Por Luma de Oliveira para as Blogueiras Negras

Para começar devo destacar que demorei muito para fazer um recorte no presente texto. Falar sobre “feminismo e periferia” não é tarefa fácil: primeiro porque pouco se fala no assunto e depois, porque faz parte da minha luta e sei o quanto tem sido árdua a luta da mulher negra e periférica diante de nossa invisibilidade perante a sociedade e dentro do próprio movimento feminista.

Bom, o movimento feminista não é uma linha reta, é um movimento plural onde estão presentes várias correntes, visões e lutas. Na luta contra a desigualdade de gênero deveria haver espaço para todas, porém se observa que apenas determinada parcela possui voz, e diferentes formas de opressão seguem sendo ignoradas. Quando falo em “linha reta” é porque tenho observado muito nesse tempo de militância discursos como se todos os espaços feministas fagocitassem todos os temas e opressões, e não é essa a realidade. Nem todo espaço e discussão vai falar ou ouvir mulheres negras, trans*, periféricas, camponesas, entre outras. É uma grande ilusão seguir sem questionar todos os espaços posições ocupadas por cada mulher dentro da sociedade de classes. Um primeiro passo para refletir sobre a posição ocupada po todas as mulheres e as diferentes formas de opressão é começar a questionar os seus privilégios, não dá para seguir na luta crendo que a mulher periférica está sendo representada pelos discursos domintantes dentro do movimento feminista, e pior ainda: fazendo suposições sobre o que é ser mulher na periferia e sobre a luta feminista das mulheres sem fazer o mínimo pelo qual sempre lutamos: nos ouvir.

A discussão sobre raça e classe dentro do movimento feminista, na maioria dos espaços não é feita, e quando alguém tenta de alguma maneira fomentar o debate é um festival de incômodos, um dedo na ferida. O patriarcado não vem sozinho, e se as intersecções de opressão continuarem sendo igonoradas, o que nos resta? A luta avança ou retrocede? Nós como militantes feministas, negras e periféricas não podemos parar de lutar e bater constantemente no que nos exclui e incomoda, porque senão o “feminismo” seguirá como um movimento para poucas e não para todas.

Desde que comecei a militar no movimento feminista, demorei muito para compreender diversas questões dentro do próprio. E passei até a acreditar que em todos os espaços eu conseguiria expor e ouvir discussões sobre as questões que me incomodavam, mas ao passar do tempo comecei a compreender como as coisas funcionam nos espaços de luta. Meu espaço de militância sempre foi a periferia, faço minha luta no lugar onde eu nasci mas raramente quando o assunto era feminismo eu me sentia representada. Comecei muito nova a me interessar pelo feminismo, procurava livros, revistas e sempre que ficava sabendo sobre alguma entrevista ou participação de alguma feminista em progamas, corria pra frente da TV, mas só me deparava com mulheres brancas, burguesas e nunca me vi representada, nunca ouvi nem vi nessa época alguma militante negra e da periferia sendo ouvida. Quando o tempo foi passando e participei de mais atividades é que me dei conta de quem é que falava majoritariamente dentro dos espaços feministas, me dei conta que sobre mulheres negras e da periferia quem falava não eramos nós, percebi que não queriam nos ouvir, e os “achismos” rodeados de classismo é que comandava o discurso.

Desde o início da minha militância e até hoje tenho visto um cenário que não mudou muito. Quando fico batendo na tecla do “falar” e “ouvir”, é porque acredito que devemos ouvir o outro, não falar pelo outro e é possível construírmos a luta em conjunto, mas sem jamais ignorar que existe  como se dão as diferentes formas de opressão ás mulheres, e que é muito diferente ser mulher negra e periférica (moradora do Grajaú, Parelheiros – Extremo Sul de São Paulo) e ser mulher branca, classe média e morar no Butantã, deu para entender aonde quero chegar? Foi um processo lento, árduo e que após um tempo comecei a compreender as diferentes maneiras de opressão e que elas também podem se dar até mesmo nos espaços em que estamos construíndo alguma luta.

O feminismo na periferia parece algo raro aos olhos de quem está acostumado a só ver artiulações em regiões centrais, mas ele está aí: firme, forte e presente. Existem vários coletivos e articulações sobre feminismo espalhadas pelas periferias da cidade, onde as atividades vão desde os debates até grupos de estudo, espaços autônomos, organizados por mulheres e com participação de toda a comunidade. Falando nessas movimentações, um fator que devo destacar é a obsessão por “teoria” que muitas vezes serve de base para começarem as distribuições de carteirinhas do movimento feminista. Em nenhum momento estou aqui abominando qualquer teoria sobre o movimento, acredito que é de suma importância nos aparelharmos de teorias, principalmente vindo do espaço que eu venho onde pouco somos ouvidas, onde somos uma minoria dentro dos espaços onde se dão as discussões e produções teóricas, mas não acredito que se deva classificar ou medir grau de engajamento das companheiras de acordo com o que leram ou não, como vejo muito acontecer em espaços universitários, que aliás, muitas vezes chegam na periferia vomitando teoria sem ao menos se importar se há ali no espaço um conhecimento compartilhado e sem ouvir quais são nossos posicionamentos, como estamos tocando a luta feminista e diante da nossa realidade o que pensamos juntas em fazer. Porque aprentemente pouco importa, mulheres periféricas não tem nada a dizer, só ouvir o processo “colonizador moderno” de salvação. Falando em salvação, não precisamos também que uma “luz” chegue até a periferia e venha nos salvar do patriarcado, devo informar que ninguém se libertará sozinha dentro da sociedade patriarcal, e se uma não estiver livre nenhuma estará e não lute pelos outros, mas também não lute só por você, lutemos em conjunto.

As manifestações feministas que surgem na periferia, quando chegam aos olhos e ouvidos das regiões centrais são discriminadas. Além de outras articulações de coletivos em diversos espaços, também devo falar da produção cultural onde as mulheres produzem diferentes artes com o foco na luta da mulher por igualdade de gênero. Temos manifestações como o funk, rap, samba, focinas de grafite, entre outros. Mas o fato de quem produziu determinado bem cultural ser mulher, lutar através da sua arte, ser negra e periférica faz com que essas produções sejam desvalorizadas, vistas como “falta de cultura” e outros adjetivos que a burguesia bem sabe dizer sobre qualquer manifestação da periferia, porque uma mulher daqui gritar e lutar por liberdade é uma afronta para quem a explora pagando metade do salário, ou a deixando de joelhos limpando o chão na sua casa de família na região central.

Em diversos processos de luta na periferia, eu como feminista negra e periférica observo o feminismo presente em todos os lados e todos os dias paro, observo e dentro dos espaços em que luto, respiro feminismo e vou contar para vocês algumas situações: Eu via feminismo na infância quando aprendi em casa que “homem não bate em mulher”, para me ensinarem isso não foi utilizado nenhum livro, quem me ensinou isso não tinha nem o ensino médio completo. Sofreu na pele e na alma, sabia qual era a situação da mulher na sociedade e que sempre fomos as principais vítimas de violência doméstica, e que não era “só” um tapa como muitos queriam a fazer crer, sabia que isso era machismo, violência contra a mulher; Vejo feminismo quando participo de algumas lutas por moradia na quebrada e na divisão do serviço eles não são separados por sexo, mas sim por preferência de cada um, onde todas e todos podem tanto carregar madeira como ajudar na cozinha; Vejo feminismo aqui na periferia, quando minhas companheiras pedem a fala e são ouvidas, respeitadas e são tratadas de fato como companheiras de luta por todos presentes; Vejo feminismo na periferia quando respiro a nossa indignação por continuarmos sendo invisíveis dentro do movimento, e por quando falarmos situações e reações diversas serem despertadas, pelo simples fato de queremos um feminismo para todas, e não só para quem tem a pele clara e reside no centro; Vejo feminismo na periferia quando em diversas lutas desde à moradia até o tansporte as mulheres podendo tomar frente, participar ativamente de toda e qualquer discussão e não serem apenas ouvintes, como a sociedade patriarcal quer e fez com que a maioria dos nossos pais nos criassem, para ficarmos apenas ouvindo, atrás das cortinas; O feminismo está presente na periferia, desde o nosso grito por lliberdade sexual até a luta por creches e até quando há a união de mães que lutam contra a violência do Estado que as fazem enterrar seus filhos.

Hoje, minha intenção foi mais uma vez fomentar o debate acerca do “Feminismo e Periferia”, não se enganem: Feminismo não é linha reta e existe sim luta de classes, racismo e diversas questões de opressão que não podem mais continuar sendo jogadas para debaixo do tapete. Como militante feminista, de esquerda, negra e periférica me recuso a lutar apenas quando o assunto for a liberdade de determinadas companheiras e não de todas. Ninguém se libertará sozinho, e enquanto a periferia continuar sendo marginalizada, tendo porta-vozes (que dispensamos), e cada vez mais longe dos movimentos de luta, cada passo para frente será ao mesmo tempo 5 para trás. É necessário fazer uma autocrítica dentro do movimento, essa responsabilidade é de todas nós porque a luta é conjunta, e acreditem em mim, só o fato de você que está lendo agora questionar os seus privilégios já é o mínimo para que possamos dar os próximos passos. Eu quero falar, ser ouvida, compreender e fazer parte de um movimento feminista plural e que respeite a luta e história das companheiras: ouvindo-as. Não quero um feminismo que exclui, segrega e continua de olhos vendados acreditando que todas as suas pautas e articualações chegam e contemplam à todas. Quero a periferia que nunca dormiu sendo respeitada como espaço de luta, e não tentativas de cooptação burguesa, com discursos sustentados por estigmas, lamentações e ajuda. Somos sujeitos da nossa própria história e não fiquem acreditando que estamos dormindo, que compamos os discursos burgueses vendidos, que na periferia não tem feminismo e que a única definição de feminismo está presente nos parágrafos que vocês estudou, porque a luta vai muito mais além e as mulheres não estão todos os dias batalhando apenas nos espaços que a burguesia julga como adequados: Elas estão aqui, lá fora, em seu local de trabalho, coletivos, em sua casa e inclusive, estou olhando para duas agora, e uma delas me ensinou e permitiu que eu tivesse o direito de “ser”.

Como feministas periféricas, temos o dever de ocupar os espaços, construír os nossos e lutar para que compreendam que a questão de classe é mais latente do que imaginam, que enquanto raça e classe estão indo para debaixo dos tapetes das rodas de conversa e academia, várias mulheres estão sendo exploradas e massacradas. Não me venham com falsas simetrias, pois o cotidiano e a opressão sofrida por uma mulher periférica não pode ser comparado à mulher de classe média e que reside em regiões nobres. São as mulheres daqui as principais silencidadas, são as feministas daqui que jamais são indagadas, são as mulheres daqui que morrem todos os dias massacradas dentro e fora da periferia por sua classe

Por que lutamos? Para que o feminismo seja a ideia radical de que mulheres negras e periféricas também sejam gente!

“Mulheres que lutam
Levantam casas
Acordam cedo
Sustentam seus tetos
Mulher de periferia
Esquecidas pelo centro
Silencidas pela burguesia
Colonização moderna -repetida
Vozes não ouvidas
Classe massacrada e esquecida
Feminista, preta e de luta
Tripla jornada
Sem nome,”empregada” vira epíteto
Volta correndo, trazendo leite, sustento
Misto de poesia com Mama África
Não há tempo pra dor ou lamento
Das cicatrizes deixadas – palavras
Linhas formando “P”
Periferia, preta
Inicial de patrão, patroa e PM
Respirou luta e escreveu
Sua “P”oesia de sobrenome“P”eriferia
Com tinta “P”reta” ”

  • Brígida

    Aprendi sobre feminismo quando as mulheres da minha familia foram abandonas e tiveram os filhos abortados pelo pai, que sumiu e nao deu nem um litro d leite. Quando minha mãe acordava cedo p me criar e eu criança olhava minha prima menor pq a mãe dela tambem tinha q ir p centro limpar csa d madame. E hj estudei e estudo p ajudar as mulheres da favela, da leste a se libertar!!!!!! Aprendi sobre feminismo pq chegava tarde do curso e subia correndo a quebrada com medo d ser estuprada, e chegava em csa e via minha mãe acordada preocupada me esperando a meia noite mesmo tendo q levantar as 4 da manhã p ganhar um salário mínimo numa fabrica d roupa d grife, onde passava mal com o calor pq o patrão não queria ligar o ventilador p economizar luz. Essa é a parte do feminismo q não me vejo representada no centro da cidade.

  • Silvana

    Excelente texto texto! Também sou mulher negra e periférica, e encontro muita resistência para levar o movimento feminista elitizado para a periferia.

  • Descobri hoje (agora) esse blog e só queria dizer que, começando por esse texto, já me fez parar, questionar e auto criticar muitos pontos da minha própria atuação enquanto ativista feminista que anda bastante decepcionada com o posicionamento do feminismo atual. Também sou mulher periférica, não dizem ao me olhar, mas tenho sangue negro correndo nas veias também (todo mundo tem) e me identifico com tudo que li. É preciso se posicionar, é preciso mostrar a voz da mulher na periferia, e é preciso repensar o feminismo que, sem querer, tem se tornado um defensor de privilegiados.

  • Renata Winning

    Luma, maravilhoso o seu texto. Você propôs algo que só na aparência é simples: ouvir. Ouvir no lugar de vomitar teorias, propor receitas de salvação ou tentar o impossível de falar por todas as mulheres ignorando as diferenças de classe e de raça. Eu, mulher, “branca do centro” ouvi sua voz e o seu texto me emocionou. Parabéns!

  • Esse problema é extremamente amplo. Com efeito, o conflito centro x periferia é muito mais fundo, histórica, econômica e socialmente do que muitas vezes pensamos. Talvez a situação da mulher favelada reflita de modo extremamente fiel esse conflito, mas do que outros campos, porque é muito mais visível a discriminação, porque a mulher sofre de pelo menos três preconceitos, todos ao mesmo tempo: ser pobre, ser mulher e ser negra. O base é que a sociedade brasileira é uma sociedade fortemente hierarquizada entre ricos e pobres, os ricos mandam, os pobres obedecem. Nisso, são associados estereótipos a cada um deles: os ricos são vistos como inteligentes, cultos, refinados, brancos, homens (basta contar quantas mulheres em posições-chave como donas de empresas, empreendedoras etc existem em comparação com os homens), possuidores de boas casas, “bem localizadas” (centro), bons carros etc. Os pobres são vistos como analfabetos, burros, grosseiros, sem modos, negros, mulheres (aqui em Brasília, na minha periferia, pelos menos uns 80% dos trabalhadores que pegam ônibus cedo pra trabalhar são mulheres), moradores de cortiço etc. A partir disso, estabelecem-se então os estereótipos: negros são todos favelados, mulheres só trabalham em subempregos, são incapazes etc. A periferia sofre de uma enorme invisibilidade, mas concordo contigo, não é porque faltam cabeças pensantes, então é preciso alguém do centro vier e fazer tudo por nós, como crianças, não, é porque a periferia é tão ou até mais rica intelectualmente falando do que o centro, mas toda essa riqueza é invisibilizada pela mídia. Eles estão lá, nós simplesmente não os vemos. Temos nossa própria filosofia, nossa própria ética, nossa própria forma de organização social, temos tudo. Nesse sentido, infelizmente os movimentos sociais também estão sujeitos a esse conflito: o feminismo também sofre a divisão periferia x centro, tenta-se ignorar as tensões raciais e sociais sob a capa da “união”, mas quem deve liderar essa união são as pessoas do centro, pois a liderança é uma “característica natural” deles. Talvez esteja aí uma das causas dos frequentes ataques que estes movimentos sofrem de grupos ultraconservadores, que não tem quaisquer pudores em defender toda essa concepção de mundo ridícula e atrasada. Eles exploram essa brecha de se negar uma representação realmente democrática que, muitas vezes, os movimentos dizem ter, mas na prática, agem como se não tivessem, e cooptam para seu lado aqueles que veem isso e se frustram. Meios eles têm, e muitos, para fazer isso. É preciso continuar a lutar por igualdade de gêneros, etnias etc para todos, mas não se pode esquecer que é preciso antes implantar isso dentro delas mesmas para que, então tenhamos alguma chance de ver este mundo mais justo e democrático um dia. Boa tarde.