Não foram poucas as vezes que saí frustrada de uma discussão com alguém com uma retórica bem construída ou com um ponto de vista irredutível. Como muitas pessoas, eu tratava o que eu considero verdade como um argumento legítimo e autoexplicativo. Não considerava que séculos de reprodução de discursos opressivos produziu respostas ideológicas para todo tipo de pergunta, reforçando a validade de suas bases ao fazer-se massivamente presente e acessível ao senso comum. E diante disso não adianta brandir a verdade como um verbo no imperativo se, no repertório do outro, não há como construir sentido.

Minha esperança reside no fato de que discursos opressivos só se operacionalizam a partir da promoção de uma visão ideológica que orienta a interpretação e representação da realidade a favor do opressor. Ou seja, eu preciso ser ensinada todos os dias a negar ou reclassificar verdades e diversidades que também se fazem  expressar no cotidiano, nas experiências do corpo no mundo. De forma que, também no cotidiano e nas próprias experiências pessoais podem ser detectados os dados, fatos e argumentos que dão materialidade ao discurso de desconstrução.

Um dia, um colega de sala disse algo muito interessante para tentar encerrar uma discussão: “contra fatos não há argumentos”. Só ali a ficha caiu: uma verdade que parece uma sustentação abstrata, soa como uma teoria da conspiração. Por pior que os discursos opressivos sejam, se eles são hegemônicos, promovem a falsa segurança dos lugares prescritos. Prescrições acessíveis, ações, representações e condutas idem. Prescrições que me dizem o que é preciso para me dar bem em uma entrevista de emprego, ou quais são aqueles empregos que eu não devo almejar. Produz fatos, continuidades, cotidiano.

Por isso, diversas vezes me valho dos exemplos do Código de Ética Profissional da Assistente Social para contestar nossa representação do que é ser radical. Este utiliza as palavras “radical(mente)” e “intransigente”, respectivamente para qualificar o caráter democrático do projeto social a que a categoria se vincula e para indicar sua posição na defesa dos direitos humanos. Esses posicionamentos demarcam coerência com princípios que não podem ser flexibilizados, para os quais não há meios termos e para os quais qualquer tipo de incoerência é uma violação.

Mas é um argumento difícil em uma sociedade em que a situação do sistema prisional, e nossas representações acerca deste, indicam nosso desejo de que quem entre em confronto com a ordem morra ou sofra um inferno cristão em vida. Creio que, por isso, tantas vezes ouvi de algumas pessoas que não só aceitam como esperam que estupradores sejam violentados na cadeia, que cadeia não precisa mesmo de estrutura e “direitos humanos são para seres humanos”. Argumentos que revelam que a condição humana ainda é condicionada e que muitos seres humanos não são considerados como tal para os efeitos de seus direitos inalienáveis.