Quando uma famosa e conceituada publicação comemora seus 25 anos de Brasil, trás um presente exclusivo e apresenta na capa um editorial feito em Maceió, você logo pensa – Oba, pela estampa do lenço e pela locação do editorial, pode vir alguma surpresa negra por aí. Bom, pensei errado, nas 322 páginas da revista (contando capa e contracapa) existem exatas 560 mulheres estampadas, vestindo a última moda, os acessórios mais incríveis (?) e bebericando seus drinks em bares badalados, das 560 mulheres 9 ( isso mesmo NOVE) são negras, exatos 1,6%. Deste 1,6% 1 mulher está desfocada atrás de uma fila de outras modelos, 1 aparece numa bizarra peruca loira, 2 estão em fotos de tamanho reduzido e 1 ilustra a página dedicada a Jamaica ( clichê barato? Sim ou claro?). Para que ninguém diga que meus dados são tendenciosos, na mesma publicação existem 24 moçoilas asiáticas, ou seja, 4,2%. Impossível não folhear a revista com certo desconforto. Nada ali me representa, nada ali condiz com aquilo que eu entendi da composição capa + lenço.

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Consumo literatura de moda desde a faculdade em 1999, na verdade desde um pouquinho antes e embora com a boca amarga do desgosto da constatação do óbvio, nada me espanta mais.
No 1º dia de Fashion Rio, modelos e artistas negros realizaram um protesto no Píer Mauá. É a sétima vez que integrantes da ONG Educafro Nacional comparecem ao evento numa tentativa de combater o racismo e para exigir a presença de mais modelos negros nas passarelas de eventos de moda no Brasil.
Um termo foi firmado após denúncia encaminhada à Defensoria Pública pela ONG de que os modelos estavam sendo rejeitados na seleção para os desfiles da temporada Inverno 2014 do evento.

“O que Choca, seu racismo ou eu?”

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Participaram do encontro representantes da ONG, da Coordenadoria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura do Rio (Ceppir), o deputado estadual Gilberto Palmares (PT) e a gerente do departamento jurídico da Luminosidade, empresa responsável pela realização da semana de moda de São Paulo e do Rio de Janeiro, Verbana Maciel. A empresa irá encaminhar às grifes a recomendação de que exista o percentual mínimo de 10% de negros em cada desfile. De acordo com a defensora pública, Larissa Dadidovich, agentes estarão presentes nos desfiles para verificar se as grifes estão cumprindo o percentual mínimo acordado na reunião. Segundo o presidente do Grupo Palco Mil Sonhos, Leônidas Lopes, nenhuma modelo negra foi selecionada para o evento.
Nos últimos dois anos, quando um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) assinado pela Luminosidade vigorava, 46 modelos em cada ano chegaram a ser chamadas para as seleções. Desta vez os modelos não foram chamados sequer para seleção. “Não estou reclamando apenas das modelos que são do grupo. Os fatos estão comprovados.”

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Backstage do desfile de Tufi Duek durante o SPFW – Inverno 2014. Foto : SERGIO CADDAH/ FOTOSITE FOTOSITE

Lopes faz referência ao papelão realizado em outubro de 2013 no circuito de moda, a São Paulo Fashion Week apresentou sua cota de racismo latente durante o desfile Outono/Inverno 2014 da marca Tufi Duek. A África foi a inspiração da marca, exibida com orgulho no Backstage ( por trás do palco) do desfile e no site da coleção. O estilista Eduardo Pombal disse na época que sua inspiração além do continente africano, seria as fotografias de Malick Sidibe, fotógrafo malaio famoso nos anos 60 por suas imagens de moda da África urbana. Pombal conseguiu trazer a África nos tecidos, formas, costuras, mas se esqueceu de trazer no tom de pele das modelos.

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Enquanto no Brasil nos deparamos com este tipo de situação , no cenário internacional a modelo britânica Naomi Campbell relança a campanha contra a discriminação racial no mundo da moda. Ela cobra pessoalmente de estilistas, juntamente com as colegas Iman Abdulmajid e Bethann Hardison uma diversidade maior nas passarelas, onde atualmente apenas 6% das modelos são negras e 9% asiáticas.

A modelo já tinha chamado atenção para o tema em 2009, mas disse em entrevista a BBC que o assunto “foi esquecido e varrido para debaixo do tapete”.

Além da apropriação cultural, ainda lutamos contra o conceito do belo que nos exclui. A indústria da moda é importantíssima, embora tratada como banal, é história. A moda é tão importante manifestação cultural a ponto de justificar ter o apoio da Lei Rouanet para a divulgação de sua atividade no exterior. Choca a percepção de que num país tão plural, não seja espontâneo dos profissionais do meio o estímulo à diversidade étnica, sem a necessidade de imposição.  Não temos espaço nem quando somos o tema, o assunto.  Somos consumidores de moda , mas não somos dignos de vendê-la. O negro não vende. Já nos cansamos de ser homenageados por perucas de palha de aço, por black face, por tentativas frustradas de minimizar o racismo (varrendo-o pra debaixo dos tapetes).