Como adulta sempre tive uma relação um tanto estranha com crianças. Certamente eu nutro certa afeição por elas, amo as crianças que fazem parte da minha vida. Mas quando preciso me socializar com elas eu entro num estado meio catatônico. Não sei lidar, não sei conversar, fico meio apavorada. Pode parecer uma situação um pouco engraçada inicialmente, um sentimento de uma pessoa sem experiência com crianças. Há os que dirão “é porque você ainda não tem seus próprios filhos” (sinto dizer, mas parir não é a minha praia), mas penso que essa relação um pouco turbulenta com elas pode ter uma origem um pouco mais complicada.

Desde muito cedo as crianças sofrem influências do meio em que vivem e invariavelmente as reproduzem. Isso significa que se estiverem crescendo em um ambiente em que convivem com pessoas preconceituosas, fatalmente esses preconceitos serão internalizados e reproduzidos ainda na infância. Não vou detalhar conceitos, pois eu não seria a melhor pessoa a fazê-lo, já que meu campo de estudo não é a educação, mas estudiosos como Piaget, Freud, entre outros, separaram o desenvolvimento da criança em diferentes estágios. Segundo estes estudiosos por volta dos sete anos de idade ocorre um processo de socialização primária onde a criança é introduzida a um mundo já previamente delineado e do qual ela terá as primeiras noções do papel que nele terá. A autora Eliane Cavalleiro cita em seu livro “Do silêncio do lar ao silêncio escolar” um trecho bastante esclarecedor sobre este processo:

“Numa dialética homem/sociedade, o novo membro da sociedade interioriza um mundo já posto, que lhe é apresentado com uma configuração já definida, construída anteriormente à sua existência. Assim, interagindo com outros, a criança aprenderá atitudes, opiniões, valores a respeito da sociedade ampla e, mais especificamente, do espaço de inserção de seu grupo social.” (CAVALLEIRO, 2005)

Mas para a criança desta idade qual é a parte da sociedade que a atinge senão o ambiente familiar e escolar? Um bom e simples exemplo dessa interiorização de atitudes é a reprodução de falas indesejáveis para uma criança, como: palavrões, músicas e diálogos de programas inapropriados para a idade. Abro um parênteses para dizer que, por ironia ou não, muitas dessas falas são tidas como “engraçadinhas”, “bonitinhas” e consequentemente estimuladas pelos seus pais ou responsáveis legais. Esse estímulo muitas vezes se dá por acreditar-se que a criança não absorve e não tem capacidade de julgamento sobre aquela informação, ou na pior das hipóteses (porém não menos corriqueira) pela crença de que tais atitudes são corretas e “normais”.

Porém, por mais que até uma certa idade a criança não tenha plena consciência de suas atitudes, esses estímulos são compreendidos como positivos se tornam parte de seu repertório, assim sendo a criança se torna desde cedo um mantenedor de um ciclo de opressões. Assim como a família, a escola tem grande parte da responsabilidade em injetar as mais diversas formas de intolerância e discriminação nas crianças já na idade pré-escolar. Infelizmente a escola ou reforça e compactua com as discriminações (sendo ela mesma o agente opressor), ou se isenta da responsabilidade nos casos, sobretudo de racismo, colocando-os na categorias de “brincadeira de criança”, “criança é assim mesmo” ou pior ainda “educação vem de casa”.

Podemos ainda pontuar, como visão mais ampla, a educação tendenciosa a uma hegemonia branca e a falta de representação dos grupos minoritários no ambiente escolar. Sobre este último ponto, gostaria de colocar uma experiência que tive recentemente ao fazer uma pesquisa para um projeto de sinalização que, na faculdade, terei que realizar. Observando as fotos da sinalização típica feita de EVA das creches, pude perceber que na maioria das vezes em que um ser humano era representado (como na indicação de banheiros) era utilizado cores referenciadas como “bege”, “pele” e similares para a cor da pele e a cor amarela e preta para os cabelos (sempre lisos, é claro). A consequência disso é a pior possível no processo de identificação da criança negra, sua mínima representação, sua inferiorização e em contrapartida um aumento do sentimento de superioridade da criança branca.

“As idiossincrasias estarão determinando as diferenças pessoais, pois esse processo não é simplesmente ensinado: a criança mostra-se como um parceiro ativo, podendo procurar novas informações em outros lugares. Deste modo, as atitudes e os comportamentos sociais não serão obrigatoriamente cópias fiéis das atitudes e dos comportamentos de seus mediadores” (CAVALLEIRO, 2005)

Para concluir, apesar da maior parte da responsabilidade pelo desenvolvimento social da criança ser de responsabilidade dos pais e da escola a criança é fruto do que esses dois agentes mais a sociedade constroem conjuntamente. Falar do racismo praticado por crianças é falar do racismo praticado por adultos. É falar do racismo da sociedade apenas agindo de maneiras diferentes.

Eduardo Cunha, de 8 anos, de São Paulo.

Eduardo Cunha, de 8 anos, de São Paulo.

Referências:

CAVALLEIRO, Eliane. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: Racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. São Paulo: Contexto, 2005.

UNICEF. O impacto do racismo na infância. Disponível em: <http://www.unicef.org/brazil/pt/br_folderraci.pdf>.

Imprensa Oficial. Psique e negritude. Disponível em: <http://livraria.imprensaoficial.com.br/media/ebooks/12.0.813.420.pdf>.

  • julianaferrari

    Peço licença para adentrar este espaço.
    Sou uma mulher branca, cisgênero, candomblecista, mãe de um menino negro, de 4 anos de idade. Sou mãe adotiva e, muito embora eu seu pai sejamos brancos, acreditamos que temos o dever de construir sua identidade racial de forma adequada e positiva, e lutar, não só por ele, mas por todas as crianças negras, contra o racismo. Assim me posiciono sabendo que entre as brechas do texto a seguir pode haver falhas no discurso, me desculpo por elas de antemão, mas peço por favor atenção ao relato que segue, pois embora pareça absurdo, por eu ser uma mulher branca, este espaço das blogueiras negras é um dos poucos espaços onde eu tenho encontrado fontes irmãs de consolo, em minhas leituras, para a criação de meu filho negro, e o texto de Gabriela hoje veio a calhar – até porque todo mundo acha, como vocês bem sabem, que a gente vê racismo em tudo…
    É o que segue:
    Saí, dia 14 de maio de 2014, perto das 16 horas, para pegar meu filho de 4 anos na Escola e leva-lo ao Teatro. Havia comprado antecipadamente ingressos para assistir aos Espetáculos do Palco Giratório do SESC, em Porto Alegre. Comprei diversos ingressos. Alguns para os Infantis. Raras são as oportunidades de ver espetáculos teatrais Infantis de boa qualidade, não pertencentes ao Main Stream dos grandes musicais, e com excelência para estarem em circulação nacional através do Projeto do SESC.
    Tratava-se de “O mistério da bomba H” do Grupo Oriundo de Teatro, de Minas Gerais. O ticket do ingresso dizia que o espetáculo era para a faixa etária de 4 anos. Além disto o Teatro é minha casa, e senti um prazer particular em pegar meu filho na Escola antes do horário para leva-lo ao meu trabalho, de uma certa forma, meu refúgio, o Teatro, aquilo que povoa suas fantasias sobre o que o Pai faz quando não está com ele, quando ele pergunta onde está e dizemos de um ou do outro, está no Teatro, está ensaiando, está dando aulas de Teatro…
    Num primeiro momento um elenco de galinhas, nada demais, espetáculo mineiro, coisa e tal, observei o sotaque, os figurinos, a plateia. Fiquei e fico sempre feliz de ver o teatro cheio de crianças da escola pública. Uma média de idade entre 7 e 9 anos. Dentre estas crianças uma série de crianças negras, como meu filho. Até então nada demais, continuo observando, cenário, luz, logo vi que havia um ator negro em cena, e gosto disto, não posso negar que eu gosto de ver atores negros em cena, na tv, no cinema, ou no teatro. É uma representatividade rara e importante, ainda que se veja quais papéis estão a assumir nas narrativas. Eu sei o quanto o interesse de meu filho se aguça quando um programa infantil tem um ator negro, e que ele se sente representado, de alguma forma, ainda muito em formação no consciente dele, ele já percebe que isto faz diferença em cena e que há ali uma representação com a qual se identifica.
    Passados alguns minutos, galinhas em cena, e eis que surge a primeira surpresa desagradável, o ator branco que faz o prefeito da tal cidade de Galinólpolis (ou coisa que o valha) chama a Galinha interpretada pelo ator negro de “Galinha de despacho”. Meu sangue gelou por dentro. Algumas risadas na plateia (o efeito esperado era este). Pensei naquelas crianças todas assistindo, nas negras, e nas brancas, neste Rio Grande do Sul horripilantemente racista, e na justificação de um xingamento que, sabemos, as crianças negras ali presentes muito ouvem, ou, se não ouvirão, certamente, na Escola, a partir daquele instante.
    Como havia entrado alguns minutos depois do início do espetáculo olhei para a porta, estava difícil de sair. Havia criado expectativas em meu filho para ver o “Teatro”, e agora? O teatro tem mais força do que a TV, o cinema, é ao vivo, de carne, de ossos, e cabelos, cores e cheiros. A cabeça começou a ferver mais e mais. E as crianças? O que as professoras que os acompanhavam, a maioria brancas, iam fazer com aquilo?
    Passam mais alguns minutos e a filha do prefeito resolve consultar uma cartomante para saber onde está a Bomba H (título do espetáculo). Entra em cena uma galinha vidente espanhola estereotipada. Depois de mais alguns minutos ela chama um “assistente”. Entra a galinha feita pelo ator negro. Desta vez ele está travestido de alguma coisa que eu identifico como o estereótipo da galinha de despacho, ou um urubu. Com um figurino muito feio, de penas pretas escuras plastificadas, ele faz trejeitos que remetem aos cultos afro brasileiros. Usa uma gravata vermelha. Se sacode. É o assistente da cartomante enganadora. Os dois malandros fazem par. A espanhola bate nele muitas vezes, muitas vezes. Um dos outros personagens diz que ele fede. Não entendo porque ele apanha tanto no enredo. Quer dizer, entendo, e sei o porquê. A polícia é chamada. Ao perceber a chegada dos “ômi” os dois saem de cena correndo.
    Meu filho pede leite, pede chá, diz que quer ir embora, eu quero também. Começo a ver um jeito de sair dali. Em alguns minutos mais começa uma cena em que é apresentado um anti-herói. Quem o faz é o ator negro. Ele faz todo o repertório da gestualidade heroica de forma ridícula. Sim, talvez um anti-herói possa ser negro, eu particularmente não colocaria um em cena. Neste contexto, no entanto, trata-se de mais um tiro sem misericórdia na autoestima da criança negra. O ator se aproxima de um garotinho da plateia (de cerca de 8 anos), meu filho de 4 me pergunta: “Mamãe, ele é marrom, como eu?” Minha cabeça já doía muito nesta hora. Quem meu filho? (“Não Deus, ele não está perguntando isto”) “O menino, aquele menino” “Sim meu filho, ele é negro, como você” (Ufa, e me iludo, com um “Pelo menos ele não estava perguntando sobre o ator, mas sobre o menino”.) Pelo menos isto, pra me salvar, o ator estava com a cara cheia de pancake claro – nunca pensei que fosse achar isto bom…
    “Mamãe, quero ir brincar no parque”
    E saímos, pela frente mesmo do palco. Minha cabeça latejando.
    Não sei como terminou o espetáculo, não fiquei para ver, ficaria se não estivesse acompanhada de meu filho. Iria conversar com eles, com as professoras, tomar alguma atitude na hora. Esse é meu relato.
    Agradeço a quem o leu até o final.
    Juliana Ferrari
    Diretora de Teatro