Assim como houve pensadores como Sartre, por exemplo, que criticava a arte pela arte, propondo uma arte engajada, Henfil, grande cartunista brasileiro, foi adepto de um humor engajado politicamente, não o humor pelo humor, como o próprio definiu: “procuro dar meu recado através do humor. Humor pelo humor é sofisticação, é frescura. E nessa eu não tou: meu negócio é pé na cara”.

Visivelmente, o cartunista tinha uma posição de embate ao poder instituído. Porém, infelizmente, não é o que vemos na grande mídia, salvo raras exceções. O que se vê é um humor rasteiro, legitimador de discursos e práticas opressoras e, que tenta se esconder por trás do riso. Sendo a sociedade racista, o humor será mais um espaço onde esses discursos serão reproduzidos. Não há nada de neutro, ao contrário, há uma posição ideológica muito evidente de se continuar perpetuando as opressões.

Alguns humoristas, quando criticados, dizem estar sendo censurados. Há que se explicar para esses humoristas o que é censura. Primeiro, eles dizem e fazem coisas preconceituosas. Quem se sentiu ofendido, reclama. Onde está a censura nisso? Incomodam-se pelo fato de, cada vez mais, muitas pessoas denunciarem e gritarem ao ver suas identidades e subjetividades aviltadas; é como se dissessem “nem se pode mais ser racista, machista em paz”. Acreditam ter uma espécie de poder divino de falarem o que querem sem serem responsabilizados. Atualmente, pululam humoristas com esse viés. Comportam-se como semideuses, como Danilo Gentili, que chamou de macaco um moço que discordou dele. Marcelo Marrom, infelizmente, é um homem negro que faz piadas vergonhosas ridicularizando a si mesmo e pessoas negras. Age como uma espécie de neo capitão do mato, tentando caçar nossa dignidade, auto-estima, que há anos lutamos para ter. Capitão do mato do humor para entreter a casa grande. Que a ancestralidade tenha misericórdia dele.

Durante muito tempo, eu tive receio de passar perto de grupos de adolescentes. Quando criança, fui alvo de piadas e chacotas por ser negra. Ao passar por um grupo desses, era inevitável ouvir alguma gracinha do tipo: “olha, sua mina aí”, “e aí, não vai apresentar?”. E o garoto “alvo da zoação” se defendia: “sai fora, está louco?”, “para de me zoar!”. Ter uma namorada como eu era algo impensável. A pretensão criada neles fruto de um sistema que os privilegia, os cegava para o fato de que eu é quem poderia não querer-los. Mas, para eles, eu era só uma “neguinha”, alguém que merecia ser ridicularizada e deixada de lado. Esse receio me acompanhou até o início da fase adulta. Eu preferia atravessar a rua a ter que ouvir essas coisas que me machucavam. E o que as pessoas me diziam? “Deixa pra lá, é só uma brincadeira”. E toda a sociedade concordava com esses meninos: eu não me via na TV, nas revistas, nos livros didáticos, em minhas professoras.

Um dia, quando levava minha filha à escola, um grupo de adolescentes começou a rir do cabelo dela, o qual estava solto, lindo e com uma flor. Ela nem percebeu, mas eu me aproximei deles e disse calmamente: “estão rindo do que? O cabelo dela é lindo. Se eu voltar e vocês estiverem aqui, vou pegar um por um”. Claro que não faria nada disso, disse aquilo para assustá-los e consegui, mas ouvi críticas do tipo: “ah, mas só eram adolescentes brincando”. E eu me pergunto: quem se compadece da menina negra que terá sua auto estima aviltada? Da menina negra que desde cedo é ridicularizada?

Por que se tem compreensão com quem está oprimindo e não com quem está sendo oprimido? A menina negra é que precisa entender que isso é “brincadeira” ou quem faz a brincadeira perceber que aquilo é racismo? Até quando utilizarão o humor como desculpa para serem racistas? Quem olhará pela menina negra que odiará seu cabelo por que fazem piadas sobre? Quem irá lucrar a gente já sabe.

Há também aquela conversa de que devemos rir de nós mesmas, de nossos defeitos. Rir de mim porque sou distraída ou desastrada é uma coisa, por que raios deveria rir da minha pele ou do meu cabelo como se isso fosse um defeito em vez de partes lindas que me compõe? Por acaso, ser negra é defeito? No olhar do racista, é. Então, para ser aceita por ele, eu preciso rir daquilo que o incomoda, associar meu cabelo a produtos de limpeza, por exemplo. Mal passa pela cabeça dele associar seu cabelo liso a espaguete. Esse exemplo mostra como o racismo tem um papel preponderante naquilo que as pessoas julgarão engraçado e naquilo que não julgarão. Da mesma forma, julgam engraçado ridicularizar travestis, mulheres trans, como se a humilhação diária e a recusa a cidadania já não fossem suficientes.

É preciso perceber que o humor não é isento, carrega consigo o discurso do racismo, machismo, homofobia, lesbofobia, transfobia. Diante de tantos humoristas reprodutores de opressão, legitimadores da ordem, fico com a definição do brilhante Henfil: “o verdadeiro humor é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime”.

  • margareth

    Li seu texto na carta capital, e resolvi compartilhar para que muitas outras pessoas tenham a possibilidade de ler; é um bom convite para uma ótima reflexão! adorei…

  • Alessandra Lessa

    Não sou negra, sou branca de cabelo de espaguete, mas achei seu texto verdadeiro e belíssimo. Belo por traduzir o preconceito que também vivi, não atrelado a minha raça ou tom de pele mas ao estilo de vida de minha família. Observo o humor como uma saída para dores recalcadas e como tal, pode ultrapassar essas fronteiras para repetir-se ao provocar dor. O humor pode ser uma defesa pessoal, o indivíduo ataca para não ser atacado, e nesse caso de maneira tal que não se responsabiliza por tal ataque. Dessa forma, quem é atacado se defende de algo que não é seu, mas infelizmente quando pequenos não sabemos disso e nossa auto-estima fica comprometida. Não vejo graça nesse tipo de humor, nunca ví. A acidez corrói e dói, não faz rir.
    Parabéns por sua luta, que é a minha, é a nossa.
    Foi uma honra a apreciação de suas ideias e de seu texto.

  • Karla

    Eu me vi no quarto parágrafo, infelizmente acontecia o mesmo comigo algumas vezes, quando passava perto de um grupo de meninos. Eu ficava muito chateada, e também ficava revoltada pela audácia deles de sequer querer saber se eu gostaria ou não de ser “a mina” daquele que, nas cabeças preconceituosas deles, estava sendo “zoado”.
    Na escola, uma vez, um grupo se reuniu em uma aula e ficaram cantando a música “Nega do Cabelo Duro” para mim, e riam na minha cara. Um professor, em outra aula, perguntou a um aluno se ele gostaria de ficar comigo, ao que o menino com uma cara de nojo respondeu que não. Outra vez, um amigo meu dizia que eu era a Carla Perez – meu nome também é Karla – depois de tomar um choque, pois a pele estava escurecida e o cabelo armado, e os meninos que ouviam isso caíam na gargalhada. Tenho outras histórias de “humor para os racistas” que me tiveram como alvo, mas essas são as que mais me vêm à mente. Não é fácil se tornar adulta sem ter uma auto-estima pelo menos um pouco prejudicada depois de humilhações públicas como essas que eu vivi e que outras meninas negras viveram e vivem.

  • Cecília Brito

    Nossa, estou sem fala! O texto disse tudo o que eu sempre quis dizer, mas não sabia como! Obrigada por quebrar esse silêncio! Sempre acompanho o blog e particularmente adoro os textos da Djamila! Espero um dia poder conhecer essa mulher tão porreta!

  • Carla Suarrez

    Um dos melhores textos que já li na vida!! Parabéns, Djamila, você faz toda a diferença!!

  • Quel

    É exatamente assim, essas pessoas que estão por aí se fazendo de descoladas acham lindo rir dos outros, mas quando a gente faz o mesmo, não conseguem achar a mesma graça, falam que a gente apela, que não é a mesma coisa uma piada e outra.
    De fato, não é a mesma coisa, a piada parece só ter graça quando tem a ver com o oprimido. Hoje mesmo um colega fez uma piada sobre o cabelo (lindo!) de um menino negro na rua e eu retruquei, ele estava todo sorridente antes, mas “misteriosamente” ficou mal-humorado quando percebi, apontei e fiz graça sobre o preconceito dele…