Imagino que muitas pessoas devam ler textos das Blogueiras Negras e pensarem: “nossa, que mulheres sem humor”. O humor é uma das melhores formas de comunicação humana, um texto bem humorado facilmente conquista as pessoas. Porém, em nossa sociedade, é preciso sempre se perguntar: quem está rindo? está rindo de quem? Porque o humor, assim como qualquer outro elemento cultural, também é utilizado para perpetuar preconceitos e apontar quem pode rir de quem.

Mulheres negras são muito bem humoradas. Converse com elas e descobrirá expressões, piadas internas e muitas gargalhadas. Porém, quantas humoristas negras tem destaque em nosso país? Sim, há pouquíssimas humoristas mulheres fazendo sucesso e eu ainda quero que elas sejam negras. Sei que estou pedindo demais, mas minha proposta nesse texto é justamente procurar iniciativas humorísticas produzidas por negras e negros que ajudem no combate ao racismo.

Wanda Sykes

O primeiro nome que sempre me vem a cabeça quando penso em comediantes negras é o da norte-americana Wanda Sykes. Entre seus vídeos mais famosos no youtube estão o que ela questiona o que é pior Ser gay ou negra?  e o que apresenta a proposta da vagina removível, fazendo inclusive piada com a violência sexual que afeta as mulheres. É claro que nem todo mundo vai rir das piadas de Wanda, mas acredito que seja um bom exemplo de como fazer boas piadas com temáticas complicadas, o que prova que tudo depende de qual seu objetivo no humor. Porém, meus vídeos favoritos dela são o que ela trata do racismo reverso e dos estereótipos em relação as mulheres negras a partir da figura de Michelle Obama.

Lizzie Mae e o ‘Ask a Slave’

Atriz norte-americana Azie Dungey em seu figurino de escrava, durante o período que trabalhou como atriz na propriedade de George Washington. Crédito: Azie Dungey

Atriz norte-americana Azie Dungey em seu figurino de escrava, durante o período que trabalhou como atriz na propriedade de George Washington. Crédito: Azie Dungey

Atualmente, meu canal favorito do youtube chama-se Ask a Slave ou Pergunte a Escrava. É uma iniciativa da atriz norte-americana Azie Dungey. Nos vídeos, ela interpreta Lizzie Mae, uma das escravas da propriedade agrícola de George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos, e responde perguntas sobre sua vida. A ideia surgiu depois que Azie trabalhou como atriz durante anos em Mount Vernon, a residência de George Washington, que hoje funciona como um museu. Entre as perguntas que lhes eram feitas pelos visitantes, a principal era: por que você quis ser uma escrava?

Infelizmente, os vídeos não possuem legendas, nem são dublados. Porém, para você ter um gostinho do humor de Lizzie Mae, aqui vai um exemplo:

Um homem no primeiro episódio pergunta esta pérola: “Como é que você conseguiu ser empregada de um homem tão distinto? Você viu o anúncio no jornal?”. E a resposta de Lizzie Mae é: “Com certeza! O anúncio dizia: Precisa-se de empregada. Não há pagamento. De preferência mulata, atrevida e com bons quadris. Deve trabalhar 18 horas por dia, sete dias por semana, sem feriados. Mas, você tem que usar um vestido bonito, e se for sortuda, pode se realizar tendo o filho bastardo de algum homem branco famoso. Mal acreditei quando li isso, corri e disse: Inscreva-me!”

Tá bom pra você?

No Brasil, uma das iniciativas mais bacanas é do ator Érico Braz e da atriz Kênia Dias. Junto com a família, produzem o canal Tá bom pra você? no youtube, em que recriam peças publicitárias veiculadas na TV, mas tendo personagens negros como protagonistas. O ator contou, em entrevista ao jornal A Tarde, que a ideia surgiu após sua enteada começar a questionar a participação do negro na mídia: “A Gabriela começou a questionar a participação do negro na mídia em geral. Indicamos para ela ler o livro Um Defeito de Cor (Ana Maria Gonçalves, Editora Record). Mas ela continuou fazendo perguntas. Queria saber porque os assuntos sobre negritude, que são discutidos em casa, não são realizados também na escola. Então decidimos criar o canal para mostrar o outro lado da moeda”, conta Brás.

O vídeo mais visualizado do canal é Black Margarina. Nessa mesma entrevista, Érico e Kênia apontam outras questões em relação a consumo, publicidade e racismo:

“É engraçado que margarina, por ser um produto mais barato, é consumido muito mais pela população de baixa renda. E nós sabemos a cor da pobreza. E nem mesmo assim as empresas se propõem a colocar negros fazendo a propaganda. E é isso que o Tá Bom pra Você quer fazer. Vamos afirmar que preto também come pão. Estamos mostrando que o negro consome e eles devem atentar para isso”, fala Érico.

O vídeo mais recente é Black Livre que retrata um comercial de absorvente íntimo em duas versões, para as mulheres mais velhas e para adolescentes. “Absorvente é algo que faz parte do cotidiano de qualquer mulher. E porque nunca vimos uma publicidade com mulheres negras? Isso (a ausência de modelos negras) desacata até mesmo a lei da natureza. É uma falta de respeito, ainda mais no Brasil, onde a maioria da população é negra. O que só faz constatar quanto a democracia racial é mentirosa”, diz Kênia Dias.

Humor negro?

É claro que nenhuma dessas comediantes que citei está livre de escorregar em algum tema ou desrespeitar minorias. É importante que façamos essa reflexão em cima de qualquer forma de comunicação, especialmente o humor.

Enquanto pensava nesse texto, me peguntei: qual a origem da expressão ‘humor negro’? Segundo a Wikipédia: “O humor negro é um subgênero do humor que utiliza situações consideradas por muitos como de mau gosto ou politicamente incorretas, preconceituoso, usualmente de natureza mórbida, para fazer rir ou divertir o público menos susceptível. Entre os temas retratados pelo humor negro estão a morte, o suicídio e o preconceito racial (geralmente abordando etnias excessivamente vitimizadas pelo status quo ou por algum evento histórico que façam os outros grupos vê-los como supostas “vítimas” implicitamente)”.

Além de “humor negro”, outras expressões como “lista negra”, “magia negra”, “ovelha negra”, “mercado negro” ou até mesmo “o lado negro da força” sempre nos fazem remeter a palavra negra/negro como algo ruim. São expressões usadas no cotidiano e com certeza alguém virá dizer que isso não é racismo cultural, que a cor preta é a ausência de cor, logo é utilizada para expressar o que está escondido nas sombras. Poderia questionar esse “escondido nas sombras”, mas será mesmo que não há nenhuma associação? Nossa língua é viva e perpetua-se pelo tempo de acordo com os usos que as pessoas fazem dela. Se uma palavra recebe constantemente uma conotação que a desvaloriza, como se sentem as pessoas que se identificam com ela?

No dicionário Priberam, o verbete negra/negro recebe as seguintes associações: sombrio, triste, infeliz, mofino, fúnebre, tétrico, aflito. Em comparação, o verbete branca/branco é descrito como: Que tem a cor da neve ou do leite, pálido, alvo. Um verso branco é um verso livre, solto. Ao que me parece, pálido não chega a ser algo tão ruim para identificar alguém.