Por Luana Tolentino para as Blogueiras Negras

Dennis e Luana

Dennis e Luana

A semana que passou foi de muita festa por aqui. Dennis, meu irmão mais velho, concluiu a graduação. Se antes tínhamos um técnico de enfermagem na família, agora temos um Enfermeiro. Para minha mãe, Dennis é um Doutor.

Assumo a minha tietagem. Dennis é apaixonado pela profissão que escolheu. Com entusiasmo, fala dos pacientes que pode auxiliar, principalmente dos idosos. Com indignação, expõe a precariedade do serviço de saúde no município em que trabalha. Com pesar, conta as histórias das mulheres agredidas por seus companheiros, dos viciados em crack, dos alcoólatras e dos jovens vítimas de armas de fogo. Nesses casos, a conversa nunca chega ao fim. Sempre o interrompo. Meu espírito não suporta tantas mazelas.

Foram quatro anos e meio para terminar a faculdade de Enfermagem. Dennis estudou a vida inteira em escola pública. Logo que concluiu o ensino médio, optou pelo curso técnico.

Por vocação e pela certeza que a remuneração permitiria pagar as mensalidades em uma Universidade particular. A vida acadêmica foi dividida entre os plantões durante a noite, as aulas à tarde e os trabalhos aos finais de semana. Uma verdadeira luta!

Dentre os 50 formandos, Dennis era o único negro. E ainda há quem jure que vivemos numa democracia racial. Como? No Brasil, o número de estudantes negros matriculados no ensino superior não ultrapassa a casa dos 4%. Quando falamos dos cursos ligados à área da saúde, como Medicina, Odontologia e Enfermagem os dados são ainda mais perversos. Os afro- brasileiros correspondem a 0,8 e 1% do corpo discente. Se por um lado a maioria das vagas nas Universidades são ocupadas por brancos, filhos da classe média e oriundos de escolas particulares, no lado oposto está a juventude negra: grande parte é proveniente de famílias pobres, ingressam em cursos considerados “de menor prestígio social”, em horário noturno, e assim como o Dennis, em instituições privadas.

Durante a colação de grau, Dennis chorava copiosamente. Parecia uma criança. O lenço não foi suficiente para conter as lágrimas. Restou esquecer as regras de etiqueta e usar as mãos para secar o rosto. Enquanto isso eu questionava o porquê daquele choro que parecia não ter fim.

Será que ele se lembrou dos que disseram que a faculdade não é para preto? Talvez tenha se recordado da professora que, “sem intenção de ofender”, afirmou ter dificuldades de enxergá-lo após uma queda de luz. Pode ser que tenha vindo em mente o amigo que, ao vê-lo vestido de branco, perguntou em tom de deboche se ele era pai de santo. Não. Acho que ele pensou na paciente que não aceitou ser atendida por um negro.

Minhas tentativas de descobrir o motivo de tantas lágrimas foram em vão. Acredito que nunca saberei. “Só quem sente, sabe”. Contudo, essas suposições evidenciam o caráter ardiloso e dissimulado do racismo brasileiro. Ao ascender socialmente, o negro não está imune à discriminação racial. Dessa forma, fica claro que associar o preconceito como resultado das diferenças entre classes sociais não passa de mera falácia. No imaginário popular, homens e mulheres negras tem um lugar pré-estabelecido na sociedade, e quando deixam de ocupar papéis subalternos, são vistos com desconfiança ou como sujeitos “fora do lugar”. Exemplos não faltam.

Para ficar somente na esfera pública, relembro a morte de Douglas Rodrigues, assassinado por um policial militar em São Paulo no final de outubro. Segundo a mãe, antes de morrer, o garoto de 17 anos perguntou ao seu algoz: “Por que o senhor atirou em mim?”. Durante o seu mandato de vice-prefeito, Edvaldo Brito foi parado diversas vezes em blitz Os policiais soteropolitanos precisavam saber o que um negro fazia num carro oficial.

Mas nem tudo está perdido. Desde a segunda metade dos anos 90, com a participação ativa do movimento negro, presenciamos um crescente debate em torno da necessidade de ações afirmativas que propiciem a inclusão e a permanência de afro-descendentes em Universidades, principalmente nas públicas. A aprovação do sistema de cotas, a implementação da Lei 10.639/ 03, a criação de órgãos como a SEPPIR e o aumento expressivo de Núcleos de Estudos sobre a população negra nos campos das Ciências Humanas e Sociais fazem parte desse momento histórico. Embora não tenha agradado a todos, a sanção do Estatuto da Igualdade Racial em 2010 também deve ser vista como um sinal de novos tempos.

Na formatura, Dennis era exceção. Como o Ariano Suassuna, sou uma “realista esperançosa”, e por isso creio que um dia finalmente alcançaremos a democratização do acesso ao ensino superior. Caminhamos lentamente para que isso aconteça, bem sei. Importa é que os passos sejam firmes, cheios de esperança e coragem.

Dennis é um vencedor, assim como tantos jovens que entenderam que poderiam alçar voos mais altos e romper com processo de invisibilidade e marginalização a que foi impelida a população negra desde que pisou em solo brasileiro. É chegada a hora de enxugar as lágrimas e exigir o que nos é de direito: a igualdade de participação e de escolha.

Parabéns, Dennico!

Texto publicado originalmente no blog Viomundo.