Todo ano, na mesma época, a maioria de nós se une no sentimento coletivo de que algo novo se aproxima. Seremos novas pessoas, realizaremos sonhos, venceremos, seremos mais felizes, é como se o passado (que por acaso foi ontem) pudesse ser colocado em uma caixinha e guardado para todo sempre, de preferencia longe da nossa vista, mesmo que na nossa caixa existam muitas coisas boas, nossa tendência é encarar que o passado está no lugar dele, lá atrás.

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Em 2013 seguimos no caminho inverso, o que mais fizemos por aqui foi remexer nas caixas do passado, nele encontramos todo um ciclo de dores, dissabores e descobertas. Reavivamos nossa memória para trazer a tona marcas de um passado nada confortável.  Mulheres negras falando sobre suas experiências de vida, sobre a infância e as piadas doloridas, sobre os amores e desalentos trazidos pela vida, histórias de violência, de desrespeito, de apagamento, de magoa, de dor.  Juntas demos voz as nossas tataravós, bisas, avós, mães, tias, silenciadas anteriormente seja nos porões dos navios negreiros, nas senzalas, nas cozinhas das famílias brancas ou nos subempregos que nem de longe constituem uma escolha.

Trouxemos o passado para debater o presente, para proteger o futuro e também para mostrar o tamanho da nossa luta, de tudo o que já foi feito por todas as mulheres que vieram antes de nós. Temos muita história para contar e temos orgulho de tudo àquilo que conquistamos até aqui. Ainda temos um longo caminho para percorrer e continuamos em luta, nos formatos que conhecemos, marchando, ostentando blacks como se fossem coroas, carregando bandeiras ou diante do papel em branco (no nosso caso da tela).

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Que neste novo ano, que começou a pouco, não nos ofereçam bananas para nos calarmos, que não seja aceitável a criação de espaços abertos para a elevação e deturpação do racismo, do machismo, da homofobia, transfobia e gordofobia. Que ninguém possa ouvir e ficar indiferente a quem utiliza sua ignorância para proferir os velhos ditados dizendo que algo  é ” serviço de preto”, que “preto quando não caga na entrada caga na saída”, que ninguém seja identificado como “negro de alma branca” ou “mulata do tipo exportação” , que haja entendimento de que “ser da família” não é um status que precisamos como se ainda fossemos objetos herdados e que todos saibam que temos nossas próprias famílias.

Que neste novo ano cada coração se compadeça e possa entender que não há graça em uma piada que ofende, que pessoas não são caricaturas imaginadas pelo outro.

Que no novo ano o respeito prevaleça e o entendimento de que um apelido maldoso nunca é só um apelido maldoso. Que nomes e pronomes definem quem somos para nós mesmos e que é a essência do respeito chamar as pessoas pelo nome pelo qual ela se identifica independente de sua lógica pessoal.

Que neste novo ano não exista mais espaço na mídia para danças ofensivas disfarçadas de “Já estava gravado” ou “ Eu não notei”.  Que nossa inteligência pare de ser subestimada e que as pessoas entendam que da mesma maneira que não precisamos que nos ensinem a fazer Amor e Sexo, nós não caímos em armadilhas arquitetadas para dar ibope a quem não tem nenhum valor para nós.  E que “era uma ironia” não funciona mais nem com as crianças que tão jovens diferenciam ironia, sarcasmo e a realidade do que queremos dizer.

Que o novo ano traga novas letras de musica, que nelas não sejamos apenas plantas de nome com duplo sentido, ou que cantem apenas partes dos nossos corpos , somos mulheres inteiras, mas se for inevitável tocar no assunto que cantem cada parte de nós e que elas sejam “O PODER”.

Que no novo ano exista a lembrança de que sororidade não é um conceito seletivo, que é necessário combater privilégios e desconstruí-los. Que a velha máxima de que não há hierarquia de opressões seja lembrada sempre.

Que no novo ano a cor da pele não seja mais requisito para levar o individuo a morte, as mulheres a sofrerem todo tipo de violência e as crianças as lágrimas mais doloridas e jamais esquecidas.

Que neste novo ano outras mulheres negras possam se juntar a este grupo que juntas produziram 224 textos em 10 meses. Que a escrita possa ser arma para conquistar a autoestima, para a libertação, para a aceitação. Que nossa história possa ser contada por nós mesmas , precisamos falar sobre nós.

Que no novo ano a lembrança do nosso passado nos permita construir um futuro com mais igualdade.

São desejos utópicos, mas o que é a vida se não um emaranhado de sonhos que nos dá garra para seguir em frente? Fazemos o que fazemos porque acreditamos em dias melhores.

Que neste novo ano nos lembremos de não ser o ditado popular de ninguém, simplesmente porque somos poesia.

Que venha 2014 com todas as suas surpresas e desafios, nos encontrará preparadas !