Por Paula para as Blogueiras Negras

São números de guerra: dizem. Ouço análises, leio cartazes e me pergunto: quem são os números? Mas pra responder não é preciso muita reflexão, olho ao meu redor e vejo que nós somos os números. Nós: jovens, pretxs, das quebradas. Nós fomos mais de 1 Milhão de vezes assassinados nos ultimos 30 anos, nossos homicídios somam 127% de aumento. É, o mundo é mesmo diferente da ponte pra cá e o Brasil, com seus 30 anos de redemocratização, continua a nos enfiar goela a baixo a mesma política racista, sexista e sanguinária.

A solução encontrada pelo Governo do Estado da Bahia foi o de sempre: vamos militarizar a polícia, trocar o calibre .38 pelo .40, mas agora eles nos dizem que querem fazer um Pacto. Um Pacto pela Vida. Contudo precisam: 1- Invadir nossas comunidades; 2- Implantar Bases Comunitárias de Segurança (BCS ou UPP baiana); 3- Controlar as nossas vidas. Simples, não? Mas vamos um pouco além. Quais comunidades eles vão escolher como prioritárias?

Instalação da Base Comunitária de Segurança no Calabar Na foto:  Foto: Elói Corrêa/AGECOM

Instalação da Base Comunitária de Segurança no Calabar
Na foto:
Foto: Elói Corrêa/AGECOM

Vejamos, em 2011 o primeiro território invadido foi o Calabar-Alto das Pombas, logo depois veio o Complexo do Nordeste (Nordeste de Amaralina, Santa Cruz e Chapada do Rio Vermelho); em 2012 Fazenda Coutos, Itinga, Bairro da Paz e Rio Sena; e em 2013, foi a vez do São Caetano.[1]

O ano de 2011 foi importantíssimo para a consolidação desse modelo de policiamento – que de comunitário só tem o adjetivo. As Bases Comunitárias de Segurança do Calabar-Alto das Pombas e do Nordeste precisavam se mostrar eficazes. Algumas receitas foram copiadas das UPPs cariocas, mas a principal era: As mulheres precisam ocupar os cargos de chefia das BCS e além disso, precisam ser a cara das Bases. Revestido do molho feminino, a operação policial deu prosseguimento.

Nesses mais de 2 anos de Base, temos uma situação extremamente delicada instaurada e quem continua sofrendo somos nós. Nossos jovens pretos estão morrendo cada dia mais. Os números de homicídios baixaram, mas aumentaram os autos de resistência. A resistência seguida de morte (ou auto de resistência) tem crescido consideravelmente dentro das comunidades e no seu entorno. É notório que esse instrumento, utilizado pela ditadura militar, visa exterminar aqueles julgados como inimigos.

De Janeiro de 2010 a junho de 2012, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina,  2.882 pessoas foram mortas em ações registradas como “autos de resistência”. Aqui na Bahia, a polícia mata um por dia – taxa maior que em Rio e em São Paulo. Segundo o Jornal A Tarde: “Em 2012, o número de pessoas que morreram em alegados confrontos com a polícia na Bahia é 58,9% maior que no ano passado.”. Segundo esse mesmo jornal [2] no ano de 2012, em 244 dias, foram registrados 267 óbitos de pessoas envolvidas em supostos confrontos com policiais.

De um lado nos matam, do outro violentam. Essa é a cena de uma cidade em guerra, e numa guerra silenciosa as mulheres pretas tem seu corpo invadido. Setembro de 2013, no Nordeste de Amaralina do Menino Joel em autodeclarada “abordagem policial de rotina” um PM que se autonomeava Juca e mantinha sua identificação coberta passou a mão no corpo de uma jovem que estava tomando uma cerveja na esquina. Todas nós sabemos que para uma revista desse tipo é necessária a presença de uma Policial Militar Feminina, mas nas guerras, não existem leis, o Estado é de exceção e os gritos ecoam na normalidade.

Outro caso aconteceu no Calabar, este caso será narrado[3] pela vítima: “Eu estava com os amigos e família aqui na rua, perto do bomba, em um churrasco. Aí, pró, eles chegaram – e como ninguém gosta de polícia mesmo – os meninos saíram correndo e eu fiquei, que não devo nada a ninguém. Eles chegaram, derrubaram o meu copo de cerveja, disseram que aqui não é lugar de bebida e me deram um tapa. Perguntaram quem tinha corrido e, como eu não falei, me deram outro tapa. Minha mãe viu e correu pra perto de mim, foi quando eles me chamaram de gostosa, pegaram no meu peito e abaixaram minha saia. Fiquei de calcinha… (choro).”

Esses são os casos que estão inseridos no contexto da Base Comunitária de Segurança. Se formos falar das mulheres pretas que foram agredidas nos últimos meses faltarão dedos… Luizas, Sissas, Paulas, Julianas, Isabelas, Palomas e Annas. Cada uma com uma história de vida, todas elas marcadas para morrer. Nos auto de resistência, na violência sexista… A pergunta que fica no ar: Que Pacto pela Vida querem nos empurrar? O Pacto em que eles nos batem, nos matam, somem com os moradores de rua, nos estupram e nós dizemos sim? Pois esse Pacto não é por nós, ao contrário é pelo nosso contínuo genocídio, pelo nosso extermínio.

Que Exu, senhor das cidades e dos caminhos nos proteja e que Oyá nos ilumine no entardecer. Se estamos vivas é pra gritar, sambar, lutar e desabafar… Nós mulheres pretas sabemos qual o lugar querem nos enfiar e nós, como sábias guerreiras, continuaremos a dizer: não (!), porque o nosso “lugar de poder  é escuro, é ancestral, e é profundo.  (Audre Lorde)”.



[1] BCS instaladas em Salvador e Região Metropolitana.

[2]O número é da Coordenação de Documentação e Estatística Policial (Cedep), órgão da Secretaria da Segurança Pública (SSP).

[3] Entrevista com a vítima.