„Foi em julho de 1941, na rua dnej em Jampol na Ucrânia que, bem no meio do povoado, vi um tapete de pele humana sobre o chão poeirento.  Era um homem que tinha sido esmagado por um tanque de guerra. Seu rosto tomara a forma de um quadrado, o peito e o abdômen tinham se expandido e retorcido, tomando a forma de um losango. As pernas escarranchadas e os braços meio afastados do corpo igualavam-se às pernas de uma calça e às mangas de um terno, que tivessem sido a pouco engomados e ainda descansassem sobre a tábua de passar… Alguns judeus se aproximaram e começaram a descascar o molde daquele homem morto do chão… Assim que o tapete de pele humana se desprendeu, um judeu fixou o topo da cabeça à ponta de uma pá e foi embora com aquela bandeira.“

Três homens com uma mulher negra, Christiaen Couwenbergh, 1632.

Três homens com uma mulher negra, Christiaen Couwenbergh, 1632.

Esse trecho do romance „La Pelle“ do italiano Curzio Malaparte descreve bem como a população negra é representada nos meios de comunicação brasileiros, como uma figura desfigurada pelos estereótipos racistas, que o transformam numa espécie de molde humano e que quando melhor observado, mais lembra uma coisa, um não-humano. É levantando diariamente essa bandeira da estereotipização, que principalmente as telenovelas brasileiras perpetuam uma imagem equivocada e desumanizada da população negra.

Eu vivo há alguns num país onde apenas 1% da população é negra. Contudo nas propagandas e nas revistas a representação de pessoas de fenótipo negro é mais frequente que no Brasil. Nos programas televisivos (tv aberta), com exceção das séries estadunidenses, britânicas ou francesas, a participação de pessoas negras é menor. Ainda assim, eu me sinto muito mais confortável com essas representações televisivas em menor número, do que no Brasil, onde a representatividade negra é muito maior, mais os estereótipos racistas também. É decepcionante saber que uma nova série estreiará em breve, com quatro mulheres negras nos papéis principais e descobrir que o título provisório é „Sexo e as Nêga“. Atualmente, para uma pessoa negra, ligar a televisão no Brasil causa na melhor das hipóteses, apenas dor de barriga ou gastrite nervosa. A cada série, a cada nova telenovela, eu costumo visitar os respectivos sites e procurar a descrição dos personagens negros. A cada usada para descrever seus papéis, eu vejo um tanque de guerra passando por cima de suas e nossas identidades e transformando-nos em moldes como no texto de Malaparte. Serão necessários mais 126 anos para que nós, cidadãos negros, sejamos representados com dignidade, como seres humanos que somos? Até quando a branquitude brasileira agirá como se o racismo fosse um problema exclusivo do negro? Sim, para o racista, o problema não só é exclusivo DO negro, o problema É o negro, já que sem ele o racismo não existiria. Sem os negros a branquitude poderia fingir ser a Suécia dos trópicos sem medo e culpa.

A rede de televisão brasileira com maior audiência parece ter reservado para cada uma das suas telenovelas, diferentes estereótipos do negro brasileiro. Na novelinha „Malhação“ temos o negro incapacitado e dócil, uma mistura do „preto de alma branca“ e  do „Pai Tomás“, na figura Frédéric (Blaise Musipere), um imigrante haitiano. Apesar do diploma em engenharia civil, o personagem opta por realizar tarefas subalternas na casa de personagens brancos. O motivo dessa escolha seria o trauma que Fréderic teria desenvolvido durante o terremoto em seu país, „ver tudo o que construira ser destruído tinha tirada toda vontade de exercer a profissão“. Esse trauma incomum (normalmente a reconstrução se torna a maior meta de quem perdeu tudo) tem também outra função, a de passar a imagem de uma personalidade conformista do personagem. A revelação do trauma porém, leva-nos a fazer a seguinte pergunta, porque o tal trauma o impede de exercer a profissão, mas não o impede de servir como engenheiro, chefe de obras, pedreiro e pau-para-toda-obra na reforma da casa dos personagens brancos? O trauma de Frédéric mata dois coelhos com uma cajadada só, explica o conformismo e justifica a subalternidade do personagem.

Júlia (Ana Beatriz Cisneiros) é o personagem que serve de intermediário entre os dois mundos, branco-preto ou rico-pobre, da trama. Além disso, Júlia é a típica companheira melhor-amiga-da-protagonista-branca, que apesar de bonita, inteligente e querida, sempre está sozinha, condenada ao celibato. Sua avó materna é extremamente racista e perseguiu por muito tempo o pai de Júlia, nunca aceitando o casamento interracial da filha com ele. Apesar de todo o racismo desveladamente externado da avó, a menina nega-se a aceitar a realidade, mesmo após o preconceito racial da avó ter sido várias vezes confirmado pelo pai. No desenrolar da trama, descobrimos que o racismo da avó vinha de uma desilusão amorosa do passado, quando fora rejeitada pela família do noivo pobre e negro, no estilo „racismo reverso“. Esse discurso de um racismo que nasce de um mal entendido ou do preconceito classista é usado com frequência na série para velar a real motivação.

Numa cena, Frédéric e Júlia vão até uma favela da cidade para realizar uma entrevista. Quando pretendem deixar o local, acabam sendo surpreendidos por um tiroteio. Toda a situação faz com que Frédéric relembre momentos traumatizantes, como a perda de mulher e filhos. Júlia pergunta se ele „conhecia“ aquela situação e mostra-se menos abalada que o amigo. Frédéric afirma que a conhece muito bem, pois a revive com frequência em seus pesadelos. A intenção dessa cena é aproximar o telespectador do drama de Frédéric através do conflito na favela, de repente o Haiti se encontra bem no meio do Rio de Janeiro. O contrário, porém, também acontece, através do contraste mostrado no início da cena, entre o bairro onde vivem Frédéric e Júlia e a favela que visitam. Os dois amigos mais parecem dois turistas ingênuos surpreendidos por um conflito que não os afeta, no máximo por algumas horas, enquanto o direito deles de ir e vir é transtornado. É assim que a favela se torna o Haiti, um país distante, um problema longe dos olhos e cujos problemas só dizem respeito aos que lá vivem. Frédéric é perfeito para o propósito da cena, já que para os brasileiros é tanto a „cara“ do Haiti, quanto da favela. E é sua figura que transmite a mensagem final que é: não se preocupem, a favela não é problema de vocês. Em caso de uma dor na consciência maior, é só estender a mão para um bon sauvage e inseri-lo no mundo de verdade, habitado por brancos, como fizemos com Frédéric.

Nas novelas das seis, os negros também não costumam conseguir muito destaque, continuam fadados aos papéis subalternos e interpretam em sua maioria os empregados domésticos dos brancos. As crianças negras, mais frequentes nesse horário e no das sete, geralmente não têm pais e são as companheiras de jogos das crianças brancas, lembrando o cotidiano de crianças negras do período escravocrata, com a diferença que, naquela época elas desempenhavam tanto o papel de companheiras, quanto de brinquedos de seus senhores.

Na recém terminada telenovela Jóia Rara todos os filhos do personagem Cícero (Jorge Maya) se tornaram, assim como o pai, motoristas da família Hauser. A luta de classes foi um dos temas da telenovela, e da qual os negros só participaram, mais uma vez, apenas como coadjuvantes. O destino de Cícero e seus filhos é um exemplo para o imaginário (ou desejo) da sociedade brasileira em ver a posição social desprivilegiada da população negra como algo imutável e natural. A substituição dos personagens dessa família negra dentro do mesmo papel automatista reafirma o discurso da suposta desumanidade do negro, os igualando a máquinas, recém saídas de uma fábrica. Mas que poderíamos esperar de uma sociedade, na qual um governador, pode afirmar sem esperar consequências que, o ventre da mulher negra „é uma fábrica de bandidos“? Ora, se esse ventre é capaz de ser uma fábrica de bandidos (a quem sabemos falta a humanidade), porque não poderia esse mesmo ventre fabricar máquinas, robôs, para o bem da sociedade? É esse o papel preferencialmente dado aos atores e atrizes negras, o de máquinas que só fazem sentido exercendo tarefas para o lucro de seus donos.

As novelas das sete costumam ter forte apelo cômico, na atual telenovela „Geração Brasil“ não é diferente. Lázaro Ramos interpreta um personagem de destaque, assim como sua esposa Taís Araújo. Outros dois personagens, porém, já vieram para decepcionar. O primeiro é o personagem interpretado por Nando Cunha, o Dante, sambista que não leva a sério a família e „só é bom pra festejar“ como é comentado numa cena. Mais uma vez o homem negro brasileiro é representado como um sujeito preguiçoso, que gosta de viver às custas de alguma mulher e que vive no, para e do samba, que nós sabemos „nem é música de  verdade“. Além disso, fazer música para o preto não passa de um bom pretexto para vadiar, como já nos ensinou Aluísio Azevedo em „O Cortiço“.

A segunda decepção é o personagem Dorothy Benson, uma mulher trans* interpretada por Luís Miranda. Como parece ser quase obrigatório nesse horário, a Globo coloca mais uma vez um homem cisgênero interpretando uma mulher trans*. Como se já não bastasse sugerir que mulheres trans* não passassem de homens vestidos de mulheres, a Globo ainda escolhe Luís Miranda, a quem imediatamente ligamos à comicidade, por causa de suas esquetes em que parodia mulheres, em sua maioria pertencentes à classe baixa. Fica muito difícil acreditar que o papel de Dorothy não seja outra vez uma paródia como em suas esquetes, que Dorothy não represente alguém de quem devemos rir. Mulheres e homens trans* sofrem diariamente com a discriminação e o preconceito daqueles que não consideram suas identidades de gênero legítimas e afirmam serem elas uma farsa. O papel de Dorothy reforça essa idéia, além de coisificar a identidade da mulher trans*, já que Luis Miranda não se veste de mulher para representar uma mulher trans*, ele se veste da mulher trans*, de sua  identidade (ou daquilo que ele julga ser essa identidade) para representar o personagem. Será que a mulher trans* e negra precisa dessa representatividade? Será que podemos considerar esses papéis realmente representativos? Eu, por minha parte, considero esses papéis extremamente ofensivos e desnecessários.

No horário das nove horas a temática das telenovelas costuma girar em torno dos conflitos familiares da elite. Nesse horário vemos o maior números de pessoas negras em papéis subalternos, geralmente interpretando empregadas domésticas. A presença delas tem um só intuito, o de exaltar a superioridade de seus patrões. Que outro motivo teria mostrá-las exclusivamante como a mão que serve, como nas cenas em que os brancos da elite fazem suas refeições? Ou porque seria necessário colocar a empregada de pé no canto da cena, invisível como pessoa, mas visível como parte dos bens da patroa, que se encontra no centro da cena a conversar com seus convidados? A resposta é simples: porque essas mulheres são peças (o mesmo nome que tinham os nossos antepassados no mercado de escravos) que organizam o quebra-cabeça com o qual o racismo brasileiro vai construindo a idéia falsa da superioridade branca e da subalternidade negra. A verdade é que, para os brasileiros o conceito de elite se constrói através da exclusão do negro do meio do qual ela faz parte. Isso demonstra como a branquitude brasileira é tão insegura a respeito de sua suposta superioridade e esse é o motivo pelo qual, ela rechaça qualquer tentativa de minimizar a desigualdade racial.

Na atual telenovela „Em Família“, os personagens negros de maior destaque são tão decepcionantes que, o melhor que uma pessoa negra pode fazer, é identificar-se com os personagens negros de menor destaque, os quase invisíveis, como o enfermeiro do asilo ou uma das empregadas domésticas. A mensagem visível por trás do destino de cada um dos personagens de destaque é que, o negro que se atreve a deixar a posição subalterna prevista para ele, deve contar com um cotidiano de desgraças, como o personagem Dulce (Lica Oliveira), professora universitária, que é rejeitada pelo filho adotivo branco. É inevitável não reconhecer nesse personagem a figura da mãe-preta, que como bem sabemos, era esquecida e rejeitada, assim que o sinhôzinho deixava a fazenda. Será que a rejeição de Dulce é uma punição pela ousadia da mãe-preta em ter abandonado a cozinha e adentrado a universidade?

Os personagens Neidinha (Elina de Souza) e Alice (Érika Januza), respectivamente mãe e filha, têm também destinos que mais parecem „memórias da senzala“. Apesar da declaração de que a cena do estupro de Neidinha teria sido inspirada no caso verídico do estupro de uma turista estadunidense no Rio de Janeiro, a descontração com que o tema foi tratado pela mídia que gira em torno dos acontecimentos das telenovelas, mostra que uma cena, em que uma mulher negra sofre uma das piores violências de que pode ser vítima uma mulher, também traz em si algo de natural, ou melhor, naturalizado pela nossa história. É a memória escravagista remanescente, a que podemos reconhecer na cena do estupro de Neidinha, uma memória que vê com naturalidade a imagem de um corpo negro sendo vítima da violência.

Como se já não bastasse a cena demasiadamente longa, violenta e explícita para uma telenovela, a falta da tematização das consequências e sequelas de tal violência, sugere que um estupro possa ser algo pouco devastador e de fácil superação. A retiro de Neidinha não parece partir do trauma, mas sim de um desejo seu em procurar redenção, como nos velhos filmes em que a moça pecadora recorria ao convento e a uma vida de santidade e celibato para lavar-se dos seus pecados. O asilo onde trabalha Neidinha, distante da cidade, com altares e seus santos pelo cenário relembram um convento.

Já antes do começo da novela havia a suspeita de que a história pudesse ser usada como pano de fundo para o discurso anti-aborto, o que se confirmou. Quando o assunto é a gravidez, Neidinha repete constantemente o seu direito ao aborto, porém o ênfase com que afirma que se decidira pela vida (da criança), dá a impressão que a decisão contra o aborto fora na verdade, a decisão de não cometer um crime. A única culpada por toda a desgraça que recai sobre Neidinha parece ser mesmo culpa dela. Todas as vezes em que se fala de seus estupradores, Neidinha é repreendida por não tê-los denunciado e até mesmo por supostos novos crimes dos mesmos ela já foi considerada responsável. A frase com a qual Alice revela já saber quem é seu pai, mostra qual é a idéia que deve ser passada. Ela diz: „Eu já sei de quem eu sou filha, mãe… De ninguém. Eu sou fruto de um estupro, que você não denunciou!“ Onde foi parar o estuprador, onde foi parar o agente da violência sexual? Nessa frase só há uma culpada, Neidinha, por não denunciar. Essas afirmações levam-nos a considerar, se não seria na verdade a mulher o problema (assim como no racismo o negro), já que, se elas não existissem, os estupros consequentemente deixariam de existir.

Antes de Alice descobrir que era fruto de um estupro, havia a ilusão de que no desenrolar da trama fossem tematizados os diversos traumas e conflitos que envolvem a maternidade resultante de um estupro. A falta de crise existencial acoplada à obssessão de Alice em escarafunchar na lama, como quando declara querer tomar conhecimento de outros crimes cometidos pelos estupradores de sua mãe, mostram o voyeurismo bizarro com que a violência sexual é tratada nas telenovelas. O discurso „a favor da vida“ não deve nos cegar para a constante relativação da violência sexual, como nas cenas de sexo consentido entre os personagens Luiza e Laerte. Às negras porém, não se destina a romantização do estupro, no caso delas a versão cruel do crime parece ser um destino do qual elas não podem fugir e pelo qual elas parecem ser atraídas, como indicam a revelação na mídia de que Alice será estuprada em breve, depois de iniciar a procura pelo pai. Mais uma vez a mídia brasileira transforma o corpo da mulher negra no receptáculo do mal, da violência; um corpo que não é dela, que não lhe pertence, nem mesmo na escolha da maternidade, pois sabemos muito bem que a maternidade de Neidinha não foi uma decisão sua, ela foi uma imposição ao qual Neidinha se rendeu.

O único personagem negro masculino de maior destaque é Jairo interpretado por Marcello Melo Jr., que encarna o estereótipo do negro garanhão, perfeito reprodutor e ao mesmo tempo escravo sexual de Juliana (Vanessa Gerbelli). Jairo, com quem Juliana só se casou porque queria adotar a filha dele, é constantemente humilhado pela mulher e seu ex-marido, que vê sua masculinidade ameaçada pelo mula-to, que ao contrário dele consegue engravidar Juliana.

Com exceção do namoro entre os personagens Alice e Matias, todos os relacionamentos familiares e afetivos dos personagens negros de destaque estão marcados pela violência e coisificação. Aos personagens de pouco destaque como as empregadas domésticas não é concedido qualquer relacionamento fora do ambiente de trabalho, suas existências se reduzem ao ofício que exercem.

A conclusão a que nos leva a análise da representatividade da população negra nas atuais telenovelas, é que, infelizmente, não vale a pena esperar pelo próximo capítulo. Essa análise concisa leva a crer que, atualmente, ligar a televisão constitui-se quase num ato de auto-mutilação para pessoas negras. Não, enquanto a branquitude insistir em nos enxergar como aquele tapete de pele humana do romance de Malaparte, é melhor deixar a televisão desligada.

Entenda

Cisgênero: termo utilizado para descrever uma pessoa cujo gênero, com o qual se identifica é o mesmo designado no seu nascimento

Trans*: é a abreviação do termo transgênero, que refere-se a uma pessoa que não se identifica com o gênero que foi designado no seu nascimento; o asterisco, também chamado de termo umbrella ou guarda-chuva, tem a intenção de englobar as diferentes identidades transgêneras existentes.

Dados sobre o estupro no Brasil: Conselho Estadual de Direitos da Mulher (Cedim), 2008.

Texto citado: Malaparte, Curzio: Die Haut. Fischer Verlag, Frankfurt am Main, 2008. (Título original: La Pelle)