Se aproxima mais um 29 de janeiro, mais um Dia de Visibilidade Trans, e como sempre se faz urgente essa fala, em todos os dias do ano, em todos os espaços de luta. Cada um que sobe no púlpito, seja por que motivo for, deveria dedicar alguns minutos dos seus holofotes para colocar em pauta as demandas trans*.

Há tanto que se falar sobre o tema:

  • a violência física, que mata centenas de transexuais e travestis a cada ano no país, número que não temos condições de dimensionar realmente, devido à subnotificação dos casos e falta de meios oficiais e confiáveis para controlar esse dado
  • a violência institucional a que xs trans* são submetidos diariamente, quando se insiste no não-uso do nome social, no desrespeito na adequação das falas de acordo com gênero declarado pelo próprio sujeito, no inacesso aos banheiros públicos de acordo com a identidade de gênero, entre muitos e diferentes motivos
  • a violência psicológica, ao serem ostensivamente xingados e agredidos verbalmente apenas por andar na rua, e por serem sempre motivo de chacota nos meios de comunicação e espaços públicos
  • a insistente patologização das identidades trans*, que permanece figurando no DSM mesmo após recende reedição, dizendo que a transexualismo (sic) é distúrbio psiquiátrico passível de tratamento e correção cirúrgica, assim como o foi com a homossexualidade até não muito tempo atrás
  • o inacesso a empregos formais e a consequente necessidade de buscar  a prostituição como único meio de sobrevivência, já que, para uma empresa, não é interessante ter uma travesti em seu quadro de funcionários enquanto a vida segue batendo na porta. A barriga continua roncando de fome e o aluguel continua vencendo mesmo quando não se tem com o que ganhar dinheiro a partir dos meios tradicionais
  • o quanto os relacionamentos afetivos são seara a que muitas vezes as pessoas trans* são obrigadas a deixar em segundo plano, por terem seus corpos e existências mitificados e hipersexualizados, relegados a espaços privados de fetiche e parafilia e não serem reconhecidos como indivíduos passíveis de emoções e sentimentos

Para qualquer pessoa cisgênera privilegiada, impossível conseguir elencar todas as problemáticas que atravessam a vida dxs transgênerxs diariamente e que dificultam sua vivência nesse mundo que normalmente economiza nas gentilezas a todos que não fazem parte do padrão hegemônico “homem-branco-cis-heterossexual-magro-ocidental-classe média-cristão”.

Todos nós somos culpados pela ausência de políticas públicas que afiancem os direitos constitucionais aos cidadãos trans* do nosso país, tão cobertos pelas garantias da Constituição Federal quanto qualquer cidadão. Todos nós somos culpados pela crescente e ostensiva violência a que essas pessoas são diariamente expostas, e pelo sofrimento causado em suas vidas. Somos todos nós avalistas dessa situação. Ser transgênero não é seguro em uma sociedade que não cuida dos seus, que define um padrão e marginaliza todos que não se enquadram nele. E a nós cabe essa responsabilidade porque somos coniventes, somos testemunhas passivas que pouco fazem em busca soluções.

Para a militância feminista, é um desafio diário ser mais intersecional, incluir as vozes das diversas mulheres que constituem esse coletivo tão diverso, as trans inclusas, tomando o cuidado para não protagonizar um movimento ao qual não se pertence. Dar voz sem roubar a fala.

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As Blogueiras Negras juntam sua voz mais uma vez em busca de uma sociedade livre de todas as formas de opressão. Chamamos para a Blogagem Coletiva pelo dia da Visibilidade Trans, de 27 a 31 de janeiro de 2014, convocada pelos blogs Transfeminismo, True Love, Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras.

 

Aqui, entenda porque o uso do asterisco junto da palavra trans* para definir as diversas identidades acolhidas sob esse termo guarda-chuva.