Em um processo de observação e despertar para a análise crítica que se dá após os primeiros contatos com a ideologia sistematizada que o seguimento negro tem procurado difundir, emerge gradativamente a percepção, ainda que muito frágil e sem grande poder consolidado pelo embasamento teórico, de que o momento vivenciado na atualidade pelas populações de periferia, foi construído historicamente, através de uma formação cultural, educacional e psico-social instrumentalizada por valores étnicos pertencente ao mundo ocidental.

As comunidades de periferia foram produzidas e alimentadas pela falta de oportunidades para uma numerosa população que se viu no pós abolição vítima da ausência de política social que a acolhesse e reconhecesse como participante essencial do processo de desenvolvimento do país.

As teorias de uma supremacia racial surgiam efervescentes e abasteciam as reservas ideológicas das principais mentalidades políticas que controlavam o país no início do século XX. Havia também os fazendeiros, ávidos por serem ressarcidos por seus prejuízos e perdas em função da Lei de 13 de maio de 1888. Complementando o cenário social da época, fazendeiros e políticos estabeleciam com muita harmonia as diretrizes que seriam seguidas por todos.

Todos os ex-escravos e seus descendentes não tinham importância e não eram mais necessários para o desenvolvimento que se queria alcançar em futuro próximo para a República recém-nascida.

Dentro desse contexto bastante apropriado é que se alicerçou e sedimentou a imagem do estado brasileiro tal e qual conhecemos nos dias de hoje, onde ainda existem os clãs político, econômico e cultural, todos compostos por personagens oriundos das mesmas árvores genéticas daqueles fazendeiros, depois coronéis e generais que estiveram por todos esses anos determinando quem poderia ou não ocupar os espaços mais privilegiados da sociedade brasileira.

Como principal aliado na construção dessa desigualdade e desproporção social foram criados por eles mesmos os mecanismos de informação e formação da identidade brasileira: jornais, emissoras de rádio e tv, empresas e agências de publicidade, editoras de livros e revistas, sempre funcionando como o difusor de suas ideologias, estereótipos e subjetividades sobre o comportamento humano que desde Macunaíma tem se limitado a identificar o ser negro distanciado do ideal de humanidade e divindade.

Os impactos desastrosos dessa desproporção social para a população negra vêm sendo denunciados, estudados e pesquisados. Antes por eles, ou seja, pelos próprios membros daquela elite ideológica e acadêmica que estruturou seu poder através da opressão intelectual e cultural do enorme contingente de descendentes de negros e indígenas, cujos ascendentes haviam sido escravizados em solo brasileiro. Agora, também por pessoas que emergem das periferias de todas as partes em busca de sua própria identidade étnica e social, para rediscutirem a distribuição dos papéis na ocupação de espaços em todos os níveis.

Nesse olhar criterioso e realista, há que se ressaltar o papel dos movimentos sociais como espaço de articulação e produção de conhecimento empírico, organizando e impulsionando ações que ajudavam a entender a perversidade da estratégia do dominador ao destruir a identidade étnica, auto-estima, confiança e senso de fraternidade da população afro-descendente, dividindo-a por cores de pele e prestigiando aqueles que ostentavam menor grau de pigmentação.

Assim, é possível identificar um sentimento de inferioridade racial, permeando os relacionamentos sociais, que foi implantado sistematicamente na grande massa populacional periférica, através dos aparelhos ideológicos do estado brasileiro, ao longo de mais de um século no pós-abolição e que tem sido o principal inimigo da nação que se pretende consolidar, e em busca do desenvolvimento econômico e social.

Chamar alguém de moreno e achar que está agradando, porque também se acha que o negro vai se ofender se for chamado em alusão ao seu tom de pele é parte do imaginário popular no Brasil. O mesmo imaginário que acredita que para ser bonito é preciso ter pele, cabelos e olhos claros, mesmo em um país tropical onde a própria condição climática favorece a outro tipo físico. A criança negra aprende desde cedo que seu cabelo é duro, seu bumbum é grande demais, seu suor é muito forte e isto faz com que cheire mal. Aprende que apesar de em sua escola existirem muitas crianças iguais a ela, as melhores oportunidades e destaques serão dados e oferecidos as crianças mais clarinhas. A menina branca parece uma princesa, e menino branco um príncipe.

Isto não é apenas um despreparo da professora, mas parte do processo deflagrado há muitos anos de que este país não poderia ser fruto de uma mistura de raças. Todo o aparato existente a serviço da mídia também é utilizado para reforçar os estereótipos sobre a pessoa negra. Em geral o público simplesmente aceita como verdadeiro tudo o que é trazido, mudando seus hábitos, costumes, comportamentos e referenciais.

As mulheres negras têm sido ao longo da história do Brasil transformadas em diferentes tipos de alimento a selvageria e barbárie dos desejos sexuais dos colonizadores, muitas vezes criando a aparência de valorização simbólica de corpo escultural e beleza tipicamente brasileira, mas que na realidade funciona apenas em efemérides ligadas ao carnaval ou aos apelos de material publicitário para seduzir estrangeiros para um tipo específico de recorte turístico.

Entre os variados estereótipos que lhe foram impostos encontra-se o da cozinheira gorda e espirituosa, sempre a buscar carinho e compreensão no excesso de zelo com seus patrões.
As lutas, clamores e buscas permanentes por novos diálogos e entendimentos desse complexo contexto histórico, das artimanhas e estratégias construídas meticulosamente para nos alvejar e submeter têm surtido efeito em uma aproximação social e solidária dos grupos atingidos e uma mente crítica vem de exercitando como forma de interromper essa trajetória que ataca cada brasileira e brasileiro, nos lugares mais recônditos e em sua mais íntima situação, sem qualquer constrangimento e com muita competência.

Alguns desses estratagemas usados permanentemente podem ser relembrados como forma de ilustrar o pensamento teórico. No ano de 2007, um conhecido programa de televisão de elevada audiência aos domingos apresentou vários atletas, mulheres e homens, para serem escolhidos musas e musos do PAN RIO 2007; nenhum negro.

Lá se vão quase 7 anos de massacres midiáticos a identidade de negras e indígenas no país e a história se repete em Brasil de copa do mundo, com a escolha absurda do casal para realizar o sorteio da copa do mundo. A escolha da FIFA mais uma vez determinada pelo ponto de vista de quem detém o controle da mass media nacional quis mostrar a imagem de uma Brasil colonizado e branco, porque segundo o conceito da grande mídia negro não é bonito, não tem charme e nem serve como referencial de beleza e principalmente de consumo e sucesso.

Os padrões são estabelecidos a partir de um comando estratégico que diz o que vestir, onde ir, como falar, com quem falar, quem é importante ou não é e por aí vai. É evidente que essa construção depende de cada grupo social, mas cada vez mais em um mundo globalizado as comunidades são aproximadas. O filme “Diamante de Sangue” mostrou os meninos soldados ouvindo rap e o filme “quem quer ser um milionário” os grandes telemarketings espalhados pelo terceiro mundo ali representados pela Índia. Mas, por outro lado mostrou também que ainda sobrevive nos oprimidos a visão de família e a busca incansável para alcançar seus objetivos.

Quando são demonstrados e apontados os pontos controversos de um trabalho supostamente ingênuo, de qualquer origem dentro da perspectiva midiática, como instrumento de disseminação de ideologias ou conceitos culturais da elite ocidental dominante, cresce um sentimento de revolta e ao mesmo tempo surgem teorias acerca das formas possíveis para a elaboração e implementação de novos paradigmas.

A revolução de resgate cultural, discreta, mas penetrante, que resulta dos conceitos ideológicos trazidos dos movimentos pelos direitos civis na América, assumiram identidade própria e contemporânea, tendo como base teórica o produto do conhecimento nascido de seu próprio desenvolvimento no processo histórico brasileiro.

O movimento negro e suas campanhas publicitárias do “100% negro”, “Negro é lindo” “Eu amo meu cabelo” e outras alusivas aos nosso valores estéticos contribuíram em um primeiro momento para o aparecimento de ambientes saudáveis onde proliferaram as novas idéias que o seguimento negro intelectualizado, agente de produção de conhecimento, está trazendo para a pauta de debates.

Por outro lado, uma onda de reafricanização vem tomando conta do Brasil, inclusive com o retorno a origens religiosas e uma reimersão no contexto das comunidades de matriz africana, onde as mulheres ainda exercem com mais vitalidade e permanência os comandos e lideranças, ensinando a lidar com as as diferenças, a interpretá-las e vivencia-las fortalecendo e recuperando as energias e identidades perdidas. O processo de valorização das raízes de tradições determinados pelas grandes matriarcas do candomblé no Brasil estão obrigado o movimento intolerante das igrejas neopentecostais a dar um passo. A força que vem do Asé e que tem transformado as concepções e diálogos militantes em grandes entendimentos. Este sim, é o resultado de um olhar mais profundo para dentro de nossa ancestralidade, para dentro de nossas raízes, para toda a nossa história e aprendizado.

Imagens – Afrolagos Produções e Eventos.