Para mim esse texto é um agradecimento meu à Lupita Nyong’o.

Faz tempo que eu não escrevo, tinha perdido a vontade, ou talvez não tivesse nenhum assunto que me fizesse pensar com as palavras, até conhecer a Lupita, moça preta, da pele bem escura, que conseguiu mostrar a nossa beleza pro mundo. Obrigada Lupita!

A conheci no Pinterest, site de referências de imagens, onde a gente consegue montar painéis com diferentes temas, no meu caso, gosto muito e estudo a estética da mulher negra, e comecei a ver nesse site muitas fotos dessa até então desconhecida moça. De primeira, achei ela linda e com um tipo físico parecido com o meu, o que me animou bastante! Eu ainda nem tinha assistido 12 Anos de Escravidão e já gostava dela, gostava porque ela era colorida, literalmente, começando pelo tom de pele, que diga-se de passagem, a gente não vê muito por aí estampado em revistas de moda, nem em comerciais de TV, nem em nada, e depois por ela se permitir ser colorida, ela usava cores alegres, que contrastavam com a pretura da sua pele, nas roupas, nas maquiagens.

Não sei vocês, mas para mim, usar cores já foi difícil, houve um tempo em que usar um batom colorido era impossível, achava que as cores não combinavam com pele preta. O que pode parecer besteira, não é, essa minha insegurança (e acredito que seja de outras mulheres também) reflete o quanto nós, negras, infelizmente ainda sofremos com a falta de referências, essas que crescemos sem.

A falta de mulheres parecidas com a gente, na mídia, seja ela TV, revistas e o que mais possa servir para ajudar a formar uma identidade estética negra, (não para seguirmos à risca, porque eu realmente acredito que não será uma revista que vai me falar o que usar), nos anula enquanto mulheres e consumidoras. E com certeza o Oscar de Lupita representa muito mais do que o resultado de uma linda atuação, representa uma mudança não só estética, mas política também.

E com a falta de tudo isso, acredito que não só pra mim, mas para muitas outras mulheres negras, tanto com a pele escura feita a dela, ou mais clara (porque temos vários tons), a chegada da Lupita, de alguma forma, nos fez sentir assim, representadas. Como se Lupita dissesse por nós – “olha, a gente tá aqui também!”

Porém, toda essa minha gratidão, só poderia ser completa pelo que Lupita representa não só pela beleza dela, ou pelas roupas e maquiagens que ela usa, mas pelo discurso dela também, por ela dizer que não há vergonha na nossa beleza, que somos bonitas também. Imagino quantas meninas negras se sentiram mais felizes vendo uma Lupita, vendo uma Alek Wek, e outras mulheres negras que nos representam. E já aviso, precisamos de mais pretas nas TVs, nos filmes, nas passarelas, espero que não pare na Lupita. Isso me faz pensar nas outras mulheres negras que vieram antes de Lupita ou Alek, me faz pensar em Carolina Maria de Jesus, que com suas palavras e jeito de contar o que se passava na favela, fez com a enxergassem, como mulher, preta e periférica. Recentemente, li um texto publicado aqui no BN escrito por Dulci Lima em homenagem ao centenário de Carolina, onde é contada a importância dessa mulher para nossa sociedade. E penso, como me sinto também agradecida por poder ler o que essa mulher se pôs a escrever.

Penso também em Zezé Motta, Ruth de Souza e tantas outras mulheres, que vieram antes, e que de alguma forma também ajudaram na minha formação enquanto mulher preta. O meu muito obrigada!

Por hora fico por aqui, pensando nos próximos textos a serem escritos e nos próximos batons coloridos a serem usados, porque como bem disse uma vez, uma moça bem preta e bonita “não existe vergonha na beleza negra”.