“Porque, ao entender que minha existência depende da dos outros e a existência deles depende da minha, devo também entender que ao ser violento com os outros, estou sendo violento comigo mesmo.”

— Clyde W. Ford, “O herói com rosto africano”

A ideia de uma sororidade negra, uma espécie de laço afetivo, de solidariedade e de irmandade entre mulheres negras, vai muito além daquela estamos habituadas à ouvir falar, que ao não ser problematizada, cria a ilusão de uma suposta superação e união entre mulheres de distintas raças e classes, fazendo com que mesmo dentro do feminismo as mulheres negras sejam invisibilisadas, pois uma vez que ao nos reconhecermos através de nossas experiência da diáspora, em que nós, apesar de termos diferentes trajetórias e narrativas, vivemos uma experiência comum de discriminação, hipersexualização e exclusão, percebemos para com as nossas uma espécie de cumplicidade invisível. Através de nossa ancestralidade, nos reconhecemos pelos nossos cabelos crespos, pelos nossos traços negroides, mas principalmente pelas discriminações e desprezos que sofremos diariamente pelo Estado e pela sociedade que ainda veem nossos corpos como mera mercadoria. Ao mesmo tempo que há uma experiência compartilhada em diferentes níveis entre nós, mulheres negras, há também diferenças e especificidades que se expressam no país do mito da democracia racial, onde o ideal de branqueamento nunca acabou e a ideologia da mestiçagem ainda se configura como um fator que inviabiliza, muitas vezes, reconhecer-se enquanto negra. E mesmo tentar diariamente encaixar-se no padrão de beleza europeu em detrimento de sua beleza natural, nossas mulheres negras na maioria das vezes acabam tendo a sua auto estima dilacerada, isto é, quando podem se dar ao luxo de preocupar-se com a estética, pois para muitas de nós, sobreviver é uma tarefa árdua demais. Nesse sentido, pensar numa irmandade negra entre mulheres negras implica em pensar numa fraternidade que deve ultrapassar qualquer diferença entre nós, pois a ancestralidade que nos constitui e nos move e a experiência com o racismo deve nos fazer, acima de tudo, olhar para cada preta como um espelho e como uma irmã, sem hierarquizações e diferenciações. Da cozinheira a professora, da babá, da trabalhadora doméstica a estudante, da criança a idosa, a irmandade se manifesta entre nós, porque nos reconhecemos umas nas outras. E quando amamos quem somos, também podemos olhar com amor cada preta que cruza o nosso caminho, mesmo as que nem sabemos que é.

Quantas de nós não sorrimos e saudamos outras mulheres negras que encontramos no dia a dia, como se um axé inexplicável que perpassa nossos corpos? Quantas de nós não cumprimentamos (e somos cumprimentadas) com afeto uma criança negra, uma cozinheira negra, uma vendedora negra, uma professora negra, uma idosa negra, enfim, qualquer mulher negra que sequer sabemos o nome? Como explicar esse vínculo afetivo que irrompe nesses momentos senão pela força da ancestralidade e de uma negritude que nos une pela cor, e pela marca?

Falando de dor, a escravidão gerou profundos impactos em nós, impactos esses que ultrapassam a dimensão da exclusão, da discriminação. A dimensão ideológica dos estereótipos racistas que desumanizam nossos corpos afetou principalmente a nossa capacidade de amar e as nossas relações afetivas. Somos feridas até o coração diz Bell Hooks. Isso se acentua quando pensamos na realidade de milhões de mulheres negras que vivem em condições de extrema pobreza, são chefes de família e passam mais da metade do seu dia trabalhando em circunstâncias não muito distintas da escravidão, como por exemplo inúmeras trabalhadoras domésticas. Mulheres negras que são obrigadas a dedicar anos e anos de suas vidas ao cuidado dos filhos e filhas da casa-grande em detrimento de si mesmas e de suas próprias famílias. Mesmo as mulheres negras que adentraram o espaço da universidade, ainda se espera que tenhamos uma postura servil, que não falemos por nós mesmas ou que sejamos 3 vezes melhor que as outras alunas para que mereçamos usufruir de um espaço que historicamente nos foi negado. No imaginário racista, espera-se que a gente limpe a sujeira de todos, seja a mulata gostosa e fogosa ou a bondosa “mãe preta”, e que não reclamemos de nada, caso contrário seria uma injustiça com os nossos senhores e senhoras de bom coração, que por serem bons, nos dão migalhas!

Uma das estratégias mais perversas do racismo é fazer com que nós mesmas acreditemos que não somos importantes, que não somos bonitas, que não somos dignas de afeto e que não merecemos ou podemos ter um tempo para se cuidar, refletir e nos conhecer intimamente. Esconder nossos sentimentos e fraquezas passa então a ser não apenas uma estratégia de sobrevivência, mas também um efeito da injusta visão que temos de nós mesmas e que durante séculos nos foi impostas à a creditar. De que não podemos falhar, chorar, reclamar. De que temos que ser sempre fortes, resistentes e resilientes… Quem nunca ouvia a injusta frase “mulheres negras são fortes!!”? Se o somos, é porque fomos obrigadas e não tivemos o direito à sermos vistas também como mulheres que amam, que choram, que sentem dor, possuem fraquezas, como todas as outras mulheres. Porém, é justamente por tudo isso que a sororidade negra se faz necessária enquanto laço político-afetivo que nos une. Se, segundo Bell Hooks, a realidade da maioria de nós mulheres negras é a completa falta de amor, por que esse amor não pode ser dado, vivido, compartilhado entre nós mesmas, irmãs de vivências, dores e ancestralidade, que se compreendem sem que muito precise ser dito? Quantas de nós não contamos uma experiência de discriminação para outra mulher negra sabendo que não vamos precisar explicar o que é racismo ou por que foi racismo, pois ela sente a mesma dor que nós? Quantas de nós, quando mais precisávamos, fomos acolhidas por mulheres negras que, ao nos ouvir e nos compreender intimamente, nos mostraram que o que sentimos é importante e que somos valiosas, porque reconhecem, mais do que ninguém, a nossa humanidade, a nossa fragilidade e a nossa necessidade de afeto? Quantas de nós, ao ver uma mulher negra ser insultada, discriminada ou silenciada, não se sentiu também insultada, discriminada ou silenciada, por que mexer com uma é mexer com todas nós? Quantas de nós não sairíamos em defesa e, no limite, até iria para porrada, para defender alguma mulher negra que sofreu alguma violência?

Ubuntu… “Eu sou o que sou através de você e você é através de mim” talvez seja o valor que melhor traduz e desnuda as relações entre, nós, mulheres negras. Somos irmãs que se veem umas nas outras, meninas mulheres da pele preta que juntas se fortalecem e trilham juntas o caminho da compreensão, do amor, da resistência. Nós somos fortes porque outras mulheres nos fortalecem e nos mostram que temos valor, que não há vergonha na nossa pele, na nossa cor, nos nossos traços, e que não somos a carne mais barata do mercado. A nossa maior revolução é nos amarmos, e celebrarmos a magnitude e beleza de nossa ancestralidade.

É preciso que curemos nossas feridas sem deixar de sorrir. Para isso nós, pretas, precisamos estar cada vez mais juntas e próximas, acolhendo nossas irmãs, aliviando seu choro, ouvindo seu desabafo, mas também dividindo o riso, a alegria, vivendo e compartilhando histórias que só nós podemos contar e viver. Nossa união e cumplicidade é a nossa maior arma contra o racismo e o sexismo que nos desumaniza e objetifica todos os dias. Daí que de Nayara Justino, a Globeleza, alvo de recentes ataques racistas, a Lupita Nyong’o, a atriz premiada pelo Oscar, não podemos escolher com quem nos irmanamos ou não, a ponto de crucificar uma enquanto louvamos e admiramos a outra. Nós, mulheres negras, precisamos assumir um compromisso com todas, porque a vitória de uma preta é nossa vitória, mas a dor de outra preta é nossa dor também. Quando já não há palavras que deem conta de expressar o que sentimos quando vemos nossas irmãs sofrerem, ou mesmo quando vemos em seus olhos o brilho de satisfação de alguma conquista (que nos é tão caro e precioso), quando não nos cabe no peito a dor que sentimos pelas nossas irmãs ofendidas, ou a alegria imensurável que nos toma o corpo quando uma outra preta chega onde muitas de nós não conseguiremos porque diariamente os grilhões do racismo tende a nos aprisionar, só nos restará a sororidade negra, laço este de irmandade que servirá como o nosso amuleto de sorte, e a bala de canhão necessária para proteger umas as outras, e nos protegermos do mundo.

Quando ouvimos, acolhemos, compreendemos e, por consequência, fortalecemos outra preta, estamos operando a maior revolução entre nós: o amor.

PS: Com muito amor que escrevemos esse texto, a irmandade uniu as nossas palavras, sentimentos e aflições. Obrigada Fernanda Sousa por compartilhar comigo essa sororidade negra, que nos fez escrever esse texto à 4 mãos. Axé irmãs!!

Imagem destacada – Sisterhood.