Por Márcia Santos Severino para as Blogueiras Negras

No Brasil atual temos visto o esforço de intelectuais para tentar explicar a escalada da violência no país. Tal esforço é de suma importância, no entanto, muitas das teses parecem esconder um viés fundamental para essa análise: nosso passado obscuro.

Com efeito a violência no país se generaliza de forma mais contundente com a chegada da civilização européia ao nosso território. Sim, a civilização, o desenvolvimento, os bons costumes da cultura européia geraram um ciclo de violência no Brasil que persiste até a nossa atualidade.

Aqui buscarei fazer uma análise da ótica que nos importa e interessa, a ótica da mulher negra. Ora, a tal miscigenação nacional que apontavam os arautos da democracia racial no país, não foi feita à base do romance e do amor, mas sim à base da violência e da opressão. Vejamos como se inicia o ciclo de violência que até hoje açoita a nós negros: o senhor de engenho que via em seus escravos nada mais nada menos do que máquinas de trabalho que deveriam produzir para gerar sua riqueza, não tratava de forma diferente suas escravas, meras máquinas de reprodução dos trabalhos domésticos e do sexo fácil para os senhores e seus filhos. Como máquinas não possuem sentimentos e nem alma, a violência sexual sobre as escravas se dá de forma natural para os poderosos senhores que despejavam suas frustrações sexuais no corpo, transformado em máquina, dessas mulheres.

As crianças negras bastardas frutos dessa violência tiveram o seu lugar no ciclo violento que se fecharia: como não seriam jamais considerados filhos e membros da família do senhor, teriam lá sua serventia, qual seja, reprimir e caçar seus próprios ascendentes e descendentes escravos impedindo-os de qualquer fuga, qualquer resistência. São os capitães do mato. Aí começa a lógica do irmão matando irmão. A casa grande talvez não imaginasse a importância dessa inve(n)rsão.

Com o fim da escravidão, os ex-escravos foram literalmente jogados no mundo. Sem nunca ter tido acesso à educação, sem nunca ter vivido em uma sociedade mercantil e sem nunca antes terem tido a “liberdade” pregada pelo liberalismo burguês capitalista, era óbvio o abismo que se criaria entre eles e o resto da sociedade. Estava inscrita a lógica da marginalidade. O negro na sociedade brasileira nunca se marginalizou mas sim foi marginalizado desde os primórdios da fundação dela.

Para certificar-se de que nos separariam ainda mais para prosseguirem nos dominando, trataram de gerar divisões, assim, existiam os negros da casa grande e os negros do eito.

Os últimos eram responsáveis pelas funções mais rústicas, não sabiam ler e escrever e não possuíam contatos que pudessem lhes auxiliar de alguma maneira. Viviam de “bicos” e muitas vezes tornavam-se viciados em álcool, dando início, assim, ao nosso drama com o alcoolismo que persiste até os dias de hoje. Já as mulheres negras desse grupo, podemos dizer que foram menos desafortunadas pois conseguiram postos como empregadas, lavadeiras e cozinheiras. Começa aí nosso drama com o trabalho doméstico “assalariado” persistente também até os dias atuais.

Tal situação desestruturou nossas famílias nos encaminhando, entre outras coisas, para pequenos crimes e prostituição. Isso não foi uma opção que nos foi dada, isso foi claramente imposto, diante das condições que nos deram. Já os negros da casa grande, conseguiram ao menos sobreviver de maneira um pouco menos sofrida. Alguns sabiam ler e escrever e tinham alguma influência, sendo integrados de forma ínfima.

Hoje esse passado obscuro bate à nossa porta. O capitão do mato ainda existe é, nada mais nada menos que a polícia. As mulheres negras que no passado foram violentadas, hoje enterram seus filhos vítimas da violêncuia urbana. Ah! A cidade! Dento dela o lugar do negro desde o início foi a favela. Jogados no mundo sem ter para onde ir, como alugar ou comprar uma casa? Não bastasse isso vieram as piores drogas. Drogas: a melhor invenção que o capitalismo poderia criar para manter sua hegemonia.

Continuam injetando-as dentro da periferia e, aliás, porque será que o poder público não se empenha em debater a descriminalização delas?

Como podem perceber o papel de todos os negros mas, principalmente da mulher negra em todo esse processo é um papel subalterno. A mulher negra não é dona de seu corpo não tem escolhas e a violência faz parte de seu íntimo e de seu cotidiano.

O grande genocício empetrado principalmente contra os homens negros traz em seu bojo um passado onde está (ainda) presente a divisão dos irmãos e o que é principal: a fragilização de um dos maiores símbolos de resistência aos arbítrios da dita “civilização”: a mulher negra.

bn