O prefácio da arrebatadora obra de Neusa Santos, Tornar-se negro (1983), escrito por Jurandir Costa, expõe a relação conflituosa entre o sujeito negro e seu corpo. Nossas identidades dependem da relação que estabelecemos com o nosso corpo, de forma que, ao tomar consciência do racismo, o sujeito tornar-se-á relutante a qualquer assimilação estética ou identitária produto do branqueamento a que fora coagido a desejar. As experiências do corpo vivido de mulheres negras no processo de reconhecimento de sua negritude (re)significam o ser mulher negra e constroem pedagogias de raça e gênero, “saberes construídos de suas relações sociopolíticas, vivências e trajetórias” (SILVA, 2010, p.120). O saber produzido por pesquisadoras negras é localizado e propõe uma ruptura epistemológica com o conhecimento científico eurocêntrico que, investido de uma suposta neutralidade científica, apaga, hierarquiza e desqualifica os estudos sobre população negra produzidos dentro e fora das universidades e dos institutos de pesquisa.

A pesquisa é uma importante ferramenta de luta antirracista. A produção intelectual de mulheres negras brasileiras ganha força no final dos anos 1970 e ao longo dos anos 1980, em um contexto em que a produção acadêmica feminista e os estudos teóricos sobre mulheres não consideravam a questão racial como fundamental para o enfrentamento das desigualdades. Não parecia ser de interesse de intelectuais brancas, de classe média, com experiências de estudo em renomadas universidades norte-americanas e europeias, fazer qualquer análise sobre a situação das mulheres negras e pobres que limpavam suas casas. Essas tinham seu tempo expropriado, enquanto elas participavam de conferências, seminários, encontros feministas e progrediam em suas carreiras. Da mesma maneira, não era preocupação das pesquisadoras brancas refletir sobre como o privilégio da “brancura” atuava em suas vidas, havendo o silenciamento sobre o racismo de gênero e as demandas específicas de mulheres negras tangenciadas pelo discurso universalizante dos direitos humanos das mulheres.

A incorporação das relações raciais nos estudos de gênero no Brasil progrediu de maneira lenta, visto que as mulheres negras constituíam uma minoria nas universidades. A atual situação mostra que os avanços proporcionados pelas políticas de ampliação do acesso ao ensino superior, como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e os sistemas de cotas raciais e/ou sociais adotados por instituições públicas federais, ainda são tímidos. Segundo os indicadores sobre educação, a taxa de escolarização de mulheres negras é de apenas 9%, enquanto entre mulheres brancas é de 23,4% (IPEA, 2011). A inserção de pesquisadoras negras nos diferentes campos do conhecimento tem proporcionado a ampliação do debate acerca de suas experiências, o aumento gradual da produção científica sobre gênero, raça e outros marcadores de desigualdades nos periódicos e, impulsionado a necessidade de institucionalização de um campo de estudos próprio.

Para Kia Caldwell (2000), diferentemente da experiência dos Estados Unidos e da Inglaterra, em que a incorporação das discussões sobre raça nos estudos sobre mulheres aumentou com os passar dos anos, no Brasil essa incorporação encontrou forte resistência, não consistindo uma prioridade para os grupos e centros de pesquisa de gênero. As críticas ao essencialismo feminista estavam presentes no trabalho político e acadêmico de feministas negras brasileiras no início da década de 1980, quando há a consolidação das organizações contemporâneas de mulheres negras e a realização dos Encontros Nacionais (ENMN). No ensaio A mulher negra na sociedade brasileira, Lélia González (1982) enfatizou a importância de se considerar as dimensões de gênero, raça e classe nos estudos sobre mulheres. A pesquisa Mulher negra de Sueli Carneiro e Thereza Santos (1985) apresentou uma análise estatística pioneira sobre as condições socioeconômicas das mulheres negras, apesar da insuficiência de dados desagregados de gênero e raça nas pesquisas do censo da época.

A intelectualidade suspeita a que Bell Hooks (1995) se refere faz parte de uma cultura acadêmica sexista/racista, que não considera as mulheres negras como representativas de uma vocação intelectual. As representações de mulheres negras construídas pelo discurso do colonizador são reproduzidas na sociedade, relegando-nos a um status inferior. Corpos femininos negros são tomados por sua suposta utilidade: o corpo-objeto da mulata que existe para ser consumida; a mãe-preta, figura abnegada e destinada ao cuidado do outro e a trabalhadora doméstica naturalizada no cotidiano das famílias brancas. Nesse sentido, a pesquisa ativista de mulheres negras, além de tornar visível outras possibilidades de existência de mulheres de ascendência africana na diáspora, tem o propósito de fortalecer a produção acadêmica que contemple nossas histórias, vivências e visões de mundo, comprometida com a legitimidade do conhecimento produzido.

 

 Referências:

CALDWELL, Kia Lilly. Fronteiras da diferença: raça e mulher no Brasil. Estudos Feministas, v. 8, n.2, 2000. p.91-108.

CARNEIRO, Sueli; SANTOS, Thereza. Mulher negra. São Paulo: Nobel: Conselho Estadual da Condição Feminina, 1985.

GONZÁLEZ, Lélia. A mulher negra na sociedade brasileira. In: LUZ, Madel, T. (et al.) (Org.). O lugar da mulher; estudos sobre a condição feminina na sociedade atual. Rio de Janeiro, Graal, 1982. p.87-106.

HOOKS, Bell. Intelectuais Negras. Estudos Feministas, v.3, n.3, 1995. p.464-478.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Retrato das desigualdades de gênero e raça. 4. ed. Brasília: Ipea, 2011.

SILVA, Michele Lopes da. Mulheres negras, ativismo e produção de conhecimento. Revista da ABPN, v.1, n.1, mar-jun de 2010, p.113-121. Entrevista concedida à Eliane Cavalleiro. 

SOUSA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Graal, 1983.