Nos últimos anos, temos acompanhado pesquisas que apontam que negrxs e pardxs têm alcançado posições sociais nunca antes alcançadas desde que xs primeirxs negrxs africanxs escravizadxs chegaram ao Brasil, há cinco séculos. Depois de 126 anos de abolição da escravatura é a primeira vez que vemos avançar significativamente os indicativos relacionados ao número de matrículas no ensino superior, entre negrxs, por exemplo: a quantidade de negrxs e pardxs no ensino superior nacional vem crescendo num ritmo mais acelerado do que o número total de estudantes neste nível de ensino no Brasil. De 2011 para 2012, o universo de matrículas do grupo avançou 15,6%, enquanto o total de matriculados no ensino superior no período subiu 4,4% em todo o país. Há ainda muitas contradições: são expressivos os dados de mortalidade de negrxs – a morte de jovens negros atingidos pela violência urbana aumentou 35,9% (enquanto entre os brancxs caiu), o acesso a cargos de chefia é menor entre a população negra (apenas 5% dxs negxs ocupadxs ocupam cargo de chefia), o empoderamento de negros e negras conquistado a duras penas no último período pode ser notado a olhos nus.

Com muita luta, estamos impondo uma estética própria. Conquistamos a lei 10.639/03 – que ainda lutamos para que seja plenamente aplicada, estamos arrancando o direito de ocupar espaços que gerações inteiras de famílias negras viram pertencer a famílias não negras, como os melhores postos de trabalho e os bancos de escolas e universidades. Se conquistar estes espaços não é uma luta fácil ocupá-los é uma luta tão difícil quanto. É neste contexto, que se coloca o racismo institucional[1], e neste texto gostaria de falar um pouco sobre uma das facetas dele que mais me incomoda: a alcunha pretx metidx. E cada dia me incomoda mais por que tem ficado cada vez mais comum. Ao passo que ocupamos posições sociais de mais importância, este apelido “carinhoso” ganha destaque. Basta ver um negro ou negra, bem vestidx, bem articuldx, ou em uma posição social que historicamente não lhe pertenceu que já vem lá o apelidinho carinhoso: “que pretinhx metidx”.

O texto [CSBdP1]  de Eliane Oliveira, “Tipos ideais negros e a desconstrução de Joaquim Barbosa”, trata de também desta discussão, mais especialmente sobre o Ministro. Independente do mérito do julgamento do mensalão –inclusive tenho divergências com o Excelentíssimo Ministro (olha o atrevimento da pretinha!) – o que se viu na sequência foi uma série de cobranças de que o Ministro Joaquim Barbosa não sabia se “portar” para a posição que ocupava, que ele deveria ser mais humilde para tratar com as críticas dirigidas a ele. Mas, a lista de pretxs metidxs não para por aqui. Temos a Glória Maria, a Luiza Bairros, o Lázaro Ramos, o Anderson Silva, o Neymar e por aí vai.

Diante disso, para escurecer melhor a história, acho que devemos tratar as coisas pelos nomes. Em primeiro lugar o que significa ser metidx? Segundo o dicionário Michaelis,

Metida sf (part fem de meter) gír:  Cópula, coito.

Parece-me bem pejorativo. Ainda assim, tentarei ser um pouco mais condescendente e entender que o termo se refere ao uso mais informal. Segundo o Dicionário Informal:

Metida: Pessoa boçal, prepotente, arrogante, que se considera melhor que as outras, ignorando quem ela considera indigno de atenção.

Isso sim, me parece carinhoso. Ou seja, o racismo criou infinitas barreiras para que negrxs pudessem acessar bens materiais e imateriais numa realidade que cada vez mais aprofunda as desigualdades, então, 126 anos após a abolição da escravatura no Brasil, depois de muita luta ancestral, quando começamos a colher alguns frutos de nossas batalhas, somos apelidados de arrogantes?

Depois de mais de cinco séculos de luta, enfrentando políticas públicas de limpeza étnica e racial que foram e ainda são incentivadas neste país, conseguimos sobreviver, e ainda somos obrigados a ouvir: “Quem aquela pretinha acha que é?” ou “Aquele negrinho é pretensioso”. Este tipo de frase é repetida cada vez que algumx negrx exige seus direitos, usa trajes elegantes, maquiagens, ou mesmo reivindica autoridade conquistada por anos de estudo. O tempo todo nos é exigida uma simplicidade, uma humildade que, na verdade, no nosso caso, é a roupagem da subserviência necessária se quisermos ocupar os lugares que sempre foram reservados aos não negrxs. Ou seja, o opressor age como se precisássemos de sua autorização para ocupar espaços que sempre pertenceram a ele, podemos entrar, mas sem ter seus privilégios. Que fique bem escurecido, o papo aqui não é sobre dividir com o opressor a conta da opressão! Até por que não há arrogância que me transforme coloque em condição de opressora. No capitalismo, é necessário muito mais que arrogância para ocupar a condição histórica de opressor!

Na verdade, este é um dos motivos que recuso o apelidinho carinhoso de “preta metida”. Este apelido vem carregado de racismo simbólico. Através dele, é possível ocupar apenas duas posições: a do negrx que está no lugar aonde não deveria, afinal seu lugar é na senzala ou a do negrx que, supostamente, vai dividir a conta da opressão histórica com o opressor. Depois de séculos gozando o que houve de melhor do capitalismo, agora, que o capitalismo só dá frutos podres, querer dividir a conta com os que foram historicamente oprimidos? No Brasil, vivemos um momento histórico ímpar, nós negrxs tivemos muitas conquistas importantes. Este empoderamento deve ser instrumento para empoderamento de tantxs outrxs, para que muitos outrxs possam acessar o que de melhor a humanidade já produziu material e imaterialmente para que possamos lutar por um outro modelo de sociedade. Quem vai pagar a conta? Já está paga há muito tempo! Meu troco, por favor!



[1] Trato aqui de racismo institucional a partir do conceito de Jurema Werneck “um modo de subordinar o direito e a democracia às necessidades do racismo, fazendo com que os primeiros inexistam ou existam de forma precária, diante de barreiras interpostas na vivência dos grupos e indivíduos aprisionados pelos esquemas de subordinação desse último. (Werneck, Jurema) Racismo Institucional – uma abordagem conceitual, texto produzido para o Projeto “Mais Direitos e Mais Poder para as Mulheres Brasileiras”, abril de 2013.

  • aline pereira da silva

    muito bom o texto

  • Luzia Oliveira

    Interessante…. esse texto lembra-me um certo momento que vivi… Alguém, lá atrás, disse-me: olha só essa pretinha, tem uma beleza exótica e se veste como brancos!! Trabalhava como secretária de diretoria em um sindicato patronal, e neste dia era, uma reunião com os empresários brasileiros e estrangeiros. Depois de alguns dias, recebi uma caixa contendo um perfume finíssimo,
    acompanhado de um convite para sair com o tal empresário que havia feito o comentário. Isto é: além da falta de respeito, na ótica deles nós, ainda tínhamos que os servir na cama.

    • Carolina

      Luzia,
      isso é uma das coisas mais importantes que eu quis destacar no texto: sempre que conseguimos sair do lugar que nos é reservado recebemos ataques para que a gente volte para onde, na opinião do opressor, nunca deveríamos ter saído. E estes ataques são das mais diversas formas… os “elogios”: exótica, se veste como brancos, na minha opinião entram no mesmo bojo do pretinha metida…. é só mais uma tentativa de nos colocar num lugar de subalternidade.
      Obrigada por ler o texto e contribuir com sua opinião.
      Abraços

  • Isso se torna mais grave ainda, quando além de ocuparmos cargos que antes nos era quase impossível, usamos a nossa estética identitária, como cabelos não alisados, vestimentas, tranças, etc. Aí branquinho pira de vez!

    • Carolina

      É Monaliza!
      Este é o grande que estamos dando. Avançar para lugares que sempre nos foram negados sem precisar nos “embranquecer”.
      Obrigada por ler o texto e comentar!

  • Lamentavelmente até o momento não estamos sabendo como conquistar esse “emponderamento preto”, porque temos inúmeras organizações negras pelo Brasil – todas com seus interesses legítimos (?). Mas tais organizações têm se mostrado incompetentes em construírem canais de comunicações e discussões entre si que resultem em descobertas de pontos de vistas comuns (exs.: organizações negras femininas e masculinas separadas … entre outras), que resultem na elaboração de uma agenda política representativa de todas elas(organizações negras) e capaz de dar protagonismo e apoios políticos às lutas antirracistas.

    • Carolina

      Olá José,
      entendo o que você fala, é muito triste ver que muitas vezes o movimento está desarticulado. Mas, é importante considerar que nosso povo enfrenta um inimigo muito forte que usou de estratégias perversas para destruir nossa identificação enquanto povo. Estamos tentando resgatar desde que x primeirx negrx escravizadx chegou no Brasil, mas fomos duramente atacadxs e apartadxs não só fisicamente, mas culturalmente. Por isso a importância de cada um e de todxs nós nessa luta!
      Obrigada por ler o texto!
      Abraços.

  • Angela

    O que dizer? Somos criadas para achar que esse apelido nos valoriza, felizmente tudo tem mudado, depois de tantos seculos.Vamos cada dia mais ocupando nossos espaços.Vamos para frente.Parabens pelo texto, como sempre voce, é meu orgulho.

    • Carolina Santos Pinho

      Este apelido nos acompanha por tanto tempo que parece até que nos valoriza….
      Este texto é resultado de um incomodo cotidiano de ver que este apelido tem muito mais do que parece por trás.
      Obrigada por ler o texto e me ajudar a construir minhas reflexões.
      Um bju

  • Belízia

    Bom texto, bom questionamento. Sim… temos que ter sempre esta atitude de empoderamento em nossas conquistas. São direitos que foram renegados a mais de quarto séculos e agora é a hora de dar o troco e devemos dá com toda maestria!!! bjcas

    • Carolina Santos Pinho

      Obrigada por ler o texto, Belizia! Que bom que gostou!
      Bjus

  • Andrea Estevam

    É exatamente isso!!!
    Lembram daquela campanha “Onde você esconde seu racismo?” O racismo escondido aparece quando nosso talento e sucesso ameaçam ambientes historicamente ocupados por brancxs…No curso que estou fazendo, um professor loiro, alto e de olhos verdes, detona diariamente com a política de cotas, especialmente esta que reserva vagas em concursos publicos…. Ele não reconhece que é uma conquista histórica da luta negra no Brasil e não reconhecerá pois é um privilégio que o grupo étnico dele perderá pelos próximos 10 anos… Nós afrodescendentes devemos nos empoderar para usufruir, com a leveza quemerecemos, dos direitos con-quis-ta-dos….ninguém nos deu nada, tudo é resultado de luta!

  • Carolina

    É disso que estou falando Evelin!
    Quando não você é confrontada para saber se tem conhecimento sobre sua área. E se prova: “que preta metida!” É sempre uma busca para que a gente decepcione e na primeira esquina afirme: não disse que ela não ia conseguir! Mas conseguimos!
    Infelizmente, ainda somos poucos os que chegaram a espaços de empoderamento, mas, nossa tarefa é fazer com que nosso possa avançar mais e mais e mais e mais!
    Obrigada por ler o texto!
    Um beijo!

  • Depois eu falo q tenho vergonha de escrever aqui, e a galera n entende na comu do face”!hahahahhahaha! Só texto maravilhoso, benza Deus!

    • Carolina

      Vem que vem Maurine!
      Arrasa!
      São maravilhosos, por que a vida do povo preto muito dura e a gente conseguiu sobreviver!
      Espero que você tenha se identificado com o texto!
      beijos

    • Larissa Santiago

      Maurine, vem preta!
      Escreve com a gente, mande bala…
      Carolina realmente tocou fundo com o texto, mostrando pra gente que “ser metido” tem a ver com a imagem que o próprio sistema criou pra nós: de ser submissos.

  • Comprei um fusion 2014 (A vista) e já escutei “neguinho metido” duas vezes.. pq será? rsrs só observo..

    • Carolina

      É Lincoln,
      o importante é a gente não se deixar abater por este tipo de comentário e saber de onde ele vem. É uma cultura racista que quer nos convencer de que estamos fora do nosso lugar. Que bom que você tem a dimensão de que não estamos.
      Acho que além de observar, temos que nos colocar e não aceitar esse tipo de colocação!
      Obrigada por ler o texto!
      Um beijo!

  • evelin

    Como advogada, posso falar por experiência que já ouvi muito desse apelidando de “preta metida” simplesmente pelo fato de me impor e exigir o que eu quero. Alguns ainda acham que apesar dos negros ocuparem melhores posições, devem sempre ser submissos e aceitar o que lhe dão. vamos mudar isso minha gente!!!

    • Carolina Santos Pinho

      É disso que estou falando Evelin!Quando não você é confrontada para saber se tem conhecimento sobre sua área. E se prova: “que preta metida!” É sempre uma busca para que a gente decepcione e na primeira esquina afirme: não disse que ela não ia conseguir! Mas conseguimos!Infelizmente, ainda somos poucos os que chegaram a espaços de empoderamento, mas, nossa tarefa é fazer com que nosso possa avançar mais e mais e mais e mais!Obrigada por ler o texto!Um beijo!