Um pouco antes de mais essa coisa (já escrevi tanto sobre tantas coisas…), peço licença para parafrasear Caco Xavier (cartunista e quadrinista brasileiro) em uma de suas releituras e digo que estou aqui, publicando esse pequeno relato para parar de escrevê-lo, pois assim como o relido Jorge Luis Borges, não aguentava mais escrever e reescrever, revisar e acrescentar… E antes do que vim fazer, devo agradecer ao site Blogueiras Negras, que não me lembro se descobri por acaso ou por indicação de alguém. Esse site me abriu o crânio para milhões de questões para as quais eu nunca havia atentado. Nesse texto, vou citar textos do blog, porque deles bebi e neles me inspirei.

“Desiludida” pelo machismo

“As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”.

Começo esse relato citando nosso “incontestável” gênio Poetinha. Digo que o machismo subjacente a essa supostamente leve e irreverente frase me iludiu durante muitos anos. Explico: apesar da minha autocrítica por vezes dura demais, eu fui uma adolescente bonita. Não bonita para os padrões brasilienses. Não, longe disso. Eu sou preta, e isso dá conta de explicar o que acabei de falar. E por ter sido uma adolescente bonita, “apesar de preta”, eu não me lembrava de qualquer episódio em que reconhecesse ter sofrido racismo. (A verdade é mesmo essa: pelo machismo cruel nosso de cada dia, nós mulheres somos divididas em dicotomias que nos reificam e nos impelem a nos adaptarmos ao elemento do par aceito pelos homens. Do contrário, só nos resta desculpar-nos pela nossa falha).

“Não, nunca sofri preconceito.”

Pelo menos era o que eu tinha pra mim até me deparar com o Blogueiras Negras. Percebi que havia sofrido, e que, dos episódios dos quais me lembrava, mas não dava a importância racista que haviam tido, tinha deles essa percepção por que, além de cega, eu era machista. Vivia a ilusão de que estava confortavelmente protegida e amparada pelo machismo.¹ E eu posso explicar por quê.

Sempre me disseram que eu era bonita: basicamente familiares. Apesar de nunca ter confiado muito nisso, eu fingia que confiava e até que dava certo. Também, sempre ouvi “elogios” do tipo: “nossa… que morena”, “que preta é essa…”, então eu era bonita, oras! Mal sabia eu que esses assédios disfarçados de elogios ERAM SIM comentários racistas, pois me colocavam, como mulher negra, em condição hipersexualizada e reificada, disponível e sempre pronta como objeto de desejo. Azar o meu, Mabia, azar mesmo, já que “eu mal sabia” por que a minha percepção de mim como mulher estava calcada numa visão machista de que para a mulher SER mulher, tinha que ser desejada pelos homens (já pensou ser “a feia” de Vinicius de Moraes???) E o que esses “elogios” eram se não expressão de desejo?

Eu não precisei fazer 18 anos ou começar uma vida sexual ativa para lidar com esses assédios. Cheguei ao cúmulo de passar pelo constrangimento de ouvir de um completo desconhecido claramente ANOS mais velho do que eu, dentro de um elevador, no alto do meu sex-appeal de DOZE ANOS de idade que, “morena já é quente… nesse calor então…”. Mas era exatamente esse tipo de comentário babaca, machista, racista e preconceituoso que me fazia acreditar que, não, eu era desejada e nunca havia sofrido racismo (eu entendia que racismo é violência e esses comentários me pareciam apenas elogiosos).

Muito por isso, quando me lembrava de um episódio em que uma ex-colega do prédio e, na oportunidade, também aluna do mesmo colégio, deixou dentro da caixinha de correio do meu apartamento uma caixa retangular, eu não dava a esse episódio a carga racista que ele tinha. Na caixa, os dizeres “Gabriela 2ª A”, em que o “2ª A” estava riscado de lápis (a bonita ia me entregar a caixa no colégio, mas acho que lembrou que a melhor amiga dela também era negra e resolveu fazer a gracinha às escondidas).

Ah, sim, dentro da caixa? Uma banana! Sim, ela estava super originalmente me chamado de “macaca”. E por que eu dizia que nunca havia sofrido preconceito, mesmo com tendo vivido essa situação tão violenta e explicitamente racista? Porque eu era bonita (e isso me bastava)! Eu não ligava se ela me chamasse de macaca, ou se os meninos da quadra gritassem “dod’s” (de “doméstica”) quando eu passava pra ir à padaria. Para mim, essas manifestações não abalavam a confiança que eu tinha em mim como mulher… Mas apenas porque eu achava que, para ser mulher, eu só tinha que ser agradável aos olhos de alguns homens. E eu era! Mesmo com 11, 12 anos, como disse acima, eu era, E MUITO, agradável aos olhos de alguns homens. Mais velhos, devo reforçar.

Aliás, pra esses mesmos homens, e para as mulheres que me elogiavam também, eu não era uma mulher bonita. Não. Mulher bonita talvez fosse minha prima ou minhas colegas do colégio. Como eu já disse, eu sempre fui uma “morena” bonita. Como se minha raça fosse um porém à minha beleza. E ainda que fosse em razão dela também estaria errado! Chamar atenção porque eu sou preta? Eu sou tão diferente assim porque sou preta? Minha cor é assim tão exótica? Eu moro no Brasil ou na Suécia? Me chamar de morena não é nem de longe uma valorização, uma vez que transforma uma possível rejeição em aceitação, desde que eu seja um objeto exótico. Já ouvi que “pretas tinham um SABOR diferente”… Lógico que na hora eu me senti super envaidecida (“confortável”, com a ilusão de que estava segura e protegida pelo machismo, lembram?), porque não me toquei que estava ali sendo tratada como carne, como Friboi (ou Frivaca, como queiram algumas piadas atuais tão engraçadas… #sqn).

Mas eu nasci aliada ao machismo? Não. Ninguém nasce assim. Antes eu era até bem crítica. Eu posso ir até onde minha memória consegue se lembrar de quando eu era criança e dizer que nem sempre minha visão foi assim esquisita. Ela foi moldada por uma concepção machista não só de mulher, mas de ser humano mesmo. Eu sentia calafrios quando alguém, mecânica e originalmente, completava com um infame “cravo e canela?” quando eu respondia que meu nome era Gabriela. A parte de mim que se encantava momentaneamente por ser comparada a uma personagem de novela sorria e dizia, meio sem graça, “sim!”.

A parte de mim que rejeitava ser associada a um personagem tão sensual sentia vergonha e raiva. Gente, eu era uma criança! Qual era a dificuldade em perceber o quão sem noção era me comparar (ainda que indiretamente, de brincadeira, alusivamente, o que for!) à… putz… à Gabriela do Jorge Amado??? Ou seja, eu tive que lidar desde muito cedo com a questão da hipersexualização e reificação do corpo negro feminino.

Não que agora eu seja tolerante com essa piada. Mas hoje consigo responder, com o mesmo sorriso: “Não! Só Gabriela mesmo”. Que me achem sexy como a Sônia Braga em seus tempos áureos, e que eu me sinta até envaidecida se hoje me perguntam isso, mas trauma é trauma.

Os anos se passaram (e eu continuava cegueta) e a vida me trouxe muitos encontros valiosíssimos. Encontros que hoje vão me moldando e abrindo meus olhos pra mim, pra quem eu sou, e pra como eu sou igual a tantos outros que não tiveram o azar de se sentirem “salvos”, e estão desde sempre lutando contra o machismo, o racismo e o preconceito. Mas o azar mesmo, por favor, sempre foi o meu, que me salvei – de verdade – só tarde, só agora.

1 – Nota: A autora se refere ao fato de que mulheres, embora se incomodem e se sintam violentadas pelo assédio machista, são convencidas a acharem que assédio, em vez de violência, é elogio, e deve ser encarado como sinal de que se está sendo notada e bem avaliada por homens, de forma que, a sociedade patriarcal coloca que a avaliação dos mesmos é fundamental e a mulher existe a partir desse olhar. Tal crença forçada pelas pessoas às mulheres, principalmente quando o assédio começa, geralmente no inicio da puberdade, faz com que as mesmas tentem inibir para si mesmas o quanto se sentem violentadas e incomodadas pelo assédio e pelo machismo de forma geral. É a naturalização do machismo forçada goela abaixo.

  • Dany

    Isso me lembrou de outro fato. Quando ficava com homens, há muito tempo, ao sair de uma balada escutei algo como “aquela ‘baianinha’ ali até que é bonitinha…” o termo “baianinha” só poderia ser pelo fato de eu ser negra, pois não vi nenhuma outra menina negra nas proximidades.

    • Gabi Porfírio

      Eu vou além e chamo atenção para o ”até que é bonitinha”, como se sua cor, ou sua naturalidade, fosse um porém à sua beleza. Obrigada pelo comentário, flor!

  • Natália

    Esse texto em parte até parece eu falando =/
    Eu sabia que sofria e sofreria racismo, mas também só vindo aqui fui percebendo o quanto e encontrei um tanto de apoio…
    Assim como a autora, eu também era considerada uma “morena bonita” desde a pré-adolescência e me enganava com esse tipo de “elogios” e olhares. E, também, normalmente por homens mais velhos. E sempre detestei o assédio, sentia-me sim constrangida e violentada, sem o direito de ir e vir sem ser considerada ‘disponível’. É uma covardia fazer isso com uma menina de 12, 14 anos que pouco tem noção das coisas. Até hoje, quando vejo construções, bares ou homens em grupo, costumo atravessar a rua, pois às vezes parece que certos idiotas acham que ‘passamos na frente deles “para” ouvir gracejos’.
    Sou mulata e os colegas de sala olhavam bastante para o meu corpo (o qual eu sempre preferi vestir, diga-se de passagem), mas por acaso jamais me consideraram como uma opção para ficar e menos ainda namorar. Uma vez, um colega de sala me explicou a situação dizendo que eu era “gostosa” (ou seja, tem um corpo bonito), mas era “feia”. Entenderam? Quanto ao cabelo crespo, nem preciso mencionar que sempre foi tido como “feio”.
    E confesso que só com a sua explicação entendi agora a diferença entre “mulher bonita” e “morena bonita”.

    • Gabi Porfírio

      Natália, parece que nossas vivências foram bastante parecidas, né? Ainda hoje eu também evito passar em lugares com muitos homens, seja qual aparentar ser o grau de instrução deles, mas o importante é sabermos nos defender e principalmente entender e problematizar essas violências que sofremos para não as naturalizarmos.

  • nossa que garota sacana! bota uma banana na caixa de correio, não tenho nem palavras para descrever, mas talvez inveja seja a melhor palavra, muitas pessoas se sentem incomodadas com as pessoas negras, quando tem um bom emprego, moram em um lugar legal, tem um poder aquisitivo melhor, acreditam que o negro não tem esse direito e que servem unicamente para fazer serviços braçais e de preferência nem estudar…certa vez um colega da escola me disse que as mulheres negras só serviam para fazer sexo, fiquei muito magoada, chorei, e o professor de geografia que também era negro, defendeu o aluno branco, dizendo que talvez ele tenha se expressado mal…aff

    • Natália

      O moleque com um pensamento tão racista e machista e o “professor” imbecil ainda praticamente apoia X( por isso é necessário que as crianças, adolescentes e adultos sempre contem o que acontece na escola e fora dela. Caso contrário, estes e outros episódios passam sem correção, como tanto acontece.

    • Gabi Porfírio

      Gabi, infelizmente não é incomum de vermos negros defendendo alguma atitude de um branco. É uma das coisas que mais nos entristece na causa pois é a prova viva de que o racismo está naturalizado mesmo naqueles que sofrem com esse tipo de preconceito.

    • Karla

      Isso me faz lembrar que, quando eu tinha 16 anos, em uma aula também de Geografia, o professor subitamente, no meio da aula, olhou para mim e perguntou para um outro aluno, em alto e bom som para que todos da sala pudessem ouvir, se ele ficaria comigo. O menino olhou para mim, fez uma cara de quem estava vendo alguém com uma doença que parecia contagiosa e disse: “Eu acho que não”. Ao ouvir essa resposta, o professor exclamou: “Oh! Isso é racismo!” Mas a forma que ele falou foi um tanto jocosa, e enquanto isso os amigos do menino interrogado ficavam perguntando para ele: “Você é racista?”, de uma forma como se estivessem perguntando sobre algo interessante e diferente. Logo em seguida, o professor parou em frente a uma garota loirinha e fez a mesma pergunta ao mesmo aluno: “E com ela, você ficaria?” O menino respondeu que sim, e que ela era bonitinha.
      Imaginem como eu fiquei naquele momento, eu sequer conhecia o menino, o professor sequer perguntou a mim se EU queria algo, me humilhando totalmente de forma gratuita. Aquilo acabou com o meu dia, eu inclusive estudava em outra escola à tarde. fazia curso técnico, e fiquei tão abalada que nem consegui ir, fui direto para casa para tentar entender, sem muito sucesso, o que tinha acontecido.
      Fui vítima de uma situação machista e racista ao mesmo tempo, e naquela época eu ainda não tinha a consciência que tenho hoje para tentar lidar com aquilo.

  • impossível ler este texto e não lembrar de você “Gabi”, lendo majestosamente aqueles fragmentos de texto que você nos trazia em aula (e poucos prestavam à atenção na doçura de suas palavras) amei, e num dia como hoje, “meu níver, rs”, é um presente me deleitar nessa leitura…. sucesso, parabéns…. (carinhosamente sua cunha) Rafaela Biondon .

    • Gabi Porfírio

      Cunha linda!! Que delícia ver que esse texto chegou até você e que você chegou até aqui! Muito obrigada, flor!!!!