Muito se falou nessa semana de Blogagem Coletiva pela Visibilidade Trans* nos quatro blogs que a integraram: Transfeminismo, True Love, Blogueiras Feministas e nós, Blogueiras Negras.

Vozes diversas nos falaram, cada uma do seu lugar, sobre o cotidiano trans e sua tentativa de inserir em nossa sociedade um coletivo de pessoas que desafia a lógica rígida e agressiva de gênero, que vivencia sua identidade fugindo dos padrões binários e heteronormativos.

Eu estou aqui falando como mulher negra lésbica e cisgênera. Uma fala aliada de quem tenta todos os dias rever seus privilégios e não oprimir. Confesso que essa é uma tarefa árdua, que muitas vezes escorrego, com certeza, mas obrigatória. Repito como um mantra: “o oprimido não oprimirá”.

Assim como não quero que minhas companheiras brancas me usem como “dicionário negro” ou como token* em suas tentativas arremedadas de serem inclusivas e intersecionais, não quero cometer o mesmo erro com as mulheres trans apenas para parecer descolada. É minha obrigação me educar. É minha obrigação não oprimir. Nenhum homem ou mulher trans tem o dever de me responder a perguntas. Eu devo buscar as respostas. Se meu espaço não é frequentado por pessoas trans, o problema está no meu espaço que não é acolhedor, não em quem não o frequenta.

Lembrando sempre de não hierarquizar opressões, não há como não encontrar identidade entre os argumentos e as falas cissexistas para justificar a ausência ou os erros cometidos pelas pessoas cisgêneras com as falas e argumentos racistas para isentar os brancos de culpa pelo seu preconceito racial.

A partir dessa percepção de que como feminista tenho o dever de entender o outro para inclui-lo e respeitá-lo, sugiro uma lista de obras, leituras, pessoas e conceitos que tenho utilizado para me educar sobre transgeneridades. Minha lista é bem incipiente, ainda há muito o que saber, entender. Inclusive peço que os leitores deem suas contribuições nos comentários, tanto de sugerir mais nomes quanto de indicar se algo que eu aponto abaixo não for uma indicação positiva.

 

Academia

Judith Butler – filósofa estadunidense, escrevendo sobre feminismo, que tem importantes produções sobre a teoria queer e a desconstrução das normas de gênero definidas pelas sociedades ocidentais, engessadas e heteronormatizadas. Aqui, na Wikipedia.

 

Beatriz Preciado – filósofa feminista espanhola da escola de Butler (acima). Também discute sobre teorias de gênero. Veja mais na Wikipedia, em espanhol. Nesse link, entrevista que concedeu ao jornalista Jesús Carrilo, em 2004, para a revista espanhola Desacuerdos. Essa versão está em português, traduzida por Gisele Ribeiro.

 

Berenice Bento – socióloga brasileira referência no país em produções sobre gênero e suas performances, professora na UFRN, autora do livro O que é transexualidade, da editora Brasiliense, um livro de bolso bastante didático sobre transexualidade e uma boa leitura para quem está começando a estudar o assunto. Leia nesse link o artigo A Reinvenção do Corpo.

Política

Kátia Tapety – transmulher negra piauiense, foi a primeira transexual a se eleger para um cargo político no país. Foi tema do documentário Kátia, o filme, de 2013, dirigido por Karla Holanda, sobre sua trajetória pessoal e política. Mais em seu perfil no facebook, no making of do doc, matéria no G1 e site do longa. Abaixo, sinopse do documentário extraída do site Adoro Cinema.

Cena de 'Kátia', filme sobre Kátia Tapety. (Foto: Reprodução / Divulgação)

Cena de ‘Kátia’, filme sobre Kátia Tapety. (Foto: Reprodução / Divulgação)

“Este documentário conta a história da primeira transexual eleita para um cargo político no Brasil. Além de mostrar como José se transformou em Kátia Tapety, o filme nos apresenta a trajetória política da travesti piauiense que lidou com o preconceito do pai na infância, mas hoje é respeitada entre seus conterrâneos. Ela foi a vereadora mais votada de seu município por três vezes consecutivas e chegou a vice-prefeitura da cidade de Colônia do Piaui, entre 2004 e 2008.”

 

Madalena – vereadora piracicabana negra e transexual, foi a sétima mais votada nas eleições municipais. Tem sido alvo de diversas manifestações de racismo e transfobia durante o exercício do seu mandato. Veja matéria sobre montagem lamentável que fizeram comparando-a com um chimpanzé. No youtube, bate papo publicado pela TV UNIMEP em 2013.

 

Cinema (pode haver spoilers)

Ficção

Transamérica – Filme estadunidense de 2004, dirigido por Duncan Tucker. Bem humorado, fala de uma mulher trans de meia idade que descobre que foi pai antes de começar a vivenciar a identidade de gênero feminina. É possível assisti-lo inteiro no youtube. Sinopse do Adoro Cinema abaixo.

“Bree Osbourne (Felicity Huffman) é uma orgulhosa transexual de Los Angeles, que economiza o quanto pode para fazer a última operação que a transformará definitivamente numa mulher. Um dia ela recebe um telefonema de Toby (Kevin Zegers), um jovem preso em Nova York que está à procura do pai. Bree se dá conta de que ele deve ter sido fruto de um relacionamento seu, quando ainda era homem. Ela, então, vai até Nova York e o tira da prisão. Toby, a princípio, imagina que ela seja uma missionária cristã tentando convertê-lo. Bree não desfaz o mal-entendido, mas o convence a acompanhá-la de volta para Los Angeles.”

 

Meninos não choram – Filme estadunidense de 2000, dirigido por Kimberly Peirce. O personagem principal vivido por Hilary Swank, costuma ser erroneamente definido como lésbica. Eu suspeito que essa confusão acontece pela presença de Chloë Sevigny, a atriz queridinha das lésbicas, como par romântico de Swank. Particularmente, o final dramático não anima muito quem assiste. Mas vale a pena assistir porque é uma forma de retratar a violência cotidiana sofrida pelas pessoas trans e também porque é uma importante produção na temática por ser mais popular, justamente pela presença das atrizes hollywoodianas bastante conhecidas no circuito mainstrean. Sinopse do Adoro Cinema abaixo:

“Saiba como Teena Brandon se tornou Brandon Teena e passou a reivindicar uma nova identidade, masculina, numa cidade rural de Falls City, Nebraska. Brandon inicialmente consegue criar uma imagem masculinizada de si mesma, se apaixonando pela garota com quem sai, Lana, e se tornando amigo de John e Tom. Entretanto, quando a identidade sexual de Brandon vem público, a revelação ativa uma espiral crescente de violência na cidade.”

 

Tomboy – Um filme francês dirigido por Céline Sciamma, lançado em 2012. Um drama doce, delicado, sobre a percepção da transexualidade na infância. Abaixo, sinopse extraída do site Adoro Cinema.

“Laure (Zoé Héran) é uma garota de 10 anos, que vive com os pais e a irmã caçula, Jeanne (Malonn Lévana). A família se mudou há pouco tempo e, com isso, não conhece os vizinhos. Um dia Laure resolve ir na rua e conhece Lisa (Jeanne Disson), que a confunde com um menino. Laure, que usa cabelo curto e gosta de vestir roupas masculinas, aceita a confusão e lhe diz que seu nome é Mickaël. A partir de então ela leva uma vida dupla, já que seus pais não sabem de sua falsa identidade.”

 

Documentário

Tabu Brasil – Programa produzido pelo canal a cabo National Geographic, com espisódios feitos nos Estados Unidos, na América Latina e no Brasil. O tom do documentário é de “curiosidade”, tratando de assuntos considerados polêmicos e tentando desmitificá-los. Longe de dar conta de encerrar o assunto, o ep “troca de sexo” é uma forma bem didática de iniciar uma conversa sobre transexualidade e partir dele para outros debates e aprofundamentos. Nele, estão duas transmulheres e um transhomem, João W Nery, sobre o qual falo mais abaixo na sessão literatura. Estão presentes também alguns profissionais e acadêmicos falando sobre o tema, entre eles Berenice Bento, mencionada acima, na categoria academia.

 

Fotografia

Si Moralis – Fotógrafa paulistana que clica trans e travestis. Seus ensaios fotográficos são recheados de bom gosto. No facebook do Studio M³ podemos conferir algumas imagens. Vale a leitura de matéria sobre seu trabalho no G1.

 

Literatura

Viagem Solitária – livro autobiográfico do transhomem João W Nery sobre sua trajetória, narrando desde a infância até a idade adulta, a experiência da paternidade, a carreira, seus casamentos, as cirurgias e adequações às quais se submeteu.

 

Blogs

Original Plumbinghttp://www.originalplumbing.com/ – site sobre cultura trans*. Encontre artigos sobre cultura, política, arte, pornografia, estilo e vida e tudo o mais que for pertinente, para “pessoas transexuais e todos os seus aliados do espectro LGBTIQA” (lésbicas, gays, transgêneros, intersexo, queer e agênero). Em inglês.

JAQUELINE J. – http://jaquejesus.blogspot.com.br/ – blog da psicóloga brasiliense Jaqueline Gomes de Jesus, definido por ela mesma como “lugar para percepções, ideias e análises a partir de uma visão pessoal, científica e profissional: uma janela, da minha perspectiva, para o mundo.”

Transfeminismo – feminismo intersecional – http://transfeminismo.com/ – blog de Hailey Kaas, Bia Pagliarini Bagagli e Leda Ferreira do Amaral, tratando de feminismo intersecional relacionado às questões trans*. Conteúdo lúcido, questionador e absolutamente esclarecedor para quem quer entender o cotidiano de pessoas trans. Para quem tem medo de perder privilégios, pode ser incômoda a leitura.

 

Mais uma vez, faço essa lista sem a intenção de encerrar quaisquer indicações sobre a temática ou eleger os melhores. São algumas das minhas referências, o pouco que tenho caminhado em direção a minha educação sobre questões trans e que podem servir como ponto de partida para quem percebe a necessidade desse entendimento.

Uma questão importante a se levantar é a ausência de falas, de estudos acadêmicos, de produções artístico-culturais e de políticas públicas voltadas para a população trans sob o viés racial, visto que a interseção das variáveis de raça-etnia e identidade de gênero são fatores que potencializam a violência e a opressão vivenciada por esses indivíduos.

Saímos dessa semana com a certeza de que temos muito trabalho pela frente em busca da eliminação de todas as formas de opressão e da inclusão das demandas trans, principalmente das mulheres e negras, em nosso feminismo, em nossa luta diária.

*Tokenismo é quando você inclui falsamente uma minoria historicamente discriminada para ser usada como troféu de que você é tolerante e sem preconceitos. (Definição de Paula Carvalho nas Blogueiras Feministas).