Depois de conversar com as pessoas e entender que muito do que a gente discute e afirma com bastante contundência faz parte das visões mundo e posições que ocupamos, me veio a preocupação em discutir e escrever sobre um outro lugar.

Muito se sabe sobre negritude, suas nuances e histórias, mas pouco se fala e se publiciza branquitude e sua participação nas relações sociais. A primeira questão a se refletir (partindo do meu texto anterior) é: o grupo racial branco existe?

Partindo da definição de raça de Guimarães, 1999 onde ela é “um conjunto de elementos e características ambientais, sociais e culturais que designam diferenciação entre seres humanos”, podemos afirmar que existem diferentes grupos humanos que se identificam e se reconhecem entre si a partir dessas características.

Se a gente falar, por exemplo, de índios ou nativos, entendemos que são seres humanos com determinadas características culturais (linguagem, religião, alimentação), ambientais (de espaço e lugar) e sociais (organização familiar, organização do trabalho) que se diferem de outros tipos humanos. Quando falamos do branco como raça, estamos assim pensando em indivíduos que possuem determinados elementos e características em comum e que também podem variar de acordo com as designações sociais, ambientais e culturais – vide índios brasileiros e índios norte-americanos.

O que acontece com o grupo racial branco é que suas características são “invisibilizadas” por uma falta de consciência de raça, como afirma Dalton 1995 (2005): 17

“Em parte, é a não consciência de raça [race obliviousnes] uma consequência natural de estar no banco do motorista. (…). Para a maioria dos brancos, raça – ou mais precisamente, sua própria raça – é simplesmente parte de um background não visto, não-problemático.”

alexandre_garcia

Alexandre Garcia – o branco da vez

Essa falta de consciência e não identificação de pertencimento (o que nada tem a ver com superioridade) tem trazido ao longo do tempo sérias consequências às relações sociais em todos os âmbitos. É engraçado por isto em cheque, pois o que mais se diz  em relação a negritude é sua afirmação como ponto de partida para a superação de todo prejuízo advindo da empreitada colonial. Mas quando se trata de branquitude, afirmar-se branco (ou reconhecer-se como parte do grupo) passa a ter, em especial para os próprios indivíduos brancos, uma certa “vantagem negativa”.

Isto posto, é preciso dizer que, assim como as questões raciais permeiam e moldam os jogos sociais de negros e outras “minorias”, o grupo racial branco precisa entender quais são essas questões e no que implica tê-las permeando suas vidas. Como uma ponta do que será discutido num próximo texto (privilégios), deixou outra citação de Dalton:

“Qualquer que seja a razão, a incapacidade ou ausência de vontade de muitos brancos em pensar a si mesmos em termos raciais tem decididamente consequências negativas. Por uma razão: produz pontos cegos. (…) Cega brancos para o fato de que suas vidas são moldadas pela raça, tanto quanto as vidas das pessoas de cor.”

 

 

  • Romina Borba

    Há brancos eslavos, germânicos, nórdicos, mediterrâneos, asiáticos chineses, mongóis, japoneses, indianos, há indígenas xavantes, guaranis, tupis, cherokees, maias, há negros tutsis, hutus, bantos, nagôs e mediterrâneos. Tem muita etnia. Muita. Quanto à “branquitude”, não me enquadro, sou branca e descendente de indígenas, pele clara mas que se amorena ao sol. Adoro ser mestiça, me acho linda enquanto tal. Mas existe sim um eurocentrismo que se alinhou contra mestiços, índios, negros, asiáticos. Mesmo sendo branca de lindos olhos cor de mel,meu maior sonho quando criança era crescer, ter peitos enormes, por lentes de contato azuis e pintar o cabelo de loiro. E engordar e ficar “gostosa” (fui uma menina muito magra). Enfim, mesmo branca, morena, magra e de olhos castanho-esverdeados, eu AINDA não tinha o padrão de menina bonita. Se era inatingível pra mim, imagino a dor de minhas amigas negras. Que nem pintando o cabelo poderiam ser paquitas da xuxa. Desculpe a comparação idiota, mas o padrão de beleza é mais que branco, é arianista mesmo.
    Tá mudando, mas ainda tem muito chão…

  • Aline

    Olá Eve, Olá Sharon,

    Moro na Alemanha e discordo. Na Alemanha não há tabu em discutir questões raciais. Contudo devo frisar que qdo digo Alemanha, eu me refiro ao governo e às vias oficiais. Obviamente que em círculos familiares, principalmente em regiões provincianas, a falta de consciência e de culpa se esconde, com frequência, atrás de um véu de tabuização.
    Aqui o ditado tem razão: quem não deve, não teme. Quem é branco e se sente incomodado, continua de alguma maneira se identificando com o passado. E quem decide ignorá-lo, o apoia. Desta maneira, é obrigação de todo branco, analisar de maneira crítica a própria história e cultura. A minha experiência é que aqui na Alemanha, pelo menos no meio acadêmico, há muito mais facilidade em se encontrar pessoas brancas, dispostas a questionar essa „naturalidade“ que paira sobre a cultura „branca“. Que realmente não existe, como a Larissa propõe no texto. Mas isso só passa a ser percebido através de um grande esforço. O que chamam de „cultura branca“, nada mais é que, uma criação racista, pois as diversas etnias brancas, não se identificam entre si. Elas só se tornam uma unidade quando devem representar uma oposição ao „outro“, seja ele negróide, asiático ou indígena. No Brasil essas diferenças, perderam a força, mas ainda podem ser percebidas com maior facilidade entre comunidade mais tradicionalistas, que procuram casar–se entre si, para manter a „tradição“, mas que também de alguma maneira apenas procuram alguém com quem possam se identificar culturalmente de maneira plena. Pois ao contrário do que se diz, não existe „uma“ cultura brasileira, mas sim culturas formando a brasileira. Na Europa essa diferença é mais visível, o etnocentrismo encarregou-se de „impossibilitar“ esse sentido de unidade da cultura branca. Ela porém se repete, assim como em países pós-colonizados, quando o „outro“ entra em cena. Portanto, sim, Critical Whitness (estudar branquitude) é mais que necessário. E o mundo acadêmico está acordando para isso.

    • Eve

      Gostei do seu comentário 🙂 Vc tem razão. Eu havia esquecido do “bairrismo” que existe por aqui, considerando a questão de origem: os “brancos” do norte, os “brancos” da bavaria… Vou pensar mais sobre isso.

  • Bem, vou tentar expor minha opinião rapidamente(sono).
    Não é que falar sobre “branquitude” e tals é tabu..
    É que aqui no Brasil mesmo sem ter “grupos brancos” antigamente e atualmente diga-se de passagem, havia/há muito racismo/violência-racial e discriminação/chacotas e etc.
    Imagina se existisse um grupo com o nome tipo: “Grupo 100% branco ou algo parecido” (prefiro num imaginar)
    Quantas negras belíssimas eu já conheci que se diziam descaradamente que eram brancas/pardas o_o
    (Dessas eu já desencanava pois misericórdia) rs
    Então, existe uma grande questão histórica e psíco-social que tenta sufocar as outras etnias aqui no Brasil.
    Como não ter uma “negritude”, algo que lembre e transmita hoje de forma viva a cultura/arte negra e valorização pessoal da negra/o? Já que mediante a brutalidade chamada “racismo invisível” que é tipo: “A.. é que eu não quero que minha filha namore com negro porque isso e aquilo, blá, blá, o que vão pensar, blá, blá..”
    E tem outros exemplos também.
    Não! Não que esse ou aquele seja vítima, mais não podemos fechar os olhos mediante a praga chamada racismo, discriminação racial!
    Mudando rapidamente o foco, e os índios? Há demora e falta de respeito para com eles mui grande, eles passam mó’ sufoco hoje e o que fazem? “HAHAHA TÁ TUDO BEM MEU QUERIDO JÁ EXISTE O DIA DO INDIO MESMO NÉ”
    Há muita IGNORÂNCIA na criação das crianças; as bonecas até um tempo atrás? Todas brancas/loiras/Olhos azuis (Pode parecer pequeno? MAS não é, aliás será que não existem crianças negras? ou sendo mais extremo: negros não tem condição de comprar bonecas pra suas filhas? Só brancos?) Fraga? Dei SÓ um exemplo, de muitos outros que travam a sociedade. O Brasil país cheinho de mistura!! Ora você capoeira ali, ora você vê sertanejo ali, rap, rock, floresta, beleza natural da natureza em todo território, varias cultura/costumes da hora, sotaques lindos, “americanização é meio que eca?!” Talvez? Se pan’s… deixa pra outra hora esse lance de americanização..né. Continuando! Todos deveriam se respeitar.. se aceitar..”Enfim não deveria ser assim, mais num é tão fácil assim”.
    Resumidamente com ousadia:
    Dois tipos de pais brancos;
    1-Aqueles que são bem envolvidos com culturas ancestrais da Europa, dança, comida, vestimenta, e que até hoje gostam disso e passam pros filhos.
    “Esses são minoria não há muitos deles.”
    2-Aqueles que vivem na digamos que “urbanização”; não há nenhuma ligação mesmo com cultura dos “ancestrais”.
    “Acredito que esses sejam maioria.”
    Mais deixando de lado essa “tabela”(rs) que fiz, eu acho que a melhor maneira pra pessoas com ascendência europeia ter algo parecido com um “grupo” (digo algo parecido pois sou contra existência de um grupo branco/branquitude).
    “Seria com um pouco de base na primeira opção; “Os pais e família em geral fazer a tradição deles com amor reunidos, todos da família tendo membros paralelos também que não tenham ligação europeia e pá.”
    E é isso, não tem que ter “grupo”, nem “branquitude”, pô quem quiser que se ajunte e faça a tradição de boa, respeitando todos, aceitando todos. (Tipo igual vi uma reportagem uma vez na TV,lá do rio grande do sul uma família alemã fazendo a tradição, aí vinha pessoas de outros estados e pá, flagra? Todo mundo em harmonia *-*)
    A é isso aê, paz Larissa, e não levem em consideração a primeira frase valeu? kkkkkk
    (Tá aí minha ideia pessoal)

  • Marcio Vinhaes

    Raça entre humanos é um conceito que não existe na ciência, todos os seres humanos hoje na terra pertencem ao gênero homo sapiens, pertencemos à subspécie homo sapiens sapiens.

    Nossos primos próximos são os homo sapiens idaltu, homo sapiens rhodesiensis e homo sapiens neanderthalensis; mas todas essas subspécies (ou “raças”) já foram extintas faz muito tempo, portanto não faz mais sentido no separarmos por raça. Faz menos sentido ainda definir raça como “características ambientais, sociais e culturais”, já que raça é um conceito definido pela genética, e genética não se altera ou altera características ambientais, sociais e culturais. Por exemplo, um lobo da ibéria(Canis lupus signatus) não se torna um lobo guará(Chrysocyon brachyurus) se ele for criado em Minas Gerais.

    O que existe são etnias, claro, mas isso independe do fator cor de pele. A África mesma é um gigantesco calderão de etnias, mesmo que essas pessoas tenham a mesma cor de pele; ou mesmo na Europa branca onde temos francos, eslavos, nórdicos, anglo-saxões, celtas, etc; entre os chineses temos Huis, Hans, Miaos e Zhuangs.

    • Carol

      Concordo com sua posição.

  • maria penha da rosa

    o branco se avocou o direito de superioridade, mas nunca o foi,foi tudi uma trama para justificar a existência de povos dominados e para que eles pudessem cometer todas as atrocidades que cometeram e ainda cometem e é isso que os agrega.

  • Talvez eu não tenha entendido bem o texto ou o texto não se deixou entender bem. Gostaria até de fazer um comentário mais profundo sobre esse texto, mas não conseguirei. Mas o fato é que não gostei do texto. Parece igualar a raça branca à negra, no sentido de dizer que se tratam ambas da mesma coisa (calma! já explico). São sentidos diferentes de raça. De tal modo diferente que acho muito difícil dizer que os brancos formam uma raça. Acho que justamente é essa falta de consciência de raça (como a consciência de classe) é que os deslegitima enquanto raça. Isso acontece claramente porque eles não precisam fazer isso: já nasceram dentro do que é considerado “aceito”. Por fim, acho totalmente absurdo mesmo o movimento contrário: quando eles se reclamam uma raça, a branca. Ora, essa postura é claramente uma reação à negritude, um movimento de diferenciação em relação aos negros, um movimento agressivo.

  • Eve

    Meu ponto de discussão aqui seria: aonde eu me encaixo? Cresci ouvindo que tinha “cabelo duro/ruim”, por ele ser cacheado e cheio (fora do padrão liso do “branco”). Meus apelidos são “branquela” e “amarela” numa família de morenos/negros. Riam de mim por não bronzear nas horas expostas ao sol na praia.

    Precisei mudar de país, consequentemente, de grupo, para perceber os fatos citados como preconceito e discriminação. Porque eu, assim, como mulheres negras, também era “forçada” pela sociedade, representada pela minha própria mãe, a manter os cabelos lisos, para entrar no padrão. Quando precisei cortá-los curto, perguntaram-me se não seria uma chance de que ele nascesse “bom”. Para a minha sorte, continuam os mesmos de sempre.

    Na Alemanha, aonde moro, cabelos cacheados e cheios são sonho de consumo. E, dentre os brancos, não sou a mais branca. Contudo, discutir raça ou pertencimento por aqui é tabu, por questões históricas. Não é superioridade, mas é entendida como. Ainda.

  • Nossa, Larissa! Que difícil! Eu sou branca, descendente de europeus, e nunca pensei em questões da minha raça. Talvez eu veja raça apenas como características biológicas e então pensamos que, como não sofremos preconceito (pelo contrário, temos privilégio), logo, não temos questões de raça, logo, a forma correta de pensar na minha branquitude é em termos de privilégios e não em termos de consciência… talvez seja um tabu tentarmos entender os aspectos mais complexos da formação (ou não) de uma raça branca?

    Porque eu me sinto muito estranha pensando nisso, como se eu estivesse mexendo em coisas proibidas, ajudando a gente racista e louca que defende camisetas “100% branco”, que eu sempre repudiei totalmente. Quando começo a usar esse conceito mais amplo de raça, que você trouxe, envolvendo elementos e características sociais e culturais… Aí nós podemos chegar a uma “branquitude”… mas essa discussão seria útil agora?

    =(

    Não sei…