar néannn? E eu pensando: mas aqui do lado de cá não tá passando nem linha!!! Eu estava definitivamente com o furico encolhido de medo!

Fiz todos os exames em uma semana.  Na semana seguinte eu estava la 9 da manhã com uma papelada na mão. O papel de autorização da cirurgia, com todas as explicações assinado por mim, todos os exames e recebi uma outra papelada. A guia de internação, a pulseirinha, a chave do meu armário onde deveria colocar minha mala, senha para uso da rede de internet do hospital.  A indicação do armário com toalhas e camisolas, o banheiro, e o mais importante : o cardápio do almoço para eu escolher. Eu ficaria no quarto com mais duas pacientes que seriam operadas da mesma coisa  e a minha ala teria mais um quarto para duas outras pacientes que estavam no mesmo barco que eu. Nós dividiríamos o  box do banheiro e o box de chuveiro. E no nosso quarto tinha um lavatório.

Em seguida tinha a visita do médico explicando todo o nosso tratamento. Lembro de uma moça que conversei e estava extremamente nervosa, porque já havia tido a doença há cinco anos atrás.  No finalzinho dos 5 minutos para o final do segundo tempo, descobriu o bagulho de novo! Eu tentava acalmá-la. E uma outra moça que era uma psiquiatra que havia trabalhado dez anos nos Médicos sem Fronteira na África do Sul, que estava inconsolável. Todas foram operadas antes de mim pois a cirurgiã que me operaria ficou doente. Mas as enfermeiras aproveitaram para me encaminhar para todos os exames.

No dia 19 recebi a marcação com arames no local onde o tumor estava, tomei banho e me arrumei para a cirurgia. Camisolinha  branquinha, meia compressora para não ter trombose pós cirúrgica,  desci na minha maca para a cirurgia e ela foi trocada na sala cirúrgica. Recebi um anestésico que fez efeito assim que cheguei ao estacionamento das macas. Quando fui para a sala de cirurgia tava semi acordada, mas fiquei maravilhada com o elevador da mesa de cirurgia que me transferia direto para a mesa de cirurgia. Coisa fina meu…  Na volta acordei numa sala cheia de gente de cara inchada de anestesia e roupa branca… Eu lembro ter perguntado a enfermeira se eu tava no céu e ela me disse que eu já tinha acordado. Então foi chamar  o padioleiro que  me perguntou de onde eu era e algo sobre candomblé. Ele era croata mas admirava o Brasil. Missão cumprida.

Agora era aguentar o pós operatório.

No dia seguinte eu recebi a visita da fisioterapeuta, uma senhora rechonchuda que me fazia respirar com um dreno na axila e mama e levantar o braço esquerdo ao alto da cabeça. Era tortura e eu tinha tanto medo dela me dar uma chicotada que fazia tudo certinho. Ela só faltava me dar docinho.

Nos resultados dos exames feitos antes da cirurgia e durante a cirurgia não acharam nenhum nódulo axilar comprometido, ou como se diz, com metástase. Viva!

Sábado de manhã recebi alta. E fui para casa,  sozinha como cheguei. Meu querido marido apareceu uma ou duas vezes no hospital mas sempre reclamando do vizinho que ele criava caso. Estávamos às turras por causa disso. Fiz questão de esquecer para não me aborrecer pois ele reclamava até com as minhas visitas…

O bom do hospital é que durante a internação a gente pode descer para tomar café na cafeteria, ir ao supermercado. Sempre fantasiado de doente claro!

O negócio da cirurgia inchou para caramba, fui fazer revisão e o médico me avisou que haviam encontrado uma metástase no congelamento e fariam uma nova cirurgia no dia do meu aniversário 18 de novembro. Eu disse:

– Nem pensar! Não passo aniversário aqui de jeito nenhum! Arrumem um outro dia!

Fui operada no dia 11 de novembro. Retiraram vários nódulos axilares, fiquei com um dreno que só doía quando eu pensava, que para retirar doeu bastante. Mas saiu… Passei um fim de semaninha no hospital e segunda fui dispensada.

Aniversário em casa em pós operatório, e dessa vez nem inchou tanto. Fiquei com uma mama quadrada e  um pouquinho menor – o nome da cirurgia é Quadrantectomia. Mas o resultado ficou melhor ainda com a Radioterapia, por que o tecido ficou duro. Parece que pus silicone numa mama só.

Daí veio a surpresa: A decisão da químio. Novamente eu queria voltar e o médico, muito sábio, pediu para eu dar uma chance para o hospital,  que era um dos 3 melhores da Europa em pesquisa de contra câncer de mama. Pedindo com tanto jeitinho não tive como recusar.

No dia 21 antes do Natal, eu tive minha primeira quimioterapia e depois isso religiosamente,  sempre nos 21 dias subsequentes,  tive as próximas.

O cabelo começou a cair no 17º dia após a primeira quimioterapia, daí fiz a segunda com um lenço na cabeça. Em seguida, quando voltei para casa, raspei com a máquina de cortar cabelo. Os primeiros a cair foram os pubianos. Lembro de tomar banho na banheira e observar uma peruquinha flutuando. Mas daí lembrei que eram os pelos pubianos.  Só me atentei que os pubianos também cairiam, quando um amigo me disse que eu iria ficar carequinha em cima e embaixo… E eu me toquei da realidade. A sobrancelha ainda durou uns dois meses.

Todas as consultas foram com a presença de uma psicóloga antes de operar, durante a cirurgia ela estava lá de plantão. Após cada químio, e aí a gente dormia no hospital,  eu tinha um encontro com ela, de aproximadamente uma hora, em um local reservado da clínica onde era realizada a quimioterapia. Quando eu chegava de manhã para a químio sempre tinha uma conversa com o médico para saber como estava indo, quais as interações medicamentosas,  e como corrigi-las. Se eu tinha enjoo, era remédio para o estômago para não enjoar. Enjoei muito pouco. E acho que vomitei apenas uma vez.

O que foi muito interessante é como os efeitos colaterais eram corrigidos. Como eu tinha o risco de trombose, eles me passaram uma meia de compressão forte para evitar a trombose e a hexoheparina para controlar a concentração sanguínea todos os dias. Para o risco de anemia e leucopenia eram duas injeções que custavam cada uma 1500 euros, pagos pelo plano de saúde, dois dias após cada químio. Além de remédios para dores ósseas das interações medicamentosas, remédio para evitar sangramento nasal. Um dia, um dos médicos que já começou a fazer piadinha comigo disse: a frau Moura vai para a farmácia de cestinha de mercado… Tive que rir, por que era o que estava rolando.

Durante o tempo que eu fazia químio, eu consegui emprego, coisa que em 5 anos de Áustria não havia conseguido. Lembrei do livro da publicitária brasileira, que havia passado pelo mesmo que eu e conseguido emprego na mesma época. Eu lembro que eu dizia à minha colega que me indicou para a vaga que eu estava com as unhas negras, sem cabelos, sem sobrancelha e inchada. Ela respondeu, você só vai atender a clientes não vai ser modelo! E comecei a trabalhar.

Trabalhei todo o tempo, as quimioterapias nunca atrapalharam por que eu trabalhava 15 horas semanais e tirava folga uma vez por semana, sempre no dia da químio. As tarefas domésticas eu cumpria as que eu podia. No fim do tratamento fiquei sabendo que se eu quisesse poderia pedir ao plano de saúde uma verba para pagar uma faxineira para limpar minha casa – aqui no Brasil é igual, néan?

Na primeira químio, a psicologa pediu a presença da assistente social, pois eramos uma família de baixa renda e deveríamos pedir ao plano de saúde a isenção do pagamento do hospital e dos remédios ou qualquer custo do tratamento, o que foi feito duas vezes. A primeira quando eu era dependente do ex-marido, pois o plano dele era de autônomo,  e depois quando comecei a trabalhar.  As duas vezes o processo foi iniciado por e-mail e acatado em duas semanas. Acho que dei um “prejuízo” de 100 mil euros aos cofres austríacos!

Após a quimioterapia, um mês depois começou a radioterapia, diariamente, exceto fim de semana. Após a radio, teve a braquiterapia,  que eu chamo de radioterapia pelo avesso. Na verdade,  como não é possível atingir tecidos mais profundos apenas com a radioterapia, se torna necessário fazer a emissão interna, por meio de agulhas que são inseridas no interior da mama e saem para fora do outro lado… Foi divertido, mas não quero ver de novo aquela enfermeira que colocou e acendeu a luz por dez minutos , dizendo “já estamos acabando” com a porcaria das agulhas apertando no meu peito, sem que eu pudesse me mover. Xingo ela toda vez que lembro.

O tratamento começou em outubro de 2011 e se encerrou em primeiro de agosto de 2012.

Eu posso dizer que foi o ano mais divertido. A terapeuta me aconselhou sair muito de casa, mesmo no inverno, tomar café com amigas, cinema, trabalho, caminhadas, e tudo que eu pudesse fazer para me divertir. Eu bati muita perna em Viena e arredores. E com dinheiro, eu ia fazer compras.

Fiz muitos amigos no trabalho, perdi amigos também. Tudo isso faz parte. Sempre há aqueles que se compadecem da sua dor e torcem para terminar e aqueles que querem ficar distante de qualquer problema de saúde. É como uma separação.

Apoio do marido não tive muito, até por que ele atrapalhava muito. Fiz questão de ficar pouco em casa e no fim do tratamento voltei definitivamente ao Brasil.

Comparar o tratamento lá e cá não sei, por que aqui só faço controles. Até agora, um ano depois, está tudo certo. É complicado fazer o controle no Brasil,  mesmo tendo um bom plano de saúde de uma empresa de economia mista. Ainda temos que avançar muito, nada é possível ser realizado sem uma perícia. Pra receber remédios, perícia. Comprar carro com desconto, perícia. Marcar consulta, só um mês antes. Alguns planos de saúde só autorizam exame quando o paciente já teve a doença. Em casos de prevenção, é biópsia mesmo, por que é mais barato e invasivo.

É claro que a gente tem um monte de medo a cada novo controle, mas como disse a terapeuta lá em Viena, faz parte e com o tempo ele passa.

Eu voltei ao Brasil há um ano, trabalho, estou totalmente adaptada e me sinto bastante feliz. Durante todo o tratamento planejei detalhadamente a minha volta, o convívio com minha família e o fim de uma relação de 8 anos. Tudo  foi como planejado e sinto tanta vida em mim hoje como há 20 anos atrás. Não tenho por que chorar. O que passou ficou para trás!

Se você tem casos na família, mantenha seus exames em dia. Faça anualmente sua mamografia e não se desesperem se um dia der positivo. Ok, no primeiro momento se desesperem, chorem, mas depois parem de choramingar e vão todas à luta.

Para as companheiras de luta eu digo sempre: divirtam-se, aproveitem mais o tempo, por que se você faz um tratamento longo como esse – e pode ser bem mais longo que o meu foi – você vai ter tempo suficiente para fazer muiiiiitas coisas legais, como sair com amigos, viajar para a praia. Não vai gastar tempo nem dinheiro com a depilação. Vai poder usar vários lenços na cabeça, vai ser mimada, vai ter muita coisa boa em contrapartida, por que você se abre para o universo.

Agora, atenção: todo tipo de agressão moral ou emocional acaba por agredir o nosso corpo fisíco. Acredito que devamos tentar nos harmonizar mentalmente para que possamos evitar a somatização dos efeitos das agressões diárias ao nós. O que aprendi é que nada é pessoal até que a gente leve para o lado pessoal. Devemos começar a aprender a lidar  com as nossa frustrações, transformando- as em alegrias. É aquele papo de fazer do limão uma limonada. Sempre há algo novo que possamos criar em nossas vida, portanto tentemos.

Para isso, nada melhor que sermos pacientes conosco, vivendo cada segundo por vez.

Não repense nada. Não se arrependa de nada, só viva cada momento intensamente.

Só e apenas só, faça planos para o seu novo futuro. Isso ajuda a nos recuperar mais rápido.

Tenha fé, muita fé em si mesma e na sua possibilidade de recuperação.

Giseles Moura