Por Mariana Assis dos Santos para as Blogueiras Negras 

Há muito tempo uma imagem não me choca e magoa tanto quanto essa das candidatas a mulata Globeleza, exibidas pela Sharon Menezes. Mil questões polêmicas e dolorosas vêm à tona diante de uma cena tão agressiva e violenta. A primeira delas tem a ver com o nosso lugar nas grandes mídias e a construção de nossa auto-estima. A luta pela visibilidade negra é totalmente legítima e urgente, porém precisamos nos questionar que lugar queremos ocupar? Ver mulheres expondo seus corpos para avaliação é algo bastante comum e faz parte da luta feminista combater esse tipo de “hábito” da nossa mídia. Isso já seria motivo suficiente para execrarmos essa situação, porém há um agravante, que também coloca mais lenha na fogueira do feminismo branco e negro, expor mulheres negras dessa forma não nos ofende apenas por nos sentir meros corpos esvaziados e sem personalidade, essa situação nos remete a um passado recente quando éramos, de fato, coisas, criaturas sem alma, cuja única função era reproduzir e dar prazer aos nossos algozes.

SHERON_BN

Créditos: Instagram @sheronmenezxes

Corpos sem rosto, apenas bundas e coxas bem torneadas, foi a isso que reduziram as nossas bailarinas, as bailarinas do samba, artistas da sensualidade e do gingado ancestral e sagrado trazido de África, marcado em nosso DNA. Era esse talento que deveria ser avaliado, sua dança, a força de seus corpos, a precisão dos movimento perfeitos que só uma boa passista consegue alcançar por ter a paixão do samba correndo nas veias, na ponta do pé. Aqueles que conseguem olhar a nossa cultura com os olhos apaixonados de quem realmente incorporou sua ancestralidade negra, já deve ter ficado maravilhado com a beleza, destreza e talento dessas mulheres, dançarinas formadas nas rodas de samba dos Becos e vielas; guetos e favelas da vida, cujos quadris, pernas e pés são instrumentos que mantêm vivo nosso amor pela dança, nossos laços com África.

O corpo da mulher negra quando dança torna-se divino, mas em nossa sociedade racista, com sua limitada dicotomia entre sagrado e profano não é possível pensar em divindades sensuais e belas, com desejos e defeitos; em rituais sagrados e alegres, onde as pessoas se divertem, dançam, cantam, amam e odeiam; isso jamais seria respeitado da forma que deveria. Por isso mesmo esses corpos serão sempre apenas corpos, apenas carne, apenas um deleite para os olhos e os desejos de homens brancos que continuam escolhendo negrinhas para aquecer suas noites solitárias, negrinhas que rebolam e requebram para seduzí-lo, afinal estão ali pra isso: agradar seus senhores e enlouquecer suas senhoras de ciúmes.

Somos eternas Negras Fulô e vemos a ordem escravocrata ser reproduzida em cada comentário grosseiro e despeitado quanto às nossas belas passistas, quando ouvimos homens brancos encherem a boca para falar de seus casos amorosos com mulheres negras e suas infinitas habilidades sexuais, ao mesmo tempo que ostentam suas boas senhoras brancas ao lado; também quando vemos nossos irmãos patrocinarem o vilão. Foi doloroso ver a Sheron Menezes protagonizando a palhaçada, por sua importância para nossas lutas, por ser uma atriz negra, presente em diversas produções da maior emissora de televisão do país, ostentando uma belíssima cabeleira totalmente natural, na lamentável imagem faz as vezes do comerciante de escravos, comercializando suas irmãs como peças de carne.

As mulatas, que se apropriaram da denominação terrível e transformaram em um símbolo de sua arte, estão ali expostas como as criaturas sem alma em que tentaram transformar nossos ancestrais no passado, estão ali vendo seu talento ser vulgarizado, sua cultura ser reduzida à farra vulgar da dominação branca incapaz de entender a importância do nosso carnaval, a intensidade de nossa música e dança, o que há de sagrado em nossa folia e, consequentemente, em nossos corpos, sensuais, envolventes e lindos, mas que não é pro seu bico!!!

  • Vinicius

    Quero acreditar que foi por ignorância da Sharon Menezes também (apesar de acreditar tb em força contratual, mas enfim). Por muito tempo fui cegado por essa maldição… infelizmente somos bombardeados desde crianças com preconceitos e esteriótipos, ainda mais no meu caso, homem cisgenero, heterossexual, branco. E a coisa é tão naturalizada que não vemos os absurdos da nossa sociedade. Eu só tenho a agradecer, pois foi através da voz de vocês, feministas, dos movimentos negros, lgbts, que pude começar a me livrar dessa cegueira. E espero que a voz de vocês possam alcançar mais gente. Inclusive a Sharon…

  • Alguma lembrança dos mercados negreiros???? Não vejo diferença alguma!!!!!

  • Sheyla de Paula

    Quando vi a foto lembrei do comércio de Negros no Brasil colônia. Enquanto não conscientizarmos do racismo velado em nosso País, continuaremos ver este tipo de foto com pessoas que se dizem esclarecidas e ainda por cima achando lindo e maravilhoso. Somos muito mais que meras nádegas! Parabéns pelo texto!

  • Arnaldo Netto

    Muito bom. Parabenizo a autora por contribuir um pouco para essa ordinária luta. Todavia quando ela diz: “marcado em nosso DNA”. Não concordo, visto toda a hermenêutica que se pode abrir quando atribuímos qualidades inerentes a um DNA ou melhor a uma “raça”. Dai ficamos a um passo de qualificarmos determinada “raça” como superior ou inferior( foram assim que fizeram, e que ainda fazem). Portando para evitar o problema dever-se-ia substituir o termos por cultura.

  • Amei o texto… não vejo problema algum nas maravilhosas passistas e seus rebolados, corpos expostos e beleza. A fonte do problema está na forma limitada como essa sensualidade é encarada. Somos muito mais que isso e já passou da hora do mundo saber!

  • julia

    texto muito bom, a forma com que compara um fato atual, com nossas raízes. A exposição do negro que muitas vezes ultrapassa a barreira da admiração.
    Parabéns!!!

  • nossa tomei uma aula de negritude aqui nesse blog, nossa chego a estar emocionado, mais sou homem e sofro desse problema com meus cabelos, meu miniblack power que estava pensando em cortalos ou relaxalos e NÃO FAREI MAIS ISSO

    • Mariana Santos de Assis

      Isso aí Oswaldo, a ideia é essa mesmo, aos poucos conseguimos libertar nosso povo 😉

  • Cássia Simone Pereira

    É lamentável este tipo de imagem. Penso eu que, enquanto não tivermos mais espaços para conhecermos e discutirmos as nossas ancestralidades, a beleza e a seriedade que foi a história do samba e das passistas teremos esta banalização da sexualidade. A competitividade entre estas mulheres estimuladas pela beleza inalcançável e uma aparição na mídia as tornam imunes a pensamentos críticos, com relação ao seu papel em meio a uma elite que as enxergam como “mercadoria sexual” principalmente em períodos carnavalescos.

  • Maravilhoso texto, só faço o adendo de que não há como julgar atitude da Sharon, sem pensar que ela também é oprimida enquanto mulher negra que alça uma posição importante no mercado das artes cênicas e entretenimento, e sim seria difícil para ela dizer não para a foto e rejeitar ser jurada do concurso, e ela também vive do seu corpo e beleza, e talvez não consiga ver defeito em expor o corpo das suas irmãs, não sei o quanto essas questões tocam a Sharon Menezes, nunca a ouvi falar sobre, mas com toda a sororidade do mundo imagino que ela fez algo que não julgou ser tão pejorativo para as mulheres negras como foi de fato. E sou negra, de uma família toda negra, e tirando eu, todos aqui em casa amaram o concurso e ficaram muito satisfeitos com a menina escolhida, eu falei que também fiquei, mas que era triste que somente para este fim a mulher negra tivesse espaço de representação, eles concordaram, mas não ficaram exatamente tocados e indignados, pq querendo ou não é um espaço de representação, e as pessoas gostam de se exergar nestes espaços midiáticos de alguma forma. É uma luta bem difícil, e que exige habilidade na hora da crítica.

  • vagner

    Realmente é muito triste. Posso até está enganado, mas essa foto lembra muito o acontecia com nossos antepassados escravizados quando era vendidos. Só que agora de uma forma diferente.

  • Laís Alves

    Uma pessoa inteira reduzida à bunda, porque aparentemente é a única coisa que temos a oferecer.

    Belíssimo texto. Quanto à Sheron, que acreditar que foi um ato impensado.

  • Muito bom o texto. Parabéns!

  • Realmente essa foto é chocante, para quem entende a luta pela boa representatividade de negros e negras na mídia. O pior são as pessoas que vivem sob a sabedoria do “achismo” e dizem que somos chatos por “ver racismo em tudo”.