Olanna puxara a mãe, embora a sua fosse uma beleza mais acessível, com uma fisionomia mais doce, uma graciosidade sorridente, e um corpo carnudo, com curvas que enchiam o vestido preto. Um corpo que Susan chamaria de africano.
Trecho extraído do livro Meio Sol Amarelo

Na obra de Chimamanda Ngozi Adichie, escritora Nigeriana vencedora de diversos prêmios, como o Commonwealth Writers’ Prize e o Orange Prize, consegui, talvez pela primeira vez, perceber a África e os mecanismos de dominação que lá existem. Até agora, li Meio Sol Amarelo e estou na metade de Hibisco Roxo. Além desses, ela escreveu The Thing around Your Neck, uma compilação de histórias curtas (sem tradução para o português), e Americanah, que deve chegar às livrarias brasileiras no segundo semestre.

É impressionante a maneira como ela, nos livros e nas palestras, algumas disponíveis na internet (a exemplo da maravilhosa O perigo de uma história única, que inclusive já foi pauta do blog) nos envolve em uma narrativa na qual, sutilmente, vai revelando as relações de poder vigentes. A África descrita é um lugar lindo, com pessoas felizes, onde a cultura europeia se infiltra pouco a pouco e impõe formas de dominação.

Meio Sol Amarelo tem como pano de fundo a tentativa fracassada de formação da República de Biafra. O conflito durou de julho de 1967 a janeiro de 1970, em uma Nigéria pós-colonização sem habilidade para conciliar os interesses dos povos que lá viviam. Os biafrenses foram considerados “rebeldes” e duramente combatidos, com o apoio da Inglaterra. Ou seja, Biafra lutou praticamente sozinha, contra a Nigéria e os interesses das nações colonizadoras. Vale lembrar também que a região onde esteve Biafra é rica em petróleo.

Ao relatar a guerra, a autora costura a relação entre os costumes europeus e os africanos. O lugar das mulheres, como sujeitos, é permeado pelo seu aprendizado nas universidades europeias sobre a “civilização”. Até certo ponto, elas negam os ensinamentos das tribos e desenvolvem um outro conhecimento sobre elas mesmas, que envolve usar perucas, falar inglês, reproduzir formas de relacionamento brancas e acreditar mais na ciência do velho continente.
Já Hibisco Roxo é sobre uma família com um pai abusivo e uma mãe submissa. A família tem posses, é bem vista socialmente, muito católica e Chimamanda nos envolve na história, com mais ou menos os mesmos conflitos culturais. Em ambos os livros, existe uma tendência sutil dos personagens em menosprezar o que é da África e valorizar a cultura branca, mas também estão presentes elementos de tensão entre as duas coisas. Entre crer nas religiões das tribos e na ciência, falar inglês ou igbo, fazer refeições típicas ou europeias.

Os criados, que são das tribos, são ensinados a cozinhar, vestirem-se e até mesmo a falar como o homem branco. Mesmo assim, é visível nesses personagens a identificação com a África, enquanto os mais ricos vão perdendo essa identidade. Em Meio Sol Amarelo, o resgate das ligações entre eles vem com a guerra e por meio dela. A guerra aflora a humanidade de todos, para o bem e o mal.

Dessas narrativas, permanecem as formas de poder e como elas se instalam em todas as relações humanas. Achei muito semelhante à perda da identidade do negro no Brasil, que teve por consequências a invisibilidade da mulher negra e um racismo sempre latente, nunca explícito. Ao mesmo tempo, há resistência, quando os personagens buscam o conhecimento ancestral das tribos para resolver seus problemas, e uma sensação no leitor de que existe algo errado a todo o tempo, para além da guerra e da violência. Se você é uma mulher negra, talvez seja possível se encontrar em cada uma das personagens e, ao mesmo tempo, em nenhuma.

De fato, Chimamanda Adichie é uma excelente contadora de histórias. Ao descrever as tensões em uma sociedade heterogênea, vítima de uma briga entre seus próprios integrantes, que foi manipulada pelo Reino Unido e outras nações europeias detentoras do poder econômico, ela questiona e recupera, ao mesmo tempo, o que há de mais humano em cada um dos personagens.

Imagem destacada: Chimamanda Ngozi Adichie.