Cansada de tanta dor, tristeza e melancolia, resolvi falar das alegrias de ser mulher negra.

É bem verdade que, no nosso caso (e aqui falo em nós porque acho que represento algumas poucas vozes) tudo precisa ser feito em triplo: ser mais educada, mais polida, mais inteligente – pra provar que podemos ocupar os espaços que conquistamos.

A alegria de ser quem somos, de conhecer nosso passado e por ele mesmo conseguirmos dar a volta por cima. Assumir nossa negritude nos traz a felicidade de se reconhecer no outro e de poder estar feliz com nosso corpo, nossos traços, nossa originalidade. Mas, deixando de lado essas “minúcias”, há alegrias também: a de poder ver na simplicidade, na natureza e ser o reflexo de sua própria alegria. Apreciar o pôr-do sol e poder contemplar cada nascer da estrela, ouvir as crianças brincarem e sorrirem, ao mesmo tempo em que os pássaros cantam.

No ônibus, mesmo lotado, ver um sorriso generoso e uma palavra atenciosa dos trabalhadores na volta para casa.

Tudo isso pode ser até considerado um privilégio, se pensarmos no nosso povo privado de algumas dessas pequenas alegrias. Sim, ver o sol nascer é um privilégio! Apesar das nossas dores diárias, da violência e dos medos que nos assombram (de ser estuprada, do assédio nos lugares públicos, da perda de nossos filhos), ainda há alegria em nos cuidarmos, cultivarmos amor entre os nossos, poder ter orgulho dos nossos cabelos, enfim, poder desfrutar a cada dia de um pouco do que a vida (apesar de sofrida) tem pra nos dar.

E por fim, dizer que a nossa alegria, mesmo que tão sofrida, está em poder enxergar nos nossos uma outra alegria, cada nova vitória. Que a alegria de ser mulher preta nos circunde sempre e, como dizem as Pretas Candangas “por nós, por amor”.

Imagem de destaque – L’Express

  • Dany

    Bom, como tudo, em minha vida, há coisas que gosto e outras não me identifico tanto na cultura negra, o que não quer dizer q eu não me aceite como negra por isso . Gosto de um som forte, imponente, com mais batuque, com uma certa batida; gosto de hip hop, reggae e rap americano, mas não curto samba e pagode (só algumas músicas), gosto de Akon, Banda Reflexus ( galera que passou dos 30 sabe a qual banda me refiro) e algumas músicas de som originalmente africano. Gosto de rastafari, de cachos soltos, pouco volumosos em baixo e não em cima, mas não curto black power, mas o black feminino fica bem em algumas mulheres de porte físico diferente do meu. Gosto do timbre vocal das negras que cantam R&B e A capella, gosto da vibe de algumas músicas que exaltam Iemanjá, apesar de não ser adepta do candomblé, e por aí vai. E admiro pessoas brancas que curtem e se identificam com a nossa cultura, deixando de lado o eurocentrismo. Não há nada mais lindo do que negros e brancos, partilhando as culturas juntos, sem segregação de nada 🙂

  • Larissa Santiago

    Sim, meninas! É sempre um desafio diário. E que cada dia seja mais feliz. beijos

    • Larissa, lindo o seu texto. Ele traduz, e com muita sensibilidade, o sentimento de muitxs de nós. Beijos

  • Natália

    Pra mim vem muita alegria relacionada a ser negra quando, após 18 meses e um corte, vejo meus cachos, bem fechadinhos, mesmo se os cachos que eu preferiria seriam bem abertos. Tem sido uma enorme alegria pra mim encontrar instruções sobre como cuidar de cabelos crespos e descobrir que posso ter meus cabelos naturais, sem me “adulterar” através dos cabelos; e que o cabelo crespo na verdade não é duro. É uma alegria pra mim olhar meus traços de lábios grossos, rosto e nariz redondos… e ver o quanto combinam com meus naturais cabelos cacheadinhos! E o cabelo crespo pode assumir várias texturas! Me alegro vendo cabelos crespos naturais cheios de atitude em outras pessoas.
    É uma alegria ver como, em vez de desanimar, aprendi a ser mais forte, melhor e mais humana com as dificuldades, como rejeição e críticas frequentes, explícitas ou não. Por exemplo, fiquei pensando esses dias que, conforme envelhecer, não ficarei preocupada ou triste em parecer velha e ser preterida por pessoas mais jovens – porque, afinal, ser considerada ‘a menos bonita’ ou ‘menos adequada’ nos acontece desde muito cedo. Imaginem só, receber toda a atenção do mundo – e de repente, isso acabar? Deve ser duro né?
    Me dá alegria ver em mim um tom de marrom ou bronzeado na pele, o tom marrom rosado dos lábios 🙂 e ainda lembrar que minha pele sofrerá menos com o sol e se manterá com aspecto ‘melhor’ ao longo dos anos.
    Uma das maiores alegrias de ser negro é ter maior contato com o samba, uma música tão gostosa! Às vezes, o samba pode vir no ambiente ou “no sangue”.
    Claro, muitas dessas alegrias dependem de que eu veja a beleza e a positividade em nossas características.

    E fico feliz em ver que esse texto pode aumentar as alegrias em cada comentário!

  • Ser mulher, e mulher negra é um desafio diário, com toda certeza. Mas a gratidão de SER e se orgulhar disso nos faz mais fortes. Belíssimo texto e muito bem colocado.

  • São tantas as lutas por ser mulher, se for negra então, ou outra etnia, ainda é mais dura…..
    Será que estou sendo pessimista Larissa?
    Mas quero ter mais motivos de alegria enquanto mulher negra 🙂