Finalmente havia chegado o dia, 16 de março, depois de semanas organizando um evento muito importante pra nós, exatamente como acontece nos preparativos de Natal na casa de muita gente, receberíamos nossa família.

O Cena Viva Studio estava pronto, a ansiedade estava tão presente que dava pra cortar com faca. Receberíamos as mulheres com quem debatíamos questões tão importantes da nossa identidade, com quem convivemos, rimos, brigamos e choramos por um longo ano.

O som do interfone avisa que nossa primeira convidada havia chegado, tímida a princípio, bem como a segunda moça, a terceira e na quarta já estávamos todas em casa. Este foi o clima do II Encontro de Blogueiras Negras São Paulo.

Logo na primeira atividade, um exercício de empatia, conseguimos nos ver nas outras, éramos ali todas iguais, nas dores, nos amores, nas lutas. Começamos o dia com um abraço, desses que atingem corpo e alma, veio o choro, seguido do sorriso, laços se formaram a partir dali, laços de irmandade.

No primeiro debate falamos sobre o Feminismo e a Mulher Negra, pautar que o Blogueiras Negras é um blog feminista era uma de nossa metas, mas nos primeiros minutos de debate já havíamos mudado de ideia, não se fazia necessário pautar quem éramos, todas ali já sabiam, cabia a nós debater os rumos que daríamos as nossas lutas, conhecer a realidade da outra, olhar outras possibilidades e seguir em frente e em luta. Dividi a mesa de debates com minha ‘sista’ Charô que tanto admiro e com Sueli Feliziani, que encanta ao mesmo tempo que ensina e diverte.

Pausa para o almoço, delicinhas trazidas pro lanche comunitário e a delícia absurda chamada Chica Doida servida em cumbuquinhas a partir das mãos talentosas da Larissa Januário do Sem Medida.

Apesar da vontade de continuar conversando como se não houvesse amanhã com cada moça presente era hora das oficinas.

Alexandra Ravelli mostrou as diferenças das negras de pele fria e as de pele quente, as sutilezas do maquiar, de ser prata ou ouro. A Michelle da Boutique de Kriola arrasou com a oficina de turbantes. Conforme as oficinas avançavam cada uma de nós podia perceber a beleza da outra. Pude ver moças chegando tímidas e caladas e saindo das oficinas iluminadas, ostentando seus turbantes, maquiando umas às outras.

Mais um pouquinho de comida, afinal já passavam mais de 7 horas de evento. O carinho de quem levou comida vegan e pensou na colega, as crianças que se conheceram naquele dia correndo e brincando como se sempre tivesse sido daquela forma, e de verdade poderia ser. Um quilombo de mulheres negras.

Hora da mesa sobre gordofobia e autoestima, assunto que surgiu dentro da comunidade de Blogueiras Negras e que renderia um dia só sobre o assunto, ainda mais quando Jessica Ipolito blogueira negra que escreve no Gorda e Sapatão é quem dá o tom do debate. Faltou tempo pra tanto assunto e a vontade de o dia não acabasse mais.

Encerramos com o sorteio dos produtos e tratamento Makeda, do ensaio fotográfico da Chris do espaço Cena Viva e de Turbantes da Boutique de Kriola.

Saímos deste encontro com a certeza de estarmos no caminho certo, de que lutar do lado dessas mulheres vale a pena, de que quando o peito aperta é necessário que se permita o grito.

O Blogueiras Negras hoje é mais do que texto, é mais do que opinião posta em um espaço virtual. Hoje temos um porto seguro bem real e por essas e outras razões gostaria de agradecer as 92 mulheres presentes, e aquelas que embora não estivessem ao vivo com a gente, ajudaram a proporcionar esta experiência. Muito obrigada mesmo, que venham muitos outros encontros presenciais, em muitos outros lugares. E já que isso aqui é um relato vou me permitir um resumo: FOI FODA <3

Veja como foi o encontro pelos olhos de Nina e Nênis Viera.