“é que aos domingos
a tarde é quase mais silenciosa
e as portas fecham-se
para rezar uma oração
de quem partiu
sem deixar bilhete”

O senso comum que se estabelece, o senso comum que versa sobre democracia racial, é o mesmo que nos “arrasta” no labirinto de um processo inadvertido de nos fazer, xs negrxs, mulheres e homens objetos que identificam-se com o modo de estar no chão: de joelhos limpando uma sujeira que não é nossa ou mortos por suas balas acidentais, porém não tão episódicas quanto se acredita por aí.

Os senhores da Casa Grande relegam a nós o lugar de “lá em baixo”, afinal somos a herança viva, a resistência maior de seus atos nefastos, cruéis e medonhos.

CLAUDIA DA SILVA – pessoa negra que tem nome; CLAUDIA DA SILVA – que é além de moradora do Morro da Congonha; CLAUDIA DA SILVA – que deve ser citada para além da condição de “arrastada” pelos limites que separam o porta-mala de seus camburões ensanguentados – do asfalto, da lama, do chão, lugar onde mais que simbolicamente, nos querem ver.

Entender a mensagem desse lugar que nos querem, compreender que a vida não se encerra nos tiros em pontos vitais como cabeça e coração, mas no AR-RAS-TAR -SE desse movimento que é só mais uma forma de açoite livre de chibatas em sua forma física tradicional: requer atenção e cuidado.

Dar-se conta disso agride quem não quer ver – por pura vaidade de NÃO admitir – que goza de privilégios diante dos que continuam sendo “arrastados” pelas mazelas da injustiça, dos que são, cotidianamente, dilacerados com ferocidade pelos dentes afiados do racismo, do descaso e do não reconhecimento da dor que caminha tranquilamente século após século…Baleando-nos, açoitando-nos, multilado-nos… AR-RAS-TAN-DO-NOS…

Claudia da Silva, que representa mais que um indivíduo, não será esquecida, porque nós ainda estamos aqui!

Imagem destacada – Mulher de Moçambique, José Soares (1927 – 1996).