As pessoas estão acostumadas a achar (ou querem se acostumar a achar) que racismo só acontece quando a pessoa “tem intenção” de ofender e/ou quando essa ofensa acontece de forma implícita. Não, minha gente. Não! Isso aí é uma soma de racismo + falta de caráter. O racismo acontece, também, de forma velada, quando o agressor diz que não teve a intenção ou quando somos vítimas do famigerado “tipo suspeito”. E esse é o pior tipo de racismo, porque não se admite, se esconde, se disfarça entre subterfúgios e passa como “apenas comentário”, “apenas um mal entendido”, “apenas uma piada”, misturando-se a outros tantos comentários misóginos, a outros tantos mal entendidos homofóbicos, a outras tantas piadas gordofóbicas.

Em menos de uma semana, dois episódios negros de racismo covarde dos quais citei acima ganharam repercussão na mídia. Aliás, apenas um deles mereceu ir pro globo.com; o outro, as organizações Globo fizeram questão de deixar passar batido, mantendo a tradição de se calar sobre casos de racismo nos quais tem responsabilidade (direta ou indireta).

O primeiro caso envolve o ator e psicólogo Vinícius Romão que, a despeito de estar com calça e camisa pretas, foi confundido com um assaltante que vestia apenas uma bermuda. Em comum, Vinícius e o assaltante têm apenas o que chamo de “combo tipo suspeito”: a cor preta e o blackpower. Aliás, Vinícius já foi julgado (como é de praxe pela polícia do Rio de Janeiro) e “reconhecido” pela vítima – naquelas circunstâncias, abordagens e “procedimentos” já conhecidos da polícia como um todo. Vinicius está preso há duas semanas. Eu vou me abster de falar sobre o sistema carcerário brasileiro e como Vinícius vai amargar apenas mais alguns dias na prisão, enquanto outros irmãos vão ficar 3, 5, 10 anos presos sem julgamento num país em que a classe média branca clama pela redução da maioridade penal e muitos pela pena capital. “Tem que queimar vivo pra não ocupar espaço na hora de enterrar” foi uma “solução elegante” que vi dois brancos de classe média sugerirem para acabar com a criminalidade no Brasil.

Há de se chamar atenção para a forma como a notícia vem sendo veiculada. Um jornal O Dia trouxe a seguinte manchete: “Prisão de ator da Globo gera polêmica nas redes sociais”. Ora, por favor gente, apesar de toda a atenção que estão chamando para o racismo dessa prisão, a chamada tenta de forma estúpida fazer recair sobre a condição de ator de Vinícius e não sobre o fato de ele ser NEGRO, a sua prisão. Ninguém se indignou porque Vinícius – apesar de ator – foi preso. Todos se revoltaram porque Vinícius – por ser negro – foi preso. Negar isso é má fé, é querer deixar em segundo plano um caso negro de preconceito racial e tirar a carga racista que ele teve!

O outro caso, até então apenas veiculado pelas redes sociais e portais como geledes.org, é o da BBB Franciele. Numa conversa com o rapper e amigo de confinamento Valter, Franciele disse: — Tenho tudo de uma “negona”. Tenho o samba e até o cheiro. Me deixa sem desodorante para você ver. Pausa para respirar… Nossa distinta big sister conseguiu de forma magistral reunir em menos de vinte palavras quatro declarações racistas. A primeira foi chamar uma negra de negona – dependendo do contexto, o termo soa extremamente preconceituoso e pejorativo. Mas Franciele fez questão de contextualizar o termo, na sua segunda declaração racista tenho samba – como se todo e qualquer negro, POR SER NEGRO, tivesse que saber sambar. Não é com espanto que as pessoas recebem a notícia de que tem preto que não samba, não gosta de futebol e não gosta de funk. Essas expectativas racistas só ajudam a perpetuar o estereótipo que se faz do negro no Brasil. Negro também sabe ler, também sabe escrever e até passa no vestibular!

Mas Franciele deixou a cereja do bolo pro final e a calda de chocolate pra arrematar: e até o cheiro. Para nossa esclarecida big sister, negrxs fedem! Isso, negrxs além de saberem sambar, fedem! “Como assim você é negro e não samba? Ué, você também não fede? (alguma coisa está fora da ordem…)”. Imaginem o seguinte diálogo freudiano:
– Fran, diga o que vem à sua cabeça quando se pensa em negras.

– Samba e fedor!

É inacreditável a associação naturalizada que essa sujeita faz com a palavra “negona”. E como ignorância pouca é bobagem, Franciele termina a declaração dizendo me deixa sem desodorante pra você ver. Ou seja, para essa pessoa, brancos tem que fazer força, deixar de usar desodorante, para feder. Já negrxs não, negrxs fedem sem fazer esforço. Já devem nascer fedidos, não Franciele?

Chamada a atenção pelo seu interlocutor, Franciele magistralmente se justifica como se justificam todos que tentam negar o racismo de suas declarações: “Eu falei de boa. Não vejo como racismo.” Ah, sim… agora tá tudo certo, Franciele! Desculpa te acusar de racismo! Como VOCÊ não considera racismo – porque você já deve ter sofrido muito com isso na sua vida branca – realmente suas declarações também não o são. Vou me abster de novo de falar sobre o “argumento” infantil de que se eu não considero que seja racismo, homofobia, misoginia, então eu e minhas declarações não somos. Egoísmo e falta de maturidade argumentativa mandaram aquele abraço.

O problema é que os PM’s que prenderam Vinícius, os babacas coxinhas que defenderam tacar fogo nas pessoas e Franciele não são burros. Eles sabem que a palavra racismo tem uma carga negativa e não querem assumir para si essa responsabilidade e a responsabilidade de suas próprias declarações. Ressoam o atraso de quem sabe muito bem o que quer quando nega o racismo em casos de linchamento de negros ou chacina de presos – a intenção é manter o negro no seu devido lugar e desencorajá-lo ao alçar voos maiores. Essas antenas de racismo só reproduzem o sinal sem refletir sobre ele e aí saem essas pérolas. E se você tentar enegrecer as ideias ouvirá exatamente o que a big sister disse: não é racismo! Eu não vejo assim! É a minha opinião! Vocês podem perder a voz (e seria lindo se acontecesse) de tanto usar essas expressões. Isso não mudará o fato da sua ignorância.

Negação + racismo velado são o que mais me preocupa nessa luta contra o racismo. Encobrir essa violência, negando-a desesperadamente, baseando-se na “supremacia” de ser só quem você é mesmo (nenhum desses que citei é antropólogo, historiador, sociólogo, nada disso) talvez me pareça o pior face do racismo, porque tenta calar uma dor que nenhum deles sofreu e jamais vai sofrer.

Dona Adelaide, estereótipo de mulher negra televisionado pela Rede Globo.