Queridos amigos do planeta internet,

Hoje, eu vi um monte de gente aderindo à “campanha” do somos todos macacos. Já entendi a intenção de todo mundo, ninguém é racista, todo mundo humanista, fã de frase atribuída ao Morgan Freeman e de nosso eterno amigo pacifista (sqn) Nelson Mandela, ou Madiba, para os mais íntimos que tanto choraram sua morte. Entendemos o seu ponto de vista, anotado.

Agora, gostaria de convidar especialmente aqueles que estão chamando o pessoal do movimento negro de radical e tentando calar essas vozes com este argumento, a refletir comigo sobre os pontos abaixo:

1) O racismo é institucional, ou seja, ele está ligado à formação do Estado como conhecemos. E nós aqui embaixo de uma estrutura racista reproduzimos ideologias racistas e perpetuamos formas racistas de dominação. Aconteceu, todo mundo criado aqui nesta sociedade, nesta época, não deu para evitar. Foi assim.

2) Por ser institucional, o racismo mata, porque o Estado democrático liberal não garante cidadania para todos (é, gente. Não. Alguém sempre tem mais direitos). No Brasil, com esta disparidade social absurda, que tem raízes na escravidão, mata o DG, bailarino da Regina Cazé, a Claudia, e todo mundo que aparece todo dia no jornal. Todos pretos e pobres. A coisa mais perigosa hoje neste país é ser homem, preto e pobre. Você corre risco de morte se for os três ao mesmo tempo, apenas por existir.

3) O racismo é uma forma de exploração aviltante do ser humano, porque alguém está ficando mais pobre e alguém mais rico. Aqui entra desde a formação do nosso capitalismo, com o trabalhador escravo, que produziu riqueza, até o apresentador de TV que anda vendendo umas camisetas nonsense às custas do sofrimento alheio. Então, vejam, é muita gente mesmo.

4) A Vila Internet amplia a voz das pessoas. Quando elas falam em uníssono, nem se fala. Na facul de RP (obrigada, Cásper) a gente aprende que comportamento de massa é quando as pessoas são tomadas ideologicamente por uma ideia e tem um comportamento baseado nesta ideologia, sem muita reflexão, apenas fazendo coro. Li inclusive um texto falando sobre comunicação e Nazismo, baseado nesta lógica, mas eu esqueci o autor (se algum colega lembrar, por favor me avise).

5) A palavra “macaco” não é só uma palavra. Ela tem história e significado… para os negros, ela tem um significado de violência, ela representa a animalização, como se não fossemos seres humanos. Os negros, desde sempre, lutaram contra esta animalização e isso continua até os super civilizados dias de hoje. Algumas vitórias nós tivemos, outras estão em curso, e ninguém aqui vai ficar quieto. E quando as pessoas brancas em geral querem ditar os moldes da luta, elas estão exercendo o poder de violência que sempre tiveram. Em suma: pimenta no c* dos outros é refresco.

6) “Somos todos macacos” é o “consciência humana” revisitado. É falar sobre cidadania como consenso, e isso não existe. Por que? Porque somos todos diferentes, ninguém é igual a ninguém, todo mundo faz parte de um grupo específico que reivindica coisas especificas. O Estado, gente, não consegue absorver e apaziguar tudo, então mais fácil fazer a gente acreditar que tudo em paz mesmo na guerra, né não? Cada pessoa tem uma consciência e se coloca politicamente de uma forma no mundo. Então, PLIS, não somos iguais. Mas devemos nos respeitar nas diferenças.

Quando você apoia ser um macaco, você está praticando e justificando a violência institucionalizada deste Estado em que vivemos, contra pretos sem defesa e sem amparo, pela maneira mais primordial de violência: a fala. Tô falando de gente pobre, que morre nas favelas todos os dias, que não tem direitos de cidadão. Você amplia uma voz de consenso que é falsa, opressora, e você faz isso contra outro ser humano.

Eu e os pretos de classe média que eu conheço: cagamos se vocês são macacos. Nossa luta é MUITO maior. Não vamos parar de falar e nem de radicalizar.

E nem vamos entrar na discussão de como tudo isso começou, porque não importa…. sempre tem um jogador de futebol que serve de boi de piranha para toda esta falácia.

Fica aqui um pedido a todos que tem bom senso e humanidade: antes de saírem emitindo “opinião” em coro, reflitam.

Obrigada.

  • Hannah

    Excelente texto!
    Sou branca e sigo o blog há um algum tempo. Na verdade, é uma pena que só recentemente eu tenha me dado conta da luta do movimento negro.
    Para mim esse texto foi como um FAQ sobre essa “campanha” ‘Somos Todos Macacos’, já que eu não sabia de modo exato o que ela queria dizer e representava.
    Parabéns e continuarei a ler o blog!

  • Lud

    Estou gorda de tanto engolir as bananas que a sociedade ‘miscigenocida’ brasileira tem me atirado ao longo da minha vida.
    Agora, vocês pararam pra pensar que Daniel Alves JAMAIS seria chamado de negro no BRASIL?
    Então, a banana foi, de certa forma, tapa na sociedade brasileira que alisa cabelo para jurar que é nórdica…

    • Lud

      Aproveito para parabenizar o blog, virou minha leitura obrigatória…

  • Julia

    Só não entendi: “eu e todos os pretos de classe média…” qual a importância da distinção de classe no caso? não estou discordando ou concordando só quero entender 🙂

    • Oi, Julia. Desculpe a demora. Na verdade, este texto estava na minha timeline originalmente, e depois veio pra cá, ou seja, era eu falando com o pessoal da minha rede de contatos. Você tem razão, no cerne da questão não faz diferença, as vozes são iguais. Mas o ponto é que quem é de classe média, em geral, não sofre tanto o medo de ser dizimado. E no Brasil o racismo resulta em mortes de pessoas pobres, por isso essa campanha não é inofensiva, ela ajuda a perpetuar isso. Foi mais uma tentativa de me igualar/ironizar o pessoal que usou a hashtag.

  • Thuane

    É isso aí, Carol, nossa luta é bem MAIOR. Ótimo texto. <3

    • Carol Mendes

      Obrigada!

  • Carol, bom dia.

    Entendi o que você quis dizer.
    Quando vi este movimento dizendo que somos todos macacos, entendi que somos todos grandes primatas, o que do ponto de vista científico evolucionário é verdadeiro.
    Mas tenho dúvidas se as pessoas famosas que apareceram no twitter e afins tem essa consciência científica.
    Outro ponto talvez seria o de se apropriar de uma palavra e transfromá-la. Exeplo, nos Estados Unidos utilizava-se a palavra latino para desmerecer a origem dos imigrantes que vinham do México, Porto Rico e cercanias. O que esses imigrantes fizeram foi transformar o significado da palavra latino, e hoje eles têm orgulho de serem chamados latinos. A ofensa se transformou em um “badge of honor”.
    Entretanto não creio que isso possa ser feito com a palavra macaco.
    Ainda estou a analisar este movimento e ainda não tenho uma conclusão.

    • Morgan

      Adorei o texto… Completamente de acordo..

    • Desculpe a demora para responder.
      O ponto de vista cientifico é discutível, mas melhor nem entrarmos nesta questão. Dê uma olhada no Google, se quiser, em um autor chamado Thomas Kuhn e no livro “a estrutura das revoluções cientificas”. O filme “2001, uma odisséia no espaço” do Kubrick também nos faz pensar sobre o tema do homem x o macaco.
      O processo histórico do racismo nos EUA é totalmente diferente do nosso. Eles sabem muito bem que racismo existe e a luta acontece em outras bases. Aqui, nem o nosso racismo a gente admite, quanto mais ressignificar palavras… estamos a anos luz disso, infelizmente. Ressignificar alguma coisa requer séculos de pressão politica…. não é um jogador de futebol tirando foto com banana que faz isso.
      Acredite na gente quando dizemos que essa “campanha” só reforça o racismo.
      Abraços.