Recentemente aprendi muitas coisas sobre a construção do movimento negro no Brasil e pra mim o que se evidenciou – além do fato de ser uma luta que conquistou muito desde os tempos da escravidão – é que se trata de uma luta atravancada por um caminho de espinhos, espinhos tão profundos e duros que ainda hoje nos machucam na mesma intensidade que alguns anos atrás.  É engraçado, de uma maneira perversa, saber que há mais de trinta anos a luta do movimento negro se centrava em demandas que hoje se repetem sem grandes mudanças, com uma semelhança absurda, tão absurda que assusta. Por exemplo em 2014 se observarmos as torturas nas favelas, o genocídio da juventude negra, a grande população negra carcerária, percebemos que tudo isso é algo tão frequente em 2014 quanto em 1980.

A questão é apenas uma: os negros continuam morrendo e é o racismo que está nos matando, a maior porcentagem da nossa população vive na pobreza ou abaixo dela e isso não é só um problema econômico de um país subdesenvolvido, é racismo. Esse racismo é de Estado, de Pátria, de costume que é aprendido e passado de geração a geração. Esse racismo está, fortemente, impregnado nas veias de todo o brasileiro, somos constituídos assim, nascemos dentro de uma lógica racista que ainda tem suas práticas, abusivas e cotidianas, legitimadas por quem ocupa os lugares de poder maior nessa opressão, ou seja, os brancos.

Hoje ainda existem resquícios de teorizações sobre a democracia racial, a miscigenação como uma arma ingênua para o fim do racismo, dentre outras coisas, como o uso da famosa frase “racismo está nos olhos de quem vê” utilizada sempre para silenciar os negros e quem denuncia o racismo. Todas essas suposições e teorizações absurdas são cotidianas e reforçam que o racismo sobreviva e atinja negros em uma intensidade que hoje em dia pode até ser comparada a um racismo antigo de um Brasil de 1980. Amarildos e Cláudias, crimes de ódio que nos rondam como se vivêssemos em um país ditatorial que tortura e mata os seus livremente, porque justiça é uma arma que só funciona se o dinheiro caminhar junto. Seguindo esse raciocínio, quem tem menos dinheiro e menos privilégios é obrigado a tolerar essa situação de violência até não poder mais. As UPPs (Unidades de polícia “pacificadora”) são o maior exemplo de racismo institucional e de tortura em níveis de ditatoriais dentro das favelas e isso acontece há muito tempo, ninguém tem poder para conter tanta brutalidade. Quer saber se você é negro ou não? Pede pra um policial te identificar, ele com certeza vai saber te dar essa informação enquanto te revista desnecessariamente ou te tortura, prende por “engano”.  É assim que o nosso país funciona e sim, estamos em 2014: 50 anos após o fim da ditadura, 126 anos após o fim da escravidão.

É desestruturaste pensar nisso hoje em dia, quando me toco e me vejo afundada em notícias de mortes absurdas, de pessoas torturadas, entro em uma desesperança sem tamanho, mas também ganho um grande impulso para continuar na luta contra o racismo, porque infelizmente estamos muito longe de acabar com ele, a batalha ainda é longa e ela também é a única capaz de nos fortalecer e de nos libertar nesses dias de sufoco e de violência gratuita.

Foto tirada no Complexo da Maré pelo coletivo Fotografia Expandida: https://www.facebook.com/ColetivoFotografiaExpandida

Foto tirada no Complexo da Maré pelo coletivo Fotografia Expandida: https://www.facebook.com/ColetivoFotografiaExpandida

Algo que faria com que as coisas andassem em um caminho menos tumultuado é que brancos, por serem produtores desse racismo, pudessem perceber em suas atitudes cotidianas o preconceito que carregam e disseminam, para que assim possam se prontificar a desconstruir essas tais atitudes. Porque certamente o “pequeno” ato de racismo cotidiano contribui para a invisibilidade do negro, contribui para que ele não ocupe espaços de trabalho iguais aos do branco, espaços dentro das universidades públicas e, também, por incrível que pareça para algumas pessoas, contribui com o genocídio da população negra nas favelas, a violência da polícia, a pobreza entre outras dezenas de demandas. Precisamos parar de olhar o racismo como um ato isolado, de um ou de outro, mas sim como algo coletivo produzido e reproduzido por muitos. Se dermos por conta que o racismo é uma lógica estruturante e que todos nós nos alimentamos dessa lógica – produzindo racismo no caso das pessoas brancas, ou reproduzindo ele como pessoas negras – podemos desestabilizar essa lógica vigente. A maior arma contra o racismo não é só apontar onde ele está escondido, mas também é desestabilizar o racismo dentro de si mesmo para depois tentar construir uma nova ideia de sociedade em que essa mazela não nos atinja tanto quanto hoje.

Sim, é uma tarefa difícil, mas o mais difícil nisso tudo é viver em um país onde a tortura é algo frequente, onde o descaso com a população negra é algo mais frequente ainda e onde a violência é a resposta para toda a questão social de pobreza. Quando se sentirem fracos, desmotivados, pensem nos Amarildos que estão nesse momento sendo mortos sem motivo, nas casas que estão sendo invadidas, nas Cláudias, mulheres negras, trabalhadoras, pobres que estão sendo maltratadas, arrastadas, esmagadas por esse sistema racista. Pensem e ajam contra a dor que esse racismo institucional produz, apenas não se calem porque, amigos, a ditadura não acabou.

  • Norma

    Eu acho muito bom trazer as matérias , mas não vejo nenhum empenho em mostrar solução.

  • A Ditadura empresarial-militar acabou, mas a necessidade de limpeza dos espaços urbanos não. O que temos é um forte processo de higienização. Processo que sempre existiu e se aprofundou com a descida do morro ao asfalto. Assim como uma grande parcela emergente da população a ter acesso a produtos de difícil acesso na época da ditadura como o Mizunão de 900 contos, a Gatonet mediada pela milicia e outros avanço$$$. Há a atuação da mão armada do Estado, que é governado por cidadãos escolhidos através de um processo eleitoral extremamente marqueteiro financiado pela iniciativa privada (sempre é bom lembrar que não se doa fundos para candidato a ou b e que se investe numa campanha eleitoral), para dar limites aos sonhos desta gente.

    O resultado é que a vida na favela é transformada num inferno em que a única existência do Estado se vê na presença da repressão policial. Enquanto o acesso saúde, lazer e instrução fica restrita às zonas centrais de nossas cidades. Tendo em vista este cenário, não podemos dizer quando a favela vai sonhar. Nossa função é resistir. Ocupando espaços, dialogando, ensinando e se impondo.

  • Um dos entraves não mencionados é o fato de que a população branca não se vê como tal. Em geral a população branca se vê como o brasileiro comum.

    Não existe uma percepção clara por parte da população branca brasileira de que ser branco é sim uma grande vantagem. Aliás, a preocupação com o racismo e suas implicações passa longe do ideário desta população específica.

    Lógico que é preciso levar em consideração que a noção de pessoa branca no Brasil é por vezes um conceito um tanto escalafobético (como tudo no Brasil).

    • Perfeito o seu comentário! Tanto não se veêm como tal, que muitos atacam políticas afirmativas. Com o comentário mesquinho de que “branco também sofre”. Claro que sofre. Mas não podemos negar que a população negra nesse país tem sim uma carga de marginalização muito maior, que vem desde o tempo da “libertação” dos escravos, onde foram “libertos” sem nenhum tipo de estrutura para reconstruir suas vidas, e que se perpetua até hoje, onde a maioria negra ainda vive em favelas, sob condições desumanas, exercendo trabalhos de baixa renda, e sendo morta por essa polícia covarde que serve contra o povo.